45. Flores te lembram de alguém?

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Mikael está sentado sobre a pequena cadeira de balanço que sua mãe deu-lhe há alguns anos. Per se aproxima em passos lentos, observando o bosque e o céu estrelado sobre eles.

Realmente dormira por muito tempo.

― Pai?

O homem corpulento vira o rosto e sorri ao avistar o filho.

― Deveria vestir umas roupas mais grossas. ― comenta após tragar o cigarro.

― E o senhor deveria parar de fumar. ― ele se senta na poltrona suja e velha, ao lado de Mikael.

― Não me culpe!, foram dias estressantes, meu rapaz.

De fato, Per deveria usar roupas mais grossas. A noite está muito mais fria que a manhã daquele dia.

Ninguém manda ser tão magro.

― Pode me contar, direito, o que aconteceu? ― Per vai direto ao assunto que tanto lhe atormenta nas últimas horas.

O homem suspira pesadamente e evita olhar para o filho mais velho. Per não sabe ao certo se ele envelheceu ou aqueles dias estressantes foram o suficiente para deixá-lo com mais rugas e olheiras.

― Anders estava pedalando naquelas trilhas de Alby com alguns colegas da escola. Pelo que eu entendi, ele acabou caindo num barranco e bateu a cabeça.

O homem faz uma pausa para pegar outro cigarro e o acende.

― Céus!, eu vivo dizendo para ele usar a porra do capacete! ― respira fundo e continua― No hospital, ele se reclamou de que não conseguia mover as pernas. Depois os médicos explicaram ― claro, com todos aqueles termos idiotas ― que ele havia quebrado algumas vértebras e lesão medular, e ainda teve princípio de pneumonia.

― Só sei que ele vai ficar em coma induzido por um tempo e depois... nem sei se esse quadro de paraplegia é reversível.

O silêncio entre os dois se estabelece de forma repentina. Tendo como som apenas os ruídos do assopro do pai e dos pinheiros a dançarem de acordo com a ventania.

― Eu queria... ― Mikael suspira e Per consegue ver os seus olhos marejados ― Proteger vocês. Proteger de tudo.

O garoto raramente vê seu pai daquele jeito. É constrangedor.

Não que Per seja insensível. Longe disso. Ele apenas não sabe como reagir ou como lidar com aquilo. Não sabia se devia consolar o pai ou apenas tratar de forma natural.

A humanidade é complicada, de fato.

― É impossível... impedir algumas coisas. ― diz numa tentativa de consolar o pai.

― É, eu sei. Mas não me impede de querer cuidar de vocês. ― ele apaga o cigarro com a sola do tênis e joga para longe ― Céus, Per! Me vejo da mesma forma de quando você rompeu o baço; o mesmo desespero e aquela... sensação de impotência.

Ele não é o único.

A humanidade é tão hilária e desgraçada.

A essência do ser humano é a impotência. É pequeno demais para esse Universo. Por isso que atribuíam fenômenos aos deuses, era bem mais fácil para conformar-se com a pequeneza e com a incapacidade.

Os deuses eram a justificativa para as suas insuficiências.

Mas o tempo passa, e agora as pessoas não acreditam em deuses, e nem em Deus. Vê o quanto é difícil conformar-se com a inaptidão agora?

Não há mais entidades poderosíssimas para servir de símbolo. Não há mais escapatória para a impotência.

Agora, a única solução é aceitar a miudeza da merda que é a humanidade. E aí está o maior obstáculo.

O Violinista no JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora