88. Atlas

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Música recomendada: Hung On a Hook, Alice in Chains

Lúthien se observa diante do espelho que cobre toda a parede do quarto de hóspede. Ela nunca sentiu tanto nojo de si mesma.

Nua, ela pôde ver tudo. Seu corpo alto e magricela. As sardas que cobrem a barriga, braços, pernas, peitos... ela gostaria de arrancá-las com as unhas.

Seu maldito cabelo cacheado que ela tanto odeia.

Seu rosto inchado e abatido...

Ela queria chorar, mas as lágrimas não saíam. Ela queria gritar e socar o espelho até que os pedaços lhe cortassem, mas está tão fraca que mal consegue se mexer para vestir uma roupa limpa.

Já é noite e ela está sozinha em casa com o seu primo Harvor, enquanto Kristian saía em busca dos outros que estavam à sua procura.

Deplorável, desprezível.

Ela resolve começar a se arrumar quando escuta sua família chegando. Seu coração afunda e o corpo esfria quando ouve a voz da mãe. Ela sente vontade de vomitar de tanto nervosismo, e odiaria ter que ver a mãe agora.

Ela gostaria de ligar para Erik, ele saberia o que dizer para confortá-la. Gostaria de ligar para Giorgos ou Sigrid que conseguiriam distraí-la de tudo.

Mas seus anseios não são correspondidos quando sua mãe entra no quarto, correndo e desesperada.

Lúthien não tem mais forças para parecer que se importa com a educação, então sequer se vira para ver a mulher.

― Querida! Oh, meu Deus, fiquei tão preocupada! ― Melina grita enquanto abraça a filha com todas as suas forças.

A garota se mantém quieta e com os braços colados ao corpo, e assim que se livra dos braços de sua mãe, volta a vestir o moletom.

― Kristian contou onde esteve. Por que fez isso, minha filha?

Sem respostas.

Lúthien calçou as meias enquanto observava através da janela para o campo. Já era escuro, mas podia ver claramente as estrelas.

― Luffie ― Melina toca em seu ombro, causando um arrepio de raiva ―, perdoa a mamãe. Eu estava zangada. Seu pai me contou tudo o que aconteceu nos últimos meses. Soube que você brigou na escola, ficou de castigo, soube que foi encontrada no meio do bosque com aquele rapaz...

Melina observa a reação da filha, mas Lúthien está quieta, focada no reflexo fraco da janela. Seus olhos estão baixos, introspectivos.

A mulher ergue os braços e acaricia os cachos úmidos da filha, ela sorri fracamente e reflete o quanto a garotinha cresceu em altura e também em maturidade. Para Melina, Lúthien começava a sua fase rebelde.

― Me desculpa por aquilo que eu disse, minha pequena. Eu estava nervosa, cansada...

Lúthien assente murmurando qualquer coisa. Não queria discutir, não queria ser sincera, só estava ansiosa para ficar sozinha logo.

Ela não queria nem mesmo interagir com os irmãos mais novos.

Por um momento, ela imaginou seus irmãos pequenos em sua situação. E se ela salvasse os pequenos da morte? Eles sentiriam aquela culpa corrosiva?

Seu peito dói com essa alternativa. Ela odiaria que seus irmãos passassem por isso. E então outro pensamento passou por sua mente: "Angeliki também odiaria o que estou passando agora".

Será que ela descansa em paz mesmo sabendo que eu estou me culpando por sua morte?

Sua garganta arde, mas não se permite chorar perto da mãe.

O Violinista no JardimHistórias para pegar e não largar. Descubra agora