capítulo 32

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Sua função era encorajá-lo, repetindo que suas forças voltariam gradativamente, que as coisas iriam melhorar.


Mas, ao ouvi-lo caminhando em direção à cozinha, esqueceu-se de todos os avisos e recomendações. Ele parou na porta com o zíper do jeans aberto, a camisa desabotoada, descalço e o corpo e os cabelos ainda úmi­dos. Seu olhar revelava frustração. Ao vê-la, ergueu o queixo, como se a desafiasse a fazer algum comentário inadequado.


Dando-lhe as costas, Dulce tirou dois copos do ar­mário, enchendo-os de chá. De repente, percebeu que enchera demais o copo de Ucker. Ele poderia ter pro­blemas para segurá-lo.


-     Deixe - ele a impediu de esvaziar o copo. - Conseguirei.


Com movimentos que pareciam em câmera lenta, ele colocou a mão no copo. Circulou um dedo ao redor da superfície. Depois, outro e outro, até que o copo ficou seguro na mão dele. Cerrando os dentes, levou-o à boca. Os nós estavam brancos pelo esforço.


Dulce observava em silêncio. Depois de depositar o copo vazio sobre a pia, Ucker olhou-a com arrogância.


-     Você está parecendo minha mãe quando me via subindo ao telhado para pegar o gato. Previno-a de que se disser "Muito bem, Christopher", eu atiro este copo na parede.


Não era o que pretendia, mas, de repente, Dulce com­preendeu que qualquer coisa que dissesse, soaria num tom de condescendência. Tornou a encher o copo dele.


-     Se você atirar este copo, terá dois trabalhos ex­tras. Recolher os cacos de vidros e enxugar o chão.


Encararam-se por um longo momento. Então, os lá­bios de Ucker se curvaram num sorriso indolente e encantador.


-     Você é esperta, Dulce.


Ela prendeu a respiração. Ucker era perigoso e a única solução era manter-se bem longe dele. Precisava fazer alguma coisa. Não conseguia pensar e fitá-lo nos olhos ao mesmo tempo. Desviando o olhar, pegou-se mi­rando o peito exposto e os pelos sedosos que o cobriam.


-Os botões ainda são um problema - ele explicou, como se adivinhasse os pensamentos dela.


-Posso abotoá-los, se quiser. - Não queria cons­trangê-lo, mas, notando uma chama surgir nos olhos dele, perguntou-se quem estaria mais constrangido na­quele momento.


-Deixe para lá, Dulce. Vestir-me não faz parte de suas funções.

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