capítulo 83

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A semana voou e, de repente já era sábado, Dulce estava determinada a mostrar-se entusiasmada e encarar a despedida de Ucker como a de qualquer outro paciente.


Levantou cedo, preparou um esplêndido café da ma­nhã, planejou atividades para ela e Charles. Poderiam limpar a casa, ir ao parque, ler, desenhar. Eram pas­satempos simples, mas divertidos.


No final da tarde, já não sabiam mais o que fazer. Em vez de alegres, sentiam-se desanimados. Dulce es­tava irritada consigo mesma, por sentir-se daquela maneira, por ansiar que o tempo passasse para que Ucker...


-Mamãe? - A voz aguda de Charles interrompeu os pensamentos dela.


-Sim, querido? Quer saber as horas de novo? Não faz nem dois minutos que você perguntou - ela disse num tom indulgente.


Sentado no chão, com as pernas cruzadas, ele de­senhava na mesa de centro.


-Não, mãe. Sei que Ucker ainda vai demorar. Você me disse. Quero que soletre uma coisa para mim. Como se escreve Grande?


Grande? - Dulce ergueu uma sobrancelha, surpresa. Raramente, Charles lhe pedia para soletrar pa­lavras. - Ok. Vamos lá. - Ela soletrou e Charles escrevia, apertando a língua entre os dentes.


¾ Ok. Agora, cabelos.


-O que você está escrevendo, afinal? - Inclinando-se, ela tentou ler o que ele escrevia.


¾ Nada, mãe. Só mais uma palavra, tá? Uma só. Ela encolheu os ombros.


¾ Quantas você quiser, querido. Diz a palavra.


¾ Amarelos.


Dulce encarou o olhar determinado de Charles. Dei­xando o desenho de lado, ele escrevia num pedaço de papel. De imediato, Dulce reconheceu a lista. Viu que ele escrevera Grande ao lado da palavra Baixo, já ris­cada. Então, ela compreendeu que o próximo item seria Cabelos amarelos. Sua primeira reação foi protestar, explicar novamente que as coisas não eram bem como ele desejava. Porém, ela reconsiderou a tempo e sim­plesmente soletrou a palavra. Aquele não era o mo­mento para discussões. Já explicara ao filho que Ucker não poderia ser seu pai. Charles sabia, mas não se importava. Continuava descrevendo Ucker em sua busca por um pai. Nada o faria mudar de idéia. So­mente o tempo e a ausência de Ucker o convenceriam da realidade.


Distância de Ucker, era o que ambos precisavam.


Dulce comprimiu os lábios. Seu coração era tão tei­moso quanto Charles. Ela ainda queria um dia com Ucker. Mais um dia perto dele. Mais um dia para acumular lembranças que durariam para sempre.


um pai perfeitoHistórias para pegar e não largar. Descubra agora