capítulo 79

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Ucker não conseguiu sustentar o olhar cheio de desculpas de Dulce. Ele se sentia um verme. Um egoís­ta por fazê-la sentir-se mal só porque ele não precisava mais de atendimento terapêutico.


- Dulce. - Ele segurou-lhe as mãos. - Pare de ficar me pedindo desculpas. Não mereço. Será que você ainda não aprendeu a não ouvir tudo o que eu digo? Você não percebeu como sou estúpido? Tenho lhe falado tantas coisas ásperas! Ainda há pouco, quando falei em aviso prévio, eu estava brincando, Dulce. - Passou a mão pelos cabelos. - Não posso acusá-la de nada. Você é a melhor terapeuta do mundo. Você me enfren­tou, apesar de tê-la praticamente expulsado de minha casa. Quando ninguém, além de Dan, tinha paciência para ficar comigo, você ficou. Por favor, não pense que a estou criticando. Estou apenas me adaptando, acos­tumando a pensar em mim como um homem inteiro.


- Você está feliz?


Não, ele não estava feliz. Provavelmente, nunca mais conheceria o verdadeiro significado dessa palavra. Mas Dulce não se referia à sua vida pessoal, e sim, ao fato de estar recebendo o sinal verde para retomar a carreira que, um dia, representara tudo para ele.


- Estou feliz, sim.


Era uma mentira monstruosa. Porém, em poucos dias, quando ele assimilasse a nova realidade, quando se conscientizasse de que estava livre de Dulce saviñón, ele seria feliz, com certeza. Pelo menos o peso da presença de Dulce desapareceria de sua vida.


- Estou feliz - repetiu. - Obrigado. Se hoje ainda não é o fim, quando, exatamente, cortaremos esse cor­dão que nos mantém presos, Dulce? Quando daremos um fim a essa coisa de uma vez por todas?


Dulce hesitou. Mordeu o lábio.


¾ Nós... Digamos, sexta-feira. - De novo, o sorriso profissional. - Isso nos dará tempo para termos cer­teza de que está tudo realmente em ordem.


¾ Sexta-feira... - O final da semana. Uma decisão lógica. - Por que não no sábado? - Ucker não acre­ditava que fora ele o autor da pergunta. Afinal, não havia razão para prolongar ainda mais aquela situa­ção. Por outro lado, justificava-se com a desculpa de que nunca vira Dulce nos fins de semana.


-     Sábado? - Ela inclinou a cabeça. Nos olhos azuis-esverdeados, uma sombra de aborrecimento. Ela mor­deu o lábio e Ucker desejou que ela não fizesse aquilo. Preferia que ele apenas sorrisse. - Desculpe, mas acho que não entendi. Por quê?


Ucker deu um passo na direção dela, bloqueou a mente para o bom senso e até conseguiu sorrir.

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