capítulo 14

163 8 6
                                        


Dulce reconhecia que ela e o Dr. Anderson haviam vencido um grande obstáculo. Porém, no dia seguinte, bastou entrar na casa de Christopher Uckermann para compreender que sua tarefa seria árdua.


Carregada com os equipamentos, abriu a porta e entrou na casa, dando de cara com o segundo botão da camisa de Ucker. Recuando alguns passos, en­frentou seu olhar hostil.


-     Está atrasada, srta. Saviñón - observou. - Ou­tra vez.


Ele estava com as pernas entreabertas, braços cru­zados, enfatizando o peito sob a camisa branca. Era muito mais alto do que ela. Muitas mulheres ficariam intimidadas. Ou intrigadas.


Dulce apenas lançou rápido olhar para o corpo ex­pressivo, detendo-se nas mãos que deveriam estar ro­deando os bíceps. Ele não sabia o que fazer com as mãos, as mãos que, um dia, haviam sido flexíveis, talentosas, capazes de realizarem as cirurgias mais delicadas.


-     Que bom saber que estava preocupado! - ela disse, abrindo-se num sorriso.


Ucker contraiu os maxilares.


-     Preocupado não é bem o termo, srta. Saviñón. Estou apenas decepcionado por você ter voltado. Eu esperava que fosse razoável e desistisse.


-     Razoável? - Dulce arregalou os olhos. - De onde tirou a idéia de eu seria razoável? Os bons fisioterapeutas não o são. São pessoas intrometidas, autoritá­rias que não conhecem o significado da palavra desistir. Aliás, o que é muito bom. Muitas pessoas que hoje dançam tango ainda estariam presas a uma cadeira de rodas, se o terapeuta delas fosse razoável. Agora, estenda as mãos.


Ucker não se moveu.


- Estenda as mãos, Dr. Uckermann - ela repetiu lentamente.


- Para quê?


- Para isto. - Mostrou a caixa que carregava. - Coloque-a em algum lugar, Vou buscar o restante dos equipamentos no meu carro.


Ele continuou imóvel.


-     Olhe, Dr. Uckermann. Não é pesada e garanto que não há dinamite dentro. Você tem braços e palmas da mão. Use-os.


Com isso, Dulce praticamente atirou a caixa na di­reção dele. Num gesto instintivo, Ucker abriu os bra­ços, pegando-a no ar. Dulce conteve um sorriso. Feliz­mente, os reflexos dele ainda estavam bons.


Contudo, ela não fez nenhum comentário. Nem um elogio para um homem que vegetava havia dezoito me­ses. Ela não saberia explicar o motivo. Normalmente, não poupava palavras de incentivo a cada passo con­quistado. Porém, alguma coisa em Ucker, seu olhar, ou sua postura talvez, dizia que ele não aceitaria os cumprimentos dela, que ele recuaria diante de uma única palavra. 


um pai perfeitoOnde histórias criam vida. Descubra agora