capítulo 72

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Pelo modo como Charles ergueu o queixo, Dulce per­cebeu que ele iria argumentar. Gentilmente, pousou o dedo nos lábios dele.

- Por favor, Charles. Mamãe está cansada.

Era um desculpa frágil, quase uma mentira. Entre­tanto, não estava disposta a passar mais uma noite em claro, pensando nas novas exigências do filho em relação ao futuro pai.

-     Ok - ele concordou, por fim. - Mas, leia de novo e aponte cada palavra com o lápis. Devagar. Que­ro ter certeza do que escrevemos.

Dulce leu os itens que sobraram da lista. Como ele pedira, ela ia mostrando cada palavra que lia.

-     Médico não. Não ter medo de monstros, nem de crianças. Está contente?

Charles parecia cético.

¾ Só mais uma coisa - pediu. - Só mais uma. Dulce soltou um longo suspiro.

¾ O quê, meu filho?

- Escreva: Não precisa ser bom com quebra-cabeça. Porque eu posso ensiná-lo - explicou. - Eu sou muito bom com quebra-cabeça.

-Charles - ela falou com suavidade. Detestava a idéia de destruir a esperança recém-nascida, mas pre­cisava fazê-lo. - O Dr. Uckermann não pode ser seu pai. Esqueça.

Ela esperava que Charles a questionasse. Porém, para sua surpresa, ele simplesmente concordou.

- Sei, mamãe. Hannah disse que era uma pena Ucker não poder casar de novo, porque ele seria um bom marido. Ele não pode ser meu pai se não se casar, não é?

¾ Hannah disse isso?

-Disse. Para o Ucker mesmo. Eu ouvi. Ele fez cara feia para ela. Não perguntei nada para Ucker não ficar bravo comigo.

- Entendo. Então, por que quer alterar sua lista?
Encolhendo os ombros, Charles tirou-lhe o papel da mão.

-     Talvez, exista outro homem que conheça essa tinta antimonstro. Como na tevê, quando um cara tem um irmão gêmeo que nunca viu. Talvez exista alguém igual a Ucker.

Decididamente, Charles andava assistindo televisão demais. Naquele momento, porém, aquele não era o tópico mais importante da conversa.

De repente, ela se pegou partilhando das esperanças do filho. Talvez, em algum lugar, existisse alguém igual a Ucker.

Mas, não. Não havia ninguém igual a Ucker. Logo, não haveria nem mesmo Ucker na vida de Charles e na dela. Aquele era o objetivo da terapia. Tratar do paciente e deixá-lo ir.

Não poderia esquecer-se disso em momento algum.

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