capítulo 40

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Não, Ucker. Ligo depois.


-Não estarei aqui. Já pedi para não se preocupar. Cuide de seu filho. Ele precisa de você. - Com isso, ele desligou o telefone.


Ele sabia que Dulce tornaria a ligar. Não poderia ignorar o chamado. Estava na hora de sair.


A porta parecia extremamente grande e ameaçado­ra. Havia muito tempo que não ia a lugar nenhum.


Na verdade, havia muito tempo que não fazia absolu­tamente nada. E, definitivamente, não se lembrava de ter feito algo por alguém havia muito, muito tempo. Talvez, devesse não fazer naquele momento. Ir à casa de Dulce era loucura. Era arriscado. Era envol­vimento demais, algo do qual se arrependeria mais tarde. Algo que deveria encarar eventualmente. Mas não naquele dia.



Dulce observava o filho brincando. Ele era tão pe­queno. E, doente, parecia ainda menor. A ânsia de protegê-lo do mundo era muito maior do que o normal. Todos os seus instintos protetores haviam aflorado com força total.


Estava tensa. Ucker avisara-a que iria à sua casa. Ucker, que um dia lhe ordenara para não levar Char­les à casa dele. Ucker, cujos olhos se enchiam de desolação sempre que pensava numa criança de seis anos, de repente, se oferecera para ir até lá, mesmo sabendo que encontraria Charles:


E Charles, que decidira que seu "papai" não seria um médico, justamente por causa do homem que lhe roubava algumas horas com a mãe, teria que dividir seu espaço com o Ucker.


Sim, Dulce sentia-se definitivamente tensa, prote­tora. Preferia que Charles e Ucker continuassem dis­tantes, que nunca tivessem oportunidade de se conhe­cerem. Estava preocupada pelos dois.


-     Charles?
O menino parou de brincar e fitou-a com olhos febris.


-     Charles, daqui há pouco, o Dr. Uckermann chegará aqui. Você sabe quem é, não?


O gesto afirmativo de cabeça foi suficiente. Sentan­do-se no chão, Dulce pegou o filho no colo. Começou a niná-lo. Roçou os lábios na fronte do menino e sen­tiu-o quente. Estava quase na hora de outra dose do antitérmico.


Suspirando, Charles aninhou-se mais nos braços dela.


-      Meninos grandes não são ninados - protestou.
Dulce o beijou.


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