Capítulo 91

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Cristal

Eu só queria um momento de paz. Um momento em que eu pudesse me afastar de tudo e esquecer da desgraça que chamo de vida. Mas o destino parece determinado a me manter em movimento, nunca me deixando descansar. Não bastasse isso, agora Raven está irredutível em me deixar em paz. Ele quer que eu trabalhe para ele de graça. Como se minha vida já não estivesse complicada o suficiente.

Minha mãe anda mal, mas, como sempre, prefere guardar tudo para si. Ainda não tive coragem de contar ao meu pai ou ao meu irmão sobre o meu tempo de vida. Como posso? Só tenho mais quatro anos até o ceifeiro vir buscar minha alma, e nem sei como eles vão reagir quando descobrirem.

E Dragomir... Ele sumiu. Por culpa minha. Talvez seja melhor assim. Eu sei que andar ao lado dele só traria mais problemas, mas não consigo evitar sentir falta do ruivo.

Agora, para piorar tudo, Raven decide aparecer, querendo que eu trabalhe para ele. —Eu entendo que o Natal está chegando, mas não vou sair por aí ajudando os outros de graça, não.— digo para mim mesma enquanto uso meu poder para segui-lo.

Raven —Você está parecendo mal-humorada. O trabalho vai ser rápido, acredite, logo estará em casa.— Ele caminha por um corredor sombrio dentro de um castelo diferente do que estou acostumada a ver. As paredes são cinza e pretas, e há pessoas vestidas de preto indo e vindo, todas com expressões sérias.

Não respondo, apenas o sigo em silêncio, observando os arredores.

Entramos em uma sala cheia de armas, cada uma mais sinistra que a outra. Raven caminha até uma estante repleta de foices e espadas de todos os tipos, escolhendo uma foice menor que a dele. Ele se vira e a coloca em minhas mãos.

Raven —Toma. Essa será sua arma de trabalho. Vai recolher almas com ela. Se fizer tudo direitinho, prometo suspender os cavaleiros da ordem de tentarem matá-la antes do tempo. O que acha?

Pondero por um momento. Seria bom não ter que me preocupar com ataques surpresa.

—Eu aceito. Mas como é que começo?— pergunto, sentindo o peso da foice em minhas mãos.

Raven —Vou ensinar você. Vem cá.

Ele se aproxima, posicionando-se atrás de mim. Suas mãos ajustam as minhas na foice enquanto ele me ensina como segurar a arma. Consigo sentir o calor de seu corpo nas minhas costas, o que me faz soltar a foice por reflexo.

—Me desculpe. Prometo que não vai se repetir.

Raven —Não tem problema. Concentre-se.— Ele parece confuso por um instante, mas logo continua a explicação.

Depois de alguns minutos, ele me entrega uma lista.

Raven —Basta tocar no nome, sentir a presença da pessoa e se teletransportar. Depois, faça seu trabalho. Você vai acumulando pontos que poderão ser trocados por favores, mas nenhum relacionado ao seu destino de morrer. Agora pode ir.—

Como se eu tivesse pedido esse trabalho, penso comigo mesma. Mas apenas abro a lista e toco no primeiro nome, ativando meu poder de invisibilidade e teletransporte.

Quando apareço, estou em uma casa modesta. Parece vazia, mas logo encontro um homem deitado em uma cama. Está claro que ele está doente. Tudo o que preciso fazer é cortar a linha da vida flutuando acima de seu corpo.

Com um movimento cuidadoso, utilizo a foice, e a linha se parte. Sua alma emerge como uma pequena esfera de luz flutuante, brilhante e... apetecível? Meu estômago ronca de forma inesperada, mas ignoro a sensação e coloco a alma na bolsa que Raven me deu.

—Certo. Só faltam mais 29 almas. Isso deve ser fácil.

Os próximos nomes na lista seguem o mesmo padrão: pessoas doentes, deitadas em camas, esperando o inevitável. Apesar da simplicidade do trabalho, começo a sentir um peso emocional. Especialmente ao me deparar com uma família abraçada, um casal e uma criança pequena, todos doentes.

—Talvez recolher suas almas seja melhor do que deixá-los sofrer.

Quando termino, sinto meu emocional abalado. Recolhi vidas, almas. Isso realmente é certo?

Uma presença surge atrás de mim. Viro-me rapidamente, vendo Lyla, a ceifeira que trabalha para Raven.

Lyla —Parabéns pelo ótimo trabalho. Necro achou que você não conseguiria, mas parece que ele se enganou.

—O que você quer comigo?— pergunto, mantendo minha postura defensiva.

Lyla —Nada. Necro apenas mandou verificar se você estava cumprindo o trabalho ou se ia desistir. Já pode voltar para a central. Até a próxima.— Ela desaparece tão rapidamente quanto apareceu.

Exausta, uso o teletransporte para retornar à central. Raven me espera com os braços cruzados, uma expressão indecifrável no rosto.

Raven —Fez um bom trabalho. Talvez tenha algo de útil em você, afinal.—  mordo meu lábio ao ouvir isso, quem esse babaca pensa que é? Se eu pudesse eu chutava a cara dele, mas sendo o Deus da morte provocar sua irá nunca será algo bom.

Reviro os olhos, entregando a bolsa com as almas que recolhi.

—Se esse é o seu jeito de me dar parabéns, precisa melhorar e muito—  digo irritada.

Ele apenas ri, pegando a bolsa e desaparecendo sem dizer mais nada.

Fico ali, sozinha, refletindo sobre o que acabei de fazer. Meu destino, minha vida, tudo parece tão complicado. Mas, ao mesmo tempo, não posso evitar sentir que talvez esse trabalho tenha me ensinado algo sobre mim mesma.

Por que desejo ver Raven de novo com tanta urgência? Tenho que controlar esse meu desejo, acho que é isso que diferencia mortais de deuses, nossos desejos.

Tudo que me resta agora é voltar para casa, eu sinceramente não queria fazer isso, mas o trabalho acabou e não tenho mais nada para fazer aqui.

(...)

Apenas volto para meu quarto e ao andar até a cama vejo uma carta estranha sem nome, ao abrir vejo uma mecha de cabelo ruiva e uma carta, pego ela para ler por estar curiosa.

✉️Olá abelhinha.

Espero que você tenha se arrependido de suas palavras e que  esteja morrendo de saudades de mim,  e nem venha pensando que vou perdoar você, me magoou sábia?

Espero que esteja tão mal que tudo a sua volta te faça lembrar de mim, em seus sonhos, quando for comer, quando for tomar banho, quando for se tocar, espero estar sempre na sua cabeça.

Vai sempre pensar no ruivo perfeito que deixou escapar, mas falando sério agora, espero que esteja bem, de verdade e que consiga seguir em frente, me esquecer, mas não completamente, por favor, não me esqueça, guarde essa mecha de cabelo contigo,  é uma parte de mim.

Do seu ruivinho 💌

Entre Mundos (Deuses Elementais)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora