Capítulo 104

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Cristal

Estávamos sentados juntos na pequena cabana, o calor da lareira queimando suavemente enquanto o vento forte lá fora batia contra as janelas. O silêncio no ar parecia denso, mas ao mesmo tempo confortável, como se, por um breve momento, o mundo tivesse parado. Eu e Dragomir tínhamos encontrado um refúgio, e, por mais que soubéssemos que não duraria para sempre, ali, naquele instante, tudo parecia calmo.

Ele estava sentado ao meu lado, os olhos fixos em algum ponto distante, como se pensasse em algo profundo. A preocupação que geralmente dominava seu rosto parecia ausente, e um sorriso suave começou a aparecer em seus lábios. Eu o observava com uma mistura de curiosidade e tristeza, sabendo que não podíamos manter essa paz por muito tempo.

De repente, ele colocou a mão em minha barriga, de forma delicada, como se tentasse sentir algo além da simples superfície de minha pele. Seu toque era suave, quase reverente, e por um momento, não disse nada. Só ficou ali, em silêncio, observando a barriga, imaginando o que poderia vir. A visão dele, tão focado no futuro, me fez pensar em como tudo poderia ser diferente se as coisas não tivessem tomado esse rumo.

"Você já pensou em como será?" ele perguntou, a voz baixa e sonhadora. "A criança, eu digo. Como será?"

Eu não soube o que responder de imediato, mas as palavras de Dragomir flutuaram no ar, e eu me peguei ouvindo atentamente, tentando imaginar o que ele estava vendo em sua mente. Ele parecia tão sereno, tão desconectado da realidade sombria que nos cercava, que por um momento quase esqueci o peso da situação.

"Eu acho que ela vai puxar a mim," ele disse, olhando para minha barriga com um sorriso gentil. "Cabelos ruivos, olhos verdes, talvez até com umas sardas no rosto, assim como eu."

Eu olhei para ele, sem conseguir evitar um pequeno sorriso, embora meu coração estivesse apertado. Mesmo sabendo que isso provavelmente nunca aconteceria, não consegui deixar de me perder na imagem que ele estava pintando. A ideia de um pequeno ser, com a sua aparência, com um toque de doçura que ele demonstrava nas palavras, me fez imaginar, por um segundo, uma vida diferente, uma vida sem medo, sem perseguições.

"Fofinho, né?" ele continuou, olhando para mim, seus olhos agora mais suaves. "Eu aposto que seria muito fofinho. Poderia ter o mesmo sorriso travesso que eu, ou quem sabe aquele olhar misterioso... Um olhar que faria as pessoas pensarem que ele sabe mais do que diz."

Eu o ouvi atentamente, absorvendo cada palavra, sentindo uma mistura de dor e carinho. Ele estava tão certo em tudo, tão envolvido com a ideia de uma criança que, em circunstâncias diferentes, poderia ter vindo ao mundo de maneira mais feliz. Um filho nosso, de Dragomir e eu, era algo tão simples e doce, mas ao mesmo tempo impossível. Não importava o quanto eu desejasse essa vida, a realidade estava logo ali, à espreita, e ela não nos daria esse luxo.

"Eu acho que ele iria puxar você," eu disse, tentando sorrir, embora fosse um sorriso amargo. "Os olhos, as expressões, com certeza seria como você... Mais bonito do que eu jamais poderia ser."

Dragomir riu baixinho, um som que trouxe um pouco de leveza ao ambiente, e me olhou com ternura. Ele sempre tinha essa maneira de suavizar os momentos pesados, de fazer com que eu me sentisse um pouco mais leve, mesmo nas circunstâncias mais difíceis. "Não sei se isso é verdade. Mas fico feliz que você imagine tudo isso, Cristal. Porque, por um momento, a gente pode sonhar com isso, com uma vida diferente."

Eu olhei para ele, absorvendo as palavras, mas ao mesmo tempo com um nó na garganta. Eu sabia que não haveria futuro para essa criança, não nas condições em que estávamos. Sabia que Dragomir e eu estávamos em um ponto sem retorno, e que o tempo não era nosso amigo. Mas eu ainda queria imaginar, ainda queria, por um breve momento, acreditar que a vida poderia ser simples e bonita. Eu me permitia, por um segundo, ser uma pessoa normal, com um homem ao meu lado e uma criança a caminho, sem medos, sem sombras.

Mas a verdade era dura. Era como uma lâmina afiada cortando as minhas fantasias, lembrando-me de que a morte estava muito próxima. Não importava o quanto eu queria que isso fosse real, que essa criança tivesse uma chance de viver em um mundo que não fosse marcado pela dor e pelo sofrimento.

"Eu gostaria tanto que fosse assim," eu disse, a voz tremendo. "Que pudéssemos ter essa vida... Que pudéssemos viver juntos, com a criança. Mas eu sei que não vai ser assim. Não pode ser assim."

Dragomir se calou, e por um momento, ficou apenas me olhando, com o olhar cheio de compreensão. Ele sabia o que eu queria dizer, sabia que meus pensamentos estavam mais distantes do que ele gostaria, mas ele não disse nada. Em vez disso, apenas apertou minha mão e colocou sua cabeça em meu ombro, respirando fundo.

"Eu também queria, Cristal," ele murmurou. "Mas não importa o que aconteça. Eu vou estar com você. Sempre."

E, por um breve momento, nós dois ficamos em silêncio, imersos nas nossas próprias tristezas, enquanto o mundo ao nosso redor continuava a girar, indiferente ao que sentíamos. Eu sabia que essa paz era apenas temporária, que o destino ainda nos aguardava com uma mão firme e implacável. Mas, por agora, enquanto ainda podíamos, decidimos deixar os sonhos tomarem conta de nós, imaginando um futuro que jamais seria.

Era tudo o que podíamos fazer naquele momento.

E, apesar de tudo, eu sabia que aquele momento, aquele breve instante de conexão, seria o que eu guardaria em minha memória. O que me manteria viva, de certa forma, mesmo que fosse por apenas mais um dia.

—eu imagino que em alguma outra dimensão estamos juntos, felizes e com filhos, talvez gêmeos, seria fofo não?— pergunto brincando e ele só me abraça e beija.

Entre Mundos (Deuses Elementais)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora