Cristal
A lista de nomes parecia infinita em minhas mãos. Cada nome representava uma vida, uma história prestes a chegar ao fim. Raven estava ao meu lado, como sempre, silencioso, imponente, e com aquele olhar que parecia carregar o peso de mil eras. Sua foice gigante reluzia levemente no escuro, e sua presença sombria intimidava até mesmo a mim, que já tinha me acostumado com a ideia de ser ceifadora temporária.
"Você vai ficar calado o dia todo ou só até eu enlouquecer?" perguntei, quebrando o silêncio enquanto caminhávamos pelas ruas de uma cidade deserta, com as almas dos mortos sussurrando ao nosso redor.
Raven lançou um olhar de soslaio, mas não respondeu.
Suspirei e continuei. "Sabe, trabalhar com você é como falar com uma parede. Mas uma parede que pode me matar com um olhar."
Dessa vez, ele respondeu, embora sua voz fosse tão fria quanto o vento que nos envolvia. "Se você se concentrasse no trabalho, não teria tempo para conversas desnecessárias."
Revirei os olhos. "Concentrada eu já estou. Mas isso não significa que eu não possa tentar, sei lá, socializar. Não precisa ser tão... sério o tempo todo."
"Seriedade é essencial neste trabalho."
"Você é o Deus da Morte, Raven. Eu sou só uma aprendiz. Não acha que um pouco de leveza poderia ajudar a manter minha sanidade?"
Ele não respondeu, mas havia uma pequena tensão em seus ombros.
A primeira parada da noite foi em uma fazenda isolada. Um homem idoso, segurando a mão de sua esposa enquanto ela respirava com dificuldade na cama. O amor entre eles era palpável, mesmo em meio à dor. Raven gesticulou para que eu usasse minha foice.
"É todo seu."
Fui até a cama e ergui minha arma, mas hesitei. O olhar de desespero do homem parecia me prender no lugar.
"Ela não quer ir," murmurei.
Raven se aproximou e sussurrou, com uma paciência surpreendente: "Ela não quer, mas precisa. O sofrimento dela só aumentará se não fizer seu trabalho."
Respirei fundo e cortei a linha da vida. A alma dela emergiu como uma luz suave, e por um instante, senti paz. Coloquei-a na bolsa e me virei para Raven.
"Eu não sei como você faz isso há tanto tempo."
"Porque é necessário."
Seguimos para o próximo nome da lista. Desta vez, era um jovem em um hospital, com máquinas mantendo seu corpo vivo artificialmente. Raven observava enquanto eu me preparava para o trabalho, mas decidi tentar algo diferente.
"Você sabia que Dragomir me deu uma mecha do cabelo dele?"
Raven franziu o cenho, claramente surpreso com a mudança de assunto. "Por quê?"
"Quem sabe? Talvez ele quisesse que eu me lembrasse dele ou achasse que eu precisava de um amuleto de boa sorte." Dei de ombros, tentando parecer indiferente. "De qualquer forma, achei um pouco... estranho."
Raven ficou em silêncio por um momento, e depois disse: "Na cultura dele, dar uma mecha de cabelo é algo muito simbólico. É um presente reservado para aqueles que são considerados importantes."
Parei o que estava fazendo e olhei para ele, intrigada. "Você está dizendo que eu sou importante para Dragomir?"
"Estou dizendo que, para ele, isso significa algo significativo. Talvez você devesse perguntar a ele."
Voltei ao trabalho, mas não pude deixar de pensar na seriedade com que Raven falou. Mesmo que ele fosse frio e sério, havia uma profundidade nele que eu não conseguia ignorar.
Depois de mais alguns trabalhos, paramos em uma ponte onde um homem estava prestes a pular. Era a primeira vez que lidávamos com uma alma que ainda estava viva.
"Você vai impedi-lo?" perguntei, curiosa.
"Não. Ele já está na lista. Só estou esperando."
Observei o homem enquanto ele hesitava, lágrimas escorrendo por seu rosto. Algo dentro de mim não podia suportar simplesmente assistir.
"Isso não parece justo."
Raven olhou para mim, sua expressão inalterada. "Justiça é irrelevante. Nosso trabalho é guiar as almas, não julgar suas circunstâncias."
"Você nunca quis interferir? Nunca quis... salvar alguém?"
Ele hesitou, mas apenas por um momento. "Salvar alguém significaria desobedecer às leis naturais. Não é nosso papel."
Antes que eu pudesse responder, o homem deu um passo para frente, e sua alma emergiu antes que seu corpo atingisse a água. Raven pegou a alma e a colocou em sua bolsa sem dizer uma palavra.
"Como você consegue ser tão... indiferente?" perguntei enquanto caminhávamos de volta.
"Não sou indiferente," ele respondeu, finalmente olhando para mim. "Só aprendi a aceitar que a morte é inevitável. Lutar contra ela é inútil."
"Bem, talvez eu ainda não tenha aprendido isso."
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Entre Mundos (Deuses Elementais)
RomanceCristal é a princesa do purgatório, adquiriu um enorme poder que foi usado nela quando nasceu para impedir que acabasse falecendo por causa da má formação dos órgãos. O Deus da morte não ficou nada feliz por não poder fazer seu trabalho e riscar o n...
