Capítulo 94

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Cristal

O relógio parecia um inimigo invisível, um companheiro cruel que me lembrava do meu destino imutável. Eu sabia que viveria até os 23 anos, mas a proximidade dos 19 me fazia sentir como se o tempo estivesse fugindo de mim. Cada dia que passava parecia um suspiro, como se a vida estivesse se esvaindo em silêncio. Meu aniversário de 19 anos estava se aproximando, e, apesar de ainda ter quatro anos de vida, algo dentro de mim dizia que não podia deixar de viver intensamente o que me restava. Cada momento parecia precioso, e, se fosse para aproveitar ao máximo, eu deveria buscar mais, sentir mais, antes que tudo se apagasse.

Trabalhar como ceifeira me ocupava, claro. Raven, o deus da morte, sempre tão distante e sério, era uma presença constante ao meu lado. Mas, por mais que ele fosse indiferente em muitos aspectos, havia algo em sua postura, algo em seus olhos, que indicava que ele também estava mudando. Era algo sutil, uma sombra de algo mais, mas o que quer que fosse, eu podia sentir que ele não era mais o mesmo.

O tempo estava me pressionando de uma forma que eu não sabia como enfrentar. Era como se cada dia fosse um lembrete de que minha vida não seria longa o suficiente para fazer tudo o que eu gostaria. Havia tantos lugares que eu queria visitar, tantas coisas que eu queria experimentar, mas algo me dizia que as horas estavam se esgotando. E então, me lembrei dos pontos que eu ganhava fazendo meu trabalho como ceifeira. Era algo simples, mas que me oferecia uma chance de pedir algo. Algo que poderia mudar, de alguma forma, o curso da minha história. Talvez, me dar o que tanto desejava: uma última chance de viver, de sentir algo verdadeiro.

Fui até o quarto de Raven, o coração acelerado e as mãos tremendo, sem saber exatamente o que esperar. Estava cansada, exausta, mas o peso do que eu sentia não me permitia descansar. O ar dentro do castelo estava denso, pesado com o silêncio da noite. Quando cheguei à porta de Raven, hesitei por um momento. O que eu estava prestes a pedir mudaria tudo. Mudaria minha relação com ele, com o que restava da minha vida. Mas não havia mais tempo para hesitar. Eu sabia o que queria.

Bati na porta. Não demorou muito para que ele abrisse, e lá estava ele, mais uma vez com sua expressão impassível. Seu olhar frio encontrou o meu, e eu senti uma onda de nervosismo misturado com uma estranha sensação de urgência.

— Cristal... — a voz dele era grave e profunda, mas havia algo nela que me fez sentir desconfortável. Como se ele soubesse o que eu estava prestes a dizer. — O que você quer a essa hora?

Respirei fundo, tentando manter a calma, mas não consegui esconder o tremor na minha voz. Não era uma conversa fácil. Não era algo que eu estava acostumada a pedir.

— Você disse que, com os pontos, eu poderia pedir algo... — minha voz estava baixa, mas firme, como se eu já soubesse a resposta que ele me daria. — Quantos pontos são necessários para ter uma noite com você?

Raven permaneceu em silêncio, seus olhos fixos nos meus. Por um longo momento, ele apenas me observou, como se estivesse tentando ler algo em mim, algo que eu não estava dizendo. A tensão aumentou, e eu me senti mais vulnerável a cada segundo que passava.

— Você está realmente pedindo isso? — A voz dele finalmente cortou o silêncio, profunda e carregada de algo que eu não conseguia identificar. — Dormir com o homem que matará você no futuro?

Eu sabia o que ele queria dizer. O que ele queria que eu considerasse. A morte que me aguardava, o destino imutável. Mas, de alguma forma, eu estava em paz com isso. Sabia que o fim viria, e eu queria aproveitar cada segundo. Eu não podia mudar o fato de que morreria cedo, mas poderia, ao menos, viver intensamente até lá.

— É o destino, Raven. Ninguém pode mudar o fato de que eu morrerei antes dos 23. E eu desejo... fazer isso antes de morrer. — As palavras saíram como um suspiro, como se algo pesado e profundo estivesse sendo liberado de dentro de mim. — Eu não sei o que o futuro me reserva, mas sei que quero isso agora.

Raven me observou por um momento, seus olhos ainda frios, mas havia algo lá que eu não podia ignorar. Algo que parecia um convite, uma curiosidade escondida atrás de sua máscara de indiferença.

— Amanhã é o seu aniversário, não é? — ele perguntou, e havia uma suavidade em sua voz que não costumava ouvir. Ele se aproximou um pouco mais, o olhar fixo em mim. — Esqueça os pontos. Só quero saber se tem certeza disso. Se tem certeza de que deseja isso.

Eu não hesitei. Sabia o que queria, e não tinha mais tempo para arrependimentos.

Confirmei com a cabeça, sem palavras. Eu estava certa disso. Raven me olhou por mais um momento, analisando minhas expressões, como se estivesse ponderando o que fazer a seguir. Ele sabia que eu não estava pedindo por nada mais do que o simples desejo de viver, mesmo que por uma noite.

— Se for isso o que deseja... — ele disse, e, por um momento, parecia mais humano do que divino. Ele abriu a porta completamente, permitindo-me entrar no quarto. O silêncio da noite se fez presente mais uma vez, mas agora havia algo de diferente. Algo entre nós que não estava mais tão distante.

Eu entrei, e Raven fechou a porta suavemente atrás de mim. O ambiente estava frio, como sempre, mas algo em seu olhar parecia mais quente, mais humano, talvez. Não era o mesmo homem de antes, e talvez eu também não fosse a mesma mulher. Não mais.

Ele deu um passo em direção a mim, e o ar entre nós parecia pesar. Eu sabia o que estava prestes a acontecer, e, de alguma forma, estava em paz com isso.

Entre Mundos (Deuses Elementais)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora