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(Cristal)

Respirei fundo enquanto observava a paisagem do purgatório se estender diante de mim. O reino do meu pai era um lugar que sempre me causava uma mistura de emoções. Eu amava meu pai e meu irmão, mas também sabia que aquele reino carregava uma energia que me fazia sentir deslocada. Ainda assim, eu queria vê-los.

Precisava vê-los.

Os portões do castelo surgiram à minha frente, imponentes como sempre, e uma leve brisa fria soprou contra meu rosto. Assim que dei os primeiros passos na entrada, senti um arrepio percorrer minha espinha. Algo estava errado.

Antes que eu pudesse reagir, um impacto forte atingiu meu peito, me lançando para trás. Rolei pelo chão, minha respiração acelerada, e quando levantei o olhar, lá estava ele.
Nêmesis.

Ele me olhava com um sorriso debochado, como se já soubesse que eu não tinha para onde correr.
— Você é muito previsível, Cristal. Eu sabia que você viria até aqui mais cedo ou mais tarde.

Meu coração disparou. Eu me levantei rapidamente, cerrando os punhos.
— O que você quer? — minha voz saiu firme, mas por dentro, eu já sabia a resposta.

— Você, claro. Mas não se preocupe, não é nada pessoal. Você só é... uma moeda de troca muito valiosa.
Meus olhos se arregalaram. Eu sabia o que isso significava. Eles queriam Dragomir.

— Você acha que eu vou deixar vocês me usarem como isca?

Nêmesis riu, como se minha resistência fosse uma piada para ele.
— Você realmente acha que tem escolha?

E então ele atacou.

Foi rápido, quase impossível de acompanhar. Desviei do primeiro golpe, conjurando minha magia para contra-atacar, mas ele era forte demais. A cada ataque que eu tentava desferir, ele bloqueava com facilidade, me empurrando para trás.
Senti uma dor aguda quando fui jogada contra uma parede. O impacto fez minha visão escurecer por um instante, mas eu não podia parar. Precisava lutar.

Reuni minhas últimas forças para um ataque final, mas antes que pudesse sequer terminar o movimento, senti algo prender meus pulsos. Correntes.
— Não… — murmurei, lutando para me soltar, mas era inútil.

Nêmesis se aproximou e segurou meu queixo com força, me forçando a encará-lo.

— Você é teimosa. Mas não se preocupe, logo vai aceitar seu destino.
Antes que eu pudesse gritar, tudo ficou escuro.

Acordei com um gosto amargo na boca e uma dor latejante na cabeça. Meu corpo estava pesado, e quando tentei me mover, percebi que estava presa.

A sala era pequena e fria, com paredes lisas e uma única porta de vidro. Eu reconheci de imediato. Uma sala de execução.

Meus olhos percorreram o ambiente em busca de qualquer saída, mas não havia nada. Nenhuma brecha, nenhuma fraqueza.

Respirei fundo, tentando conter a onda de desespero que ameaçava tomar conta de mim.
Eu estava encurralada.

Arrastei meu corpo até um canto da sala e me encolhi, abraçando meus joelhos. Meus pensamentos estavam caóticos, e pela primeira vez, eu senti um peso esmagador sobre mim.
Eu ia morrer aqui.

E, de alguma forma, isso parecia menos assustador do que ver Dragomir vir atrás de mim e acabar morto no processo.

Se eu morresse, eles não teriam mais motivo para ir atrás dele. Talvez essa fosse a única forma de protegê-lo.
Fechei os olhos, tentando afastar a dor no peito.

Então, ouvi passos do outro lado da porta.

Levantei a cabeça devagar e vi a silhueta de alguém se aproximando. Quando os contornos do rosto ficaram mais visíveis, meu coração apertou.
Raven.

Ele parou do outro lado da porta de vidro, me observando por alguns segundos antes de falar.

— Você deveria aceitar isso, Cristal. Não adianta lutar. Dragomir virá, e quando isso acontecer, nós vamos matá-lo.

As palavras dele foram como um golpe direto no meu peito.

— Você não pode… — minha voz saiu fraca, quase um sussurro.

Ele suspirou, cruzando os braços.

— Eu não vou contar a verdade sobre sua situação. Não vou. Se eu esconder isso, você pode viver até os seus 23 anos.

Minha respiração ficou presa na garganta.

Ele… estava tentando me proteger?
Não, não podia ser. Raven sempre foi frio, sempre seguiu seu dever sem hesitação. Mas… ele estava me dando uma chance?

— Por que está fazendo isso? — perguntei, minha voz cheia de incerteza.

Ele desviou o olhar por um instante antes de responder.
— Porque eu sei o que é perder alguém, além disso, é nova demais para morrer por burrice.

Uma sombra passou pelo seu rosto.
—Você sabe o que Dragomir fez. Ele matou minha esposa, Luana. Você realmente acha que eu vou deixar isso impune? Eu não posso!

Minha boca secou. Eu sabia da história, sabia do ódio que Raven carregava. Mas isso não fazia meu desespero diminuir.

— Por favor… — minha voz saiu trêmula. — Não mate ele. Eu imploro.

Raven me olhou por um longo momento, sua expressão indecifrável.
— Isso não é algo que eu possa evitar. Ele tem que pagar.

Meus olhos arderam, mas eu não chorei. Apenas abaixei a cabeça, sentindo o peso esmagador da situação.

Raven deu um passo para trás.

— Cuide de si mesma, Cristal. E reze para que ele não venha atrás de você.
E então, ele se afastou, me deixando sozinha novamente.
Fechei os olhos, sentindo meu peito apertar.

Eu não sabia como, mas eu precisava encontrar um jeito de impedir isso.
Eu precisava salvar Dragomir.

Eu não posso deixar que ele morra por culpa minha, eu nunca conseguiria me perdoar.

Chuto a porta de vidro com todas as minhas forças, bato sem parar, me jogo contra a porta, mas tudo que acontece é que fico cada vez mais machucada.

Só sinto minhas lágrimas escorrerem, enquanto continuo a me jogar contra a porta quase sem forças, mesmo com a testa e corpo dolorido eu não posso parar, ele não vai morrer por causa da minha falta de responsabilidade.

Depois de um longo tempo tentando de alguma forma quebrar a porta, tudo que se quebra sou eu, caindo no chão de exaustão.

—Dragomir, me desculpa, me desculpa por tudo, por favor não morra

Entre Mundos (Deuses Elementais)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora