Raven
Depois de longos meses dedicados aos trabalhos rotineiros como ceifeiro, sou convocado à sala de ordens, desta vez ao lado de Leviathan. Já imagino qual é a razão, e um leve lampejo de expectativa me atravessa.
Quando entramos na sala, nossos olhos encontram Nemesis, o Deus da Justiça e do Equilíbrio, com seu habitual semblante inexpressivo. Ele é quase um espectro entre os Deuses, raramente interagindo além do que é absolutamente necessário. Seu cabelo cinza e olhos frios combinam com a aura neutra que carrega.
Nemesis observa silenciosamente antes de quebrar o silêncio com sua voz controlada, quase mecânica:
— A morte de Dragomir é necessária para manter o equilíbrio. Ele vive como uma ameaça latente, e, sem intervenção, colocará tudo em risco. Vocês dois estão autorizados a executar a ordem. Tomem cuidado... Já perdemos a Deusa da Vida. Não podemos nos dar ao luxo de perder o Deus da Morte ou o da Calamidade.
Aquele nome ecoa em minha mente: Dragomir. Finalmente. Minha expressão não muda, mas dentro de mim há uma satisfação sombria. Este é um desfecho pelo qual tenho aguardado há muito tempo.
— Farei o possível para concluir essa ordem — respondo, mantendo meu tom neutro.
Leviathan, ao meu lado, cruza os braços e sorri com confiança.
— Se nós dois formos, ele não terá chance alguma. — Sua declaração carrega um peso de certeza, mas, como sempre, ele não pensa nos detalhes.
Apenas concordo. Este é um trabalho que quero ver resolvido com minhas próprias mãos.
Porém, um pensamento incômodo surge. Cristal. Ela é próxima de Dragomir, mais do que eu gostaria. Isso complica as coisas. Se ela souber o que está por vir, sei que tentará intervir, mesmo sabendo que não é páreo para algo tão grandioso. Sua ingenuidade pode custar caro, e não posso permitir que ela se machuque por causa de suas emoções.
"Vou esconder isso dela," penso enquanto Nemesis continua a explicar os detalhes da missão.
Quando a reunião termina, Leviathan me encara enquanto caminhamos para fora da sala.
— Você está estranhamente calado, Raven. Algo te incomoda?
— Apenas concentrado no trabalho — minto.
Ele ri, dando um tapa em meu ombro.
— Relaxe, será mais fácil do que qualquer um imagina.
Mal sabe ele que, enquanto esta ordem traz satisfação pelo objetivo a ser cumprido, também carrega um peso que me desagrada. A presença de Cristal em minha mente é um lembrete incômodo de que minha existência tem se tornado mais complicada do que deveria.
"Dragomir cairá," penso enquanto meu olhar se fixa no horizonte. Mas o custo disso... ainda não sei qual será.
Cristal
Após meses afastada, decidi que era hora de visitar minha mãe, Eliza. O castelo permanecia inalterado, mas a presença dela trazia uma sensação de lar que eu tanto ansiava. Encontrei-a no jardim, cuidando de suas flores com a dedicação de sempre.
— Mãe! — chamei, aproximando-me rapidamente.
Ela ergueu o olhar, um sorriso iluminando seu rosto.
— Cristal! Minha querida! Pensei que não voltaria mais. — Sua voz misturava alegria e preocupação.
— Desculpe pela ausência prolongada. Muitas responsabilidades me mantiveram ocupada.
Ela me envolveu em um abraço apertado.
— Prometa que ficará por alguns dias. O castelo é tão vazio sem você.
— Prometo — respondi, sorrindo.
Passei o dia ao lado dela, ajudando no jardim e conversando sobre trivialidades. Contudo, uma inquietação persistia em meu coração. Sabia que precisava ver meu pai, Dante, e meu irmão, Nathan, antes que o tempo se esgotasse.
No dia seguinte, voei até o outro lado do purgatório, onde eles residiam. A fortaleza de meu pai era imponente, refletindo sua posição como rei. Ao chegar, fui recebida por Nathan, que treinava no pátio. Seu cabelo preto ondulado balançava com os movimentos, e seus olhos castanhos brilhavam ao me ver.
— Cristal! — exclamou, largando a espada e correndo para me abraçar. — Quanto tempo! Por que demorou tanto a nos visitar?
— Estive ocupada com meus deveres — respondi, rindo.
— Sempre ocupada. Um dia aprenderá a relaxar.
— Talvez esse dia seja hoje — disse, sorrindo.
Meu pai apareceu em seguida, sua presença dominante como sempre. Seus olhos roxos me analisaram com intensidade.
— Cristal. Finalmente decidiu nos honrar com sua presença.
— Estou aqui agora, não estou? — brinquei, embora percebesse a seriedade em seu olhar.
Passei o dia com eles, mas o peso em meu coração aumentava. Durante o jantar, soube que não podia mais adiar a revelação.
— Pai, Nathan, preciso lhes contar algo importante.
Nathan parou de comer, olhando para mim com curiosidade. Meu pai franziu o cenho, percebendo a gravidade.
— O que houve, filha? — perguntou Dante.
Respirei fundo, reunindo coragem.
— Meu tempo de vida é limitado. Tenho apenas até os 23 anos.
O silêncio tomou conta da sala. Meu pai recostou-se na cadeira, seus olhos roxos refletindo uma mistura de raiva e tristeza.
— O que está dizendo? Como assim, "tempo limitado"?
Nathan parecia em choque.
— Isso é sério, Cristal? Como sabe disso?
— É meu destino. Algo que não posso mudar. — Mantive a voz firme, apesar do coração acelerado. — Queria que soubessem, para que possamos valorizar o tempo que nos resta juntos.
Meu pai bateu na mesa, sua raiva transbordando.
— Isso é inaceitável! Não posso perder minha filha! Encontraremos uma maneira de impedir isso!
— Pai, por favor. Não há nada que possa ser feito. Só quero aproveitar o tempo que me resta com vocês.
Nathan colocou a mão no meu ombro, lutando contra as lágrimas.
— Se é assim... então faremos desses momentos os melhores possíveis.
Meu pai levantou-se, respirando fundo para controlar a raiva.
— Respeitarei sua decisão por ora, Cristal. Mas saiba que não desistirei de buscar uma solução.
Sorri, apesar das lágrimas que ameaçavam cair.
— Obrigada, pai. É tudo o que peço.
Naquela noite, permaneci na torre da fortaleza, contemplando o céu estrelado. Apesar da tristeza, sentia-me grata por ter minha família ao meu lado, apesar de ver o olhar de angústia do meu pai e do meu irmão.
Espero que essa estranheza passe logo, pois passou com a minha mãe, ela voltou a me tratar normalmente, parou de chorar e lamentar, talvez tenha aceitado.
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Entre Mundos (Deuses Elementais)
RomanceCristal é a princesa do purgatório, adquiriu um enorme poder que foi usado nela quando nasceu para impedir que acabasse falecendo por causa da má formação dos órgãos. O Deus da morte não ficou nada feliz por não poder fazer seu trabalho e riscar o n...
