Cristal
A manhã começou como todas as outras. O cheiro do café recém-passado se espalhava pelo castelo enquanto eu caminhava até a sala de jantar. Assim que entrei, vi minha mãe, Eliza, dando comida para Ruby, enquanto Alex tentava distraí-la para evitar que derrubasse a colher. A cena era tão familiar que por um momento me permiti apenas observar.
Ruby realmente acreditava que Eliza e Alex eram seus pais. E, de certa forma, eles também acreditavam nisso. Eles a amavam incondicionalmente, cuidavam dela como se fosse parte deles. Era bonito... e ao mesmo tempo, doía. Ela tinha uma família perfeita, era a princesinha do purgatório.
Sentei-me à mesa e peguei uma torrada, olhando para eles com um sorriso leve.
— Como anda o relacionamento de vocês? — perguntei, com um tom brincalhão. — Estou um pouco preocupada. Seria traumático para minha irmãzinha se os pais dela se separassem.
Os dois me encararam com expressões surpresas antes de trocarem olhares cúmplices.
Eliza riu. — Por que a gente se separaria? Não brigamos nunca, sempre concordamos com a mesma coisa... e temos uma filha linda. — Ela beijou a cabeça de Ruby com carinho.
— Realmente, parecem uma família de comercial de manteiga — comentei, mordendo um pedaço da torrada, tentando ignorar o peso no meu coração.
Eu poderia simplesmente aceitar e me afastar desse sentimento. Afinal, o que muitas sonhavam era exatamente isso: não ter responsabilidades. Mas eu queria estar no lugar deles. Eu queria ser a mãe ali.
Suspirei e mudei de assunto.
— Vou ver meu pai hoje. Posso levar Ruby comigo?
Alex parou de beber seu café e me olhou com hesitação.
— Cristal, está nevando. Não acho muito certo sair com ela nesse tempo.
Uma onda de irritação cresceu dentro de mim, mas a engoli. Ele criou minha filha como se fosse dele. Ele tinha o direito de se preocupar.
Antes que eu pudesse argumentar, Ruby puxou a manga da minha blusa e olhou para Alex.
— Papa, quero ir com a mana.
Ela ainda errava algumas palavras, mas eu entendia perfeitamente.
Alex olhou para Eliza, esperando que ela decidisse.
Eliza suspirou e sorriu. — Leva o casaco dela e não esquece a mochila com tudo o que ela precisa.
Revirei os olhos.
— Certo, certo, vou levar tudo. Vamos, maninha.
Peguei Ruby da cadeirinha e a segurei no colo.
— Ela ainda não terminou de comer — Alex alertou, mas eu já estava decidida.
— Não se preocupe, vou alimentar ela lá. Vou dar frutas e outras coisas.
Me virei para Ruby. — Dá tchau pra eles.
— Tchau, pai! Tchau, mãe!
Eles acenaram de volta, e eu saí carregando minha menina.
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Voar pelo purgatório com Ruby nos braços era uma sensação única. Ela se agarrava ao meu pescoço, observando a paisagem com olhos brilhantes.
O vento frio bagunçava seus cabelos ruivos ondulados, e eu não pude evitar sorrir. Ela era linda. Seus olhos azuis, sua pele rosada, seus lábios quase vermelhos, e até mesmo as sardas que lembravam tanto Dragomir... Ela era a cópia do pai, só não tinha os olhos alaranjados.
Suspirei.
— Eliza e Alex vão ter tanto trabalho quando você crescer mais, sabia? — murmurei, rindo baixinho.
Ela não respondeu, apenas enterrou o rosto no meu ombro.
Infelizmente, eu não estaria aqui para ver isso.
Mas estava feliz de qualquer jeito.
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Chegamos ao castelo do meu pai, Dante, e fomos direto para o salão principal. Assim que entrei, vi meu irmão Nathan, sentado em um dos sofás, mexendo em alguns papéis. Meu pai, como sempre, estava sério, bebendo seu café da manhã.
Quando Cristian apareceu, Ruby imediatamente correu até ele.
— Vovô!
Ele sorriu e a pegou no colo.
— Bom dia, minha pequena!
Meu coração apertou.
A culpa da mentira pesava sobre mim. Mas era pelo bem dela. Faria qualquer coisa para protegê-la.
Sentei-me à mesa ao lado de Nathan enquanto meu pai me observava com seu olhar sempre crítico.
— Filha, quanto tempo falta? — Dante perguntou de repente.
A pergunta fez meu peito apertar.
— Três meses para o meu aniversário de 23 anos.
— Quero que more aqui durante esse tempo — ele disse firme. — Quero passar mais tempo com você.
Suspirei.
— Não posso deixar minha mãe cuidando de Ruby sozinha.
Dante bufou, cruzando os braços.
— Ela não é sua responsabilidade, Cris. Ela é de Eliza e Alex. Você deveria estar aproveitando seu tempo, e não cuidando do filho dos outros. Não sei como sua mãe foi tão irresponsável de engravidar sabendo do seu tempo de vida.
Revirei os olhos.
— Pai, não começa...
Ele sempre atacava minha mãe. Era óbvio que ainda sentia algo por ela, mesmo que nunca admitisse.
— Eu concordo com o pai em certas partes — Nathan disse, me olhando sério. — Você mal tem saído para aproveitar. Que tal sairmos para beber? Você precisa relaxar um pouco.
— Vou passar um tempo aqui, mas só se deixarem Ruby me visitar sempre — negociei.
Nathan riu.
— Às vezes você trata sua irmã como se fosse sua filha.
Meu coração gelou.
— Já que não vou poder ter uma filha, quero saber como é — disse, dando de ombros. — Além disso, quero que Ruby lembre de mim como uma irmã que cuidava e prezava pelo bem dela.
Dante suspirou.
— Tudo bem, então.
Sorri e me levantei, indo até ele e o abraçando.
— Obrigada por entender, pai.
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O dia passou com Ruby brincando no jardim com Cristian, enquanto eu conversava com Nathan e Dante.
Mesmo com tudo, mesmo com a dor do segredo que carregava, eu estava feliz por estar ali.
E faria de tudo para que Ruby tivesse a melhor vida possível.
Mesmo que, um dia, ela tivesse que crescer sem mim.
Quero que Ruby saiba que sempre a amei, que ela sempre foi e sempre será importante para mim, que se eu pudesse morreria por ela sem pensar duas vezes, talvez ela nem chegue a lembrar de mim, mas só o fato dela existir significa que duas pessoas estiveram juntas.
Eu não sei se um dia ela vai chegar a descobrir tudo isso, mas espero que ela não odeie minha mãe ou Alex.
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Entre Mundos (Deuses Elementais)
RomanceCristal é a princesa do purgatório, adquiriu um enorme poder que foi usado nela quando nasceu para impedir que acabasse falecendo por causa da má formação dos órgãos. O Deus da morte não ficou nada feliz por não poder fazer seu trabalho e riscar o n...
