Cristal
Dois meses haviam se passado desde que comecei a trabalhar como ceifeira temporária para Raven. O trabalho era intenso, mas me mantinha ocupada, afastando pensamentos sobre meu tempo limitado. Raven era um líder duro, mas nossa convivência havia se tornado surpreendentemente... próxima.
Naquela noite, terminamos mais uma missão. Exausta, voltei com ele para o castelo.
“Você está um desastre,” ele comentou, jogando-se em sua poltrona no quarto enquanto eu tirava meu casaco.
“Obrigada pelo elogio,” respondi, revirando os olhos.
Ele riu baixo, mas não respondeu. Havia algo nos olhos dele que me fazia sentir coisas que eu não queria admitir. Era uma mistura de arrogância e cuidado, algo que me atraía e irritava ao mesmo tempo.
Antes que percebêssemos, a tensão no ar ficou insuportável. Um passo levou ao outro, e acabamos juntos na cama, entrelaçados mais uma vez. Não era a primeira vez que isso acontecia, mas desta vez parecia diferente – mais intenso, mais desesperado.
Na manhã seguinte, acordei com o cheiro de café invadindo o quarto. Raven entrou com uma bandeja, sua expressão desconfortável e um pouco engraçada.
"Não se acostume," ele disse, colocando a bandeja na cama.
Eu sorri, pegando uma xícara. "Você realmente está amolecendo."
Ele não respondeu, apenas me observou comer. No entanto, após alguns minutos, uma sensação estranha tomou conta de mim. A náusea veio tão repentinamente que mal tive tempo de correr para o banheiro.
“Cristal?” ouvi Raven me chamar, preocupado, enquanto eu vomitava. Ele apareceu na porta do banheiro logo em seguida, com as sobrancelhas franzidas. “O que está acontecendo? Você está bem?”
“Deve ser algo que comi,” respondi, limpando a boca e tentando afastar o desconforto.
Mas ele não parecia convencido. Seu olhar se estreitou como se estivesse analisando cada detalhe, cada possibilidade. Ele saiu do banheiro sem dizer nada, deixando-me ainda mais confusa.
Pouco tempo depois, Raven voltou com algo nas mãos – uma joia brilhante, envolta em um cordão. Ele parecia mais sério do que nunca.
“Vista isso,” ele ordenou, estendendo o colar para mim.
"Por quê? O que é isso?"
"Essa joia esconde sua energia vital," ele explicou. “Se alguém ou algo estiver conectado a você, isso os protegerá... e também a você.”
Suas palavras me deixaram nervosa. Algo não estava certo. “Raven, o que você acha que está acontecendo?”
Ele hesitou por um momento, mas então, sua pergunta veio como uma lâmina cortante: “Você está grávida de Dragomir?”
Eu congelei, sem saber o que responder. Meu silêncio foi o suficiente para que ele entendesse.
“Por que está me perguntando isso? Você sabe que é impossível,” respondi, tentando desviar, mas ele não parecia disposto a recuar.
“Eu sou um Deus, Cristal. Não posso ter filhos. Se você está grávida, só pode ser de Dragomir. E, se for verdade, você está com problemas muito maiores do que o pouco tempo que te resta.”
Respirei fundo, sentindo um nó na garganta. “Sim, é dele.”
A reação de Raven foi explosiva. Ele socou a parede com tanta força que um pedaço de gesso se soltou.
“Eu te avisei, Cristal! Eu te disse para ficar longe dele!”
“Raven...”
“Você fez a pior coisa que poderia fazer!” Ele começou a andar de um lado para o outro, as mãos nos cabelos. “Você sabe o que isso significa? Dragomir está marcado para morrer! Toda sua linhagem também! Você não percebe o que fez?”
Eu me sentei no chão, abraçando os joelhos. Não sabia o que dizer, como justificar o que havia acontecido. Suas palavras ecoavam na minha cabeça. Ele estava certo – eu tinha me colocado em uma situação impossível.
“Talvez não seja isso,” murmurei, tentando me agarrar a qualquer fio de esperança. “Talvez seja apenas a comida...”
Raven parou de andar e olhou para mim, os olhos queimando de frustração. “Então ore para ser isso mesmo.”
Ele saiu do quarto, me deixando sozinha com minhas lágrimas e o peso de tudo o que havia feito.
Raven
A noite estava pesada, sufocante. Cristal permanecia em meu pensamento, e a informação sobre sua possível gestação se tornava uma sombra constante, assombrando-me. Por mais que eu quisesse ignorar, sabia que não podia. Precisava de respostas, de certeza, antes de tomar qualquer decisão.
Caminhei pelos corredores escuros do castelo até chegar à sala do Espelho das Informações, o Skirax. Uma relíquia antiga, com um poder perigoso. Somente aqueles com grande responsabilidade poderiam usá-lo, e eu não fazia ideia do que esperava ouvir.
Diante do espelho, respirei fundo, observando meu reflexo se transformar em uma imagem nebulosa. “Skirax,” chamei, minha voz firme. “Preciso de informações.”
O espelho brilhou com uma luz sinistra, como se estivesse aguardando minhas palavras.
“Sobre quem deseja saber, Raven?” a voz ecoou, fria e distante.
“Cristal,” respondi. “Quero saber se ela representa algum risco para Ravania e para os Deuses. Alguma coisa que possa comprometer nossa ordem.”
Houve um momento de silêncio. A névoa no espelho começou a se movimentar, formando imagens confusas que logo desapareceram. Então, Skirax falou, sua voz ainda mais sombria:
“A criança que ela espera é o problema.”
Minhas mãos cerraram os punhos. "Explique."
“A linhagem dessa criança foi condenada. O sangue que corre em suas veias traz consigo o potencial de destruição. Cristal deve ser eliminada imediatamente para impedir que esse destino se cumpra. A existência dessa criança não pode ser permitida.”
As palavras do espelho foram um golpe. Por um momento, senti como se o ar tivesse sido arrancado dos meus pulmões. Olhei para o reflexo distorcido, tentando absorver o que acabara de ouvir.
“Condenada” murmurei, como se precisasse confirmar para mim mesmo.
“Se a criança nascer, não haverá retorno.”
Fechei os olhos, tentando organizar meus pensamentos. Cristal… Não podia ser verdade. Mas as palavras do espelho eram claras, e eu sabia que não tinha o luxo de ignorá-las.
“Skirax,” falei, minha voz mais baixa agora, mas ainda carregada de autoridade. “Apague a informação sobre a gestação de Cristal. Ninguém deve saber disso.”
O espelho ficou em silêncio por um momento, como se ponderasse minha ordem. Então, respondeu: “Isso será feito. E quanto à responsabilidade por este pedido?”
“Não revele que fui eu quem pediu,” ordenei, minha mandíbula tensa.
“Como desejar, Necro,” respondeu o espelho antes de sua luz desaparecer, deixando-me sozinho com meu reflexo.
A raiva e a dúvida travavam uma batalha dentro de mim. Não entendia por que estava protegendo Cristal. Não fazia sentido. Ela estava destinada a morrer, e o próprio destino estava conspirando contra ela. Ainda assim, havia algo que me impedia de simplesmente deixá-la ser condenada.
Saí da sala, o peso das minhas escolhas pressionando meus ombros. Precisava de tempo. Apenas um pouco mais de tempo para entender por que eu, o Deus da Morte, estava hesitando em cumprir o papel que o destino havia me dado.
Eu tentei ajudar ela, eu avisei, mas ainda assim ela não me ouviu e se aproximou de Dragomir.
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Entre Mundos (Deuses Elementais)
RomanceCristal é a princesa do purgatório, adquiriu um enorme poder que foi usado nela quando nasceu para impedir que acabasse falecendo por causa da má formação dos órgãos. O Deus da morte não ficou nada feliz por não poder fazer seu trabalho e riscar o n...
