Capítulo 106

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Cristal

Chegamos à cabana no início da noite. A viagem tinha sido exaustiva, principalmente para mim, mas Dragomir parecia pior. Ele mal se mantinha em pé, mas insistia em cuidar de tudo até termos um mínimo de conforto. Assim que entramos, ele me guiou até a cama.

—Deita e descansa — ele ordenou com gentileza, sua voz carregada de preocupação.

Ele estava pálido, suando frio, mas ainda assim parecia mais preocupado comigo do que consigo mesmo. Suspirei, sem forças para discutir, e me deitei. Dragomir permaneceu ao meu lado por alguns minutos, ajeitando os cobertores sobre mim, mas logo o vi fechar os olhos, exausto. Ele caiu em um sono profundo ao meu lado.

Depois de um tempo, fui eu que adormeci, acordando horas depois com o som de passos pela cabana. Ele estava de pé, a febre parecia ter diminuído, e eu o vi mexendo em panelas na pequena cozinha improvisada.

—Você deveria estar descansando — murmurei, minha voz fraca.

Dragomir virou-se com uma tigela fumegante nas mãos, um sorriso suave nos lábios.

—E você deveria estar comendo.

Ele trouxe a tigela até mim e sentou-se ao meu lado na cama, com o cuidado de não derramar nada. Peguei a sopa, mas antes que pudesse levar a colher à boca, ele a tirou das minhas mãos.

—Deixa que eu faço isso. Você não está em condições de se esforçar.

—Eu estou grávida, não inválida.

Mesmo assim, deixei que ele cuidasse de mim. Havia algo reconfortante na maneira como ele me olhava, como se eu fosse a coisa mais preciosa do mundo. Ele alimentou-me com calma, e eu aproveitei o momento para observá-lo, algo que nunca pensei que faria um dia.

Havia um tempo, não muito distante, em que eu queria matá-lo. Ele me forçara a ajudá-lo em sua vingança contra os deuses, e minha única motivação na época era sobreviver. Mas agora estávamos aqui, escondidos do mundo, esperando um filho juntos. Era surreal.

Dragomir notou meu olhar e arqueou uma sobrancelha.

—Me pergunto o que está pensando, abelhinha — ele disse com um tom brincalhão, um sorriso surgindo em seus lábios. — É sobre o quanto sou bonito e no quanto tem sorte de me ter?

Soltei uma risada fraca.

—Eu diria azar, mas cada um tem sua própria forma de ver as coisas.

O sorriso dele desapareceu imediatamente, e sua expressão ficou séria.

—Sinto muito se estraguei sua curta vida, Cristal — ele disse, sua voz carregada de culpa.

—Você se irrita muito fácil, que homem se irrita com uma mulher doente e grávida? Você não é nem um pouco cavaleiro.

Dragomir suspirou e deixou a tigela de lado, encarando o chão.

—Eu tô preocupado, Cristal, com você... e com essa coisinha crescendo dentro de você. Talvez... só talvez... seja melhor você abortar.

Minhas mãos se apertaram sobre o cobertor, e eu o encarei, surpresa e magoada.

—O quê?

Ele continuou, mesmo que sua voz soasse hesitante.

—Eu não queria que você considerasse isso, mas pode ser perigoso para você essa gestação. Talvez essa coisinha acabe te matando, assim como eu matei minha mãe.

Havia dor em cada palavra dele, e eu senti meu coração apertar.

—Tô preocupado, Cristal. Os deuses podem ter razão. Minha linhagem não deveria se propagar. Você não viu como meus poderes realmente são destrutivos.

Entre Mundos (Deuses Elementais)Histórias para pegar e não largar. Descubra agora