Isabella narrando...
Do caminho de casa até o aeroporto de Guarulhos, o silêncio era absoluto dentro do Uber. Márcia, absorta em sua conversa com o primo, mal percebeu o ambiente ao redor. Bárbara, em um sono profundo, repousava sobre meu colo, e eu me encontrava perdida em pensamentos profundos.
Foi nesse momento que me dei conta de uma verdade dolorosa: havia destruído minha adolescência sem sequer perceber. Deixei minhas vontades e meus sonhos mais queridos para trás, encarando o mundo adulto sem hesitar. Recebi críticas como se fossem balas disparadas, e, por trás de tudo isso, sentia a humilhação da vida. Tentei preencher esse vazio com um amor doentio, uma relação que, ao final, me consumiu por completo.
Bárbara se remexe em meu colo, obrigando-me a voltar à realidade. Olho para baixo, onde seu rosto delicado e sereno, quase angelical, está estampado. Ela chupava o dedão enquanto segurava minha blusa com a outra mão. Bárbara, com sua pureza, era a representação de toda a minha luta, a fortaleza que mantinha minha sanidade em meio ao caos. Por ela, sou capaz de revirar o mundo, lutar contra todos, se necessário, para ver o seu sorriso, para garantir sua felicidade.
Ela, sem dúvida, foi o maior presente de Deus.
Sou retirada desse transe mental pela voz do motorista, anunciando a nossa chegada ao aeroporto. Márcia abre a porta do passageiro e desce, seguindo o motorista até a área onde nossas malas estavam. Enquanto isso, tento acordar Bárbara.
— Filha... Filha, acorda, chegamos para pegar o avião — digo, tentando despertá-la.
Bárbara faz uma careta, ainda com os olhos fechados.
— Quero dormir, mamãe, tô cansada — diz, como se estivesse em um mundo só dela.
— Deixa de ser manhosa, Bárbara, vai! O dia inteiro você ficou descansando, tá cansada do quê? — retruco, já irritada.
Ela abre os olhos, puxa um bico e começa a falar com um tom dramático.
— Sabe, mamãe, ser criança cansa. Criança precisa dormir, e eu não dormi — faz uma cara de puro sofrimento.
— Não dorme porque fica pulando no berço de madrugada, feito uma macaquinha — respondo, começando a fazer cócegas nela.
Bárbara solta um riso incontrolável.
— Para, mamãe! Vou moler... vou moler! — diz, com um olho fechado e o outro aberto, parecendo a coisa mais fofa do mundo.
Dou uma risada, balançando a cabeça em sinal de desaprovação. Essa menina é uma comédia. Coloco-a no chão junto com um peluche que estava no carro e vejo Márcia agradecer o motorista e pagar pela viagem. Ela, então, caminha até a nossa direção com as bagagens.
— Acredita que aquele nojento pediu meu número? — diz Márcia, indignada. — Aqueles boys magia, cheios de grana, nem sei de onde saem, mas os velhotes nojentos caem em cima de mim como se eu fosse um prêmio.
Não consigo evitar uma gargalhada.
— Você tem um ímã para atrair homens mais velhos — falo, com a diversão estampada no rosto.
Márcia bufa e responde, com cara de poucos amigos.
— Coisa feia, titia — diz, apertando as bochechas de Bárbara, que reage fechando a cara.
— Sou feia nada! Sou linda, maravilhosa e divina! Titia tem ciúmes de Bárbara! — diz, colocando a língua para fora.
Márcia retruca rapidamente:
— Se toca, pingo de gente. Você é feia como a sua mãe! — e, por reflexo, mostra a língua também.
Reviro os olhos, morrendo de rir com essas duas. Às vezes, não sei quem é mais criança: minha filha ou a Márcia. As duas vivem discutindo por nada.
Após alguns minutos, entramos no aeroporto, com a intenção de não perder o voo. Já havíamos feito o check-in online, o que nos poupava tempo, restando apenas registrar as bagagens e esperar alguns minutos.
Eu mal podia esperar para sair de São Paulo e apagar esse lugar da minha mente. O Rio de Janeiro, com sua promessa de alívio, me aguardava.
Tirei o celular do bolso e desbloqueei a tela. Fui bombardeada por várias chamadas não atendidas e mensagens de Rodrigo, todas com um tom cada vez mais agressivo.
Vagabunda do caralho, filha da puta, cadê você? Quero saber onde está a piralha também! Se você acha que pode fugir de mim, está muito enganada, Isabel. Você é minha! Eu vou te encontrar, e quando o fizer, você vai se arrepender disso tudo. Vou te matar, vadia!
O coração apertou em meu peito. Essa era a realidade que eu tentava fugir. A angústia, o medo e a opressão que ele me causava eram insuportáveis. Mas eu sabia que, por Bárbara, eu enfrentaria tudo, até mesmo esse monstro de carne e osso que ele era.
Assim que o avião decolou, meu coração disparou. Era uma mistura de alívio e medo, como se meu peito fosse explodir de uma vez só. Olhei para o lado e vi Bárbara com meu celular nas mãos, assistindo aos vídeos daquelas "Pepa amaldiçoadas". Senti um arrepio, mas me aproximei dela, ajeitando meu cinto.
— Mamãe — ela me cutuca com um sorriso encantador no rosto.
— Fala, meu bem — respondo, distraída.
— Não quero ver o moço mau de novo. Bárbara não gosta dele — diz, fazendo um bico.
Na hora, a mensagem de Rodrigo passou pela minha mente como um flash. Ele podia ser rico, ter uma boa educação, mas por dentro, era podre e amargo. Não sabia o que significava amar, nem dar carinho. E, se fosse necessário, eu enfrentaria até ele para ser feliz e criar minha filha.
— A gente nunca mais vai ver o moço mau, ele foi embora das nossas vidas. Agora vai ser só eu, você e a titia Márcia, tá? — respondo, tentando acalmá-la. Ela assente e continua assistindo aos vídeos.
Olho para trás, tentando localizar Márcia na multidão, mas é impossível. Não nos sentamos juntas no voo; ela ficou mais para trás. Depois de uma hora e meia, o piloto anuncia a nossa chegada ao Rio de Janeiro. Bárbara ainda dormia tranquilamente, e eu logo tratei de acordá-la, para que não houvesse confusão.
Passamos por todos os procedimentos até chegar à sala de espera das malas. A demora de quase uma hora para pegar as bagagens, e o calor insuportável, tornavam a situação ainda mais difícil, principalmente com uma criança chorando de fome.
— Seu jumento da porra! Precisa me empurrar para pegar a mala? Acha que é o único apressado aqui? — Márcia brada, com o tom de voz agressivo.
— Querida, eu pedi licença, tá? Você que empinou a bunda, pensando que alguém iria se interessar. Agora, se saia, que a biba aqui tem outros assuntos para tratar — responde o moço, jogando seu cabelo médio na cara de Márcia, e se virando para sair.
— Sua... — Márcia começa, mas antes que termine, eu a cotovelo no braço.
— Deixa ele, Márcia, chegou agora e já quer arrumar briga — falo, rolando os olhos enquanto pego as malas.
Márcia resmunga, mas cede.
— Melhor sair desse aeroporto, senão vou cometer um homicídio! — ela diz, já se afastando, visivelmente irritada.
Pegamos um táxi na saída do aeroporto. Embora estivesse faminta, preferi esperar até chegarmos ao nosso destino. Márcia passou o endereço para o motorista, e, logo, percebi que ele ficou pálido, arregalando os olhos ao escutar o nome do local.
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Meu Novo Recomeçar
JugendliteraturIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
