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Isabella narrando...
Depois de ver a Bárbara fechar os olhinhos devagar, a respiração ficando mais pesada a cada segundo, me levantei e a cobri com cuidado. Desde ontem à noite, ela não vinha bem — febre, cansaço, dificuldade pra respirar por causa da asma. Chamei o Rayan, médico do posto, pra dar uma olhada. Graças a Deus, não era nada grave. Só alguns medicamentos, repouso e carinho.
Rayan e eu viramos bons amigos desde aquele dia em que ele esbarrou em mim na barreira. No começo eu era tímida, desconfiada — estava com a guarda alta demais pra deixar qualquer um se aproximar. Mas com o tempo fui vendo quem ele era de verdade: leve, gentil, divertido, daquele tipo de pessoa que chega com um sorriso sincero e parece abrir uma fresta de sol no meio da tempestade. Um alívio no meio de tanto caos, uma presença que, sem querer, acabou se tornando uma das poucas coisas boas dessa confusão toda.
Deixei um beijo na testa da minha filha e fechei a porta. Ainda tinha que dar o jantar da Ágata antes que algum dos vapores do Wesley viesse buscá-la. Agora é assim: distância. Ele manda alguém e eu nem olho na direção. Faz um mês que não trocamos uma palavra. Gelo. Gelo puro.
E, sinceramente, foi a melhor escolha. Me afastar de alguém que se esconde na própria escuridão, que machuca os outros por medo de ser amado, foi o mínimo de amor que consegui ter por mim mesma.
Estava no alto da escada quando ouvi a campainha. Antes que pudesse descer, Rayan passou na minha frente e foi abrir a porta. Por alguns segundos, o silêncio foi total — um silêncio tão pesado que parecia gritar. E então a voz que eu mais queria evitar ecoou pela casa.
— Qual é, cuzão, tira a mão da minha filha! — Wesley gritou, em puro ataque.
— Relaxa, cara. Não vou comer ela não, pô. — Rayan respondeu, tranquilo.
— "Cara"? Tá achando que sou teu parça, arrombado? Fala direito nessa porra.
— E se eu não quiser? Vai fazer o quê...? — Mas antes que ele completasse, desci correndo.
Meu coração disparou. O ar ficou pesado. Wesley tava com os olhos vermelhos, a respiração descompassada — pronto pra explodir. Já o Rayan, impassível, com um sorrisinho debochado no rosto. Wesley foi direto, arrancou Ágata dos braços dele. A menina chorou na hora.
— Não é assim que se pega uma criança. Pode deslocar o osso... — Rayan tentou alertar.
— Vai tomar no cu tu não quer, né, veado? Da minha filha cuido eu! Ninguém pediu tua opinião.
Antes que o pior acontecesse, me meti entre os dois.
— Já chega. Rayan, obrigada por ter vindo. Sem sua ajuda, eu não saberia o que fazer. — Fui até ele, sentindo o olhar cortante de Wesley queimar minhas costas. — Amanhã a gente se fala, tá ficando tarde.
— Claro... Espero que o jantar ainda esteja de pé. — Ele beijou minha bochecha. Eu corei.
— Tá sim. — Sorri, sem graça, e fui com ele até a porta.
Do lado de fora, vi Márcia sentada na muralha, rindo da cena. Fiz sinal pra ela esperar. Voltei pra sala e lá estava ele: Wesley, largado no sofá, com a filha nos braços. Olhar furioso. Corpo tenso.
— Já terminou seu show? Então levanta e sai da minha casa.
— Show é o caralho. Chego aqui de boa e encontro um palhaço dentro da tua casa. E você, vacilona, desde quando traz macho aqui pra dentro?
Soltei uma gargalhada debochada. Ele realmente achava que ainda tinha algum controle sobre mim?
— Primeiro, o combinado era você mandar alguém buscar a Ágata. Eu deixei bem claro que não queria te ver. Segundo, entra aqui quem eu quiser. Eu pago as contas. Terceiro, se eu quiser trazer quatro machos de uma vez, eu trago. Você não é meu pai — e nunca foi homem suficiente pra ser meu parceiro. Agora sai. E não volta mais.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
