Capítulo 22

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Wesley narrando...

A percepção me veio como um raio — fulminante, inevitável. Ágata, em sua doçura silenciosa, vinha se apegando a Isabella com a naturalidade de quem busca um ninho. E isso, confesso, me inquietava de um jeito que nem eu sabia nomear. Havia ternura no olhar da menina, uma confiança serena que insinuava algo mais: o nascimento de uma figura materna. E essa ideia... essa ideia me atravessava feito farpa.

Ágata nunca fora fácil. Era feita de sombras e silêncios, arredia como um bicho ferido. Nem dona Paula, que a criou desde os primeiros dias de vida, conseguiu quebrar essa barreira por completo. Com ela, os gestos eram secos, os choros, imprevisíveis. Mas Isabella... Isabella conseguia o que ninguém jamais conseguiu: tocá-la, acalmá-la, envolvê-la com uma presença que, aos meus olhos, começava a parecer perigosa demais.

Eu estava absorto no celular, trocando mensagens com os caras da boca, quando ouvi o leve resmungo de Ágata. Ela puxava os cabelos de Isabella com uma delicadeza nervosa, como quem quer reivindicar o que é seu. Levantei o olhar. Meu instinto se aguçou. E então, como quem observa algo pela primeira vez, encarei o corpo de Isabella. Um arrepio atravessou meu peito. Puta merda.

Sempre acreditei que fosse uma mulher contida, discreta até demais. Desde que chegou, mal saía do canto, cuidava da filha em silêncio, repetindo aquele mantra sobre "não se envolver". Mas no último sábado... ela se desfez diante de mim. Bastaram alguns copos e o véu caiu. A mulher recatada deu lugar a um desejo latente, a um fogo que nem mesmo ela parecia conhecer.

O vestido curto, os movimentos sutis, os olhares entrecortados. Ela se soltou, dançou, provocou. E eu, ali, sentindo o corpo responder antes mesmo da razão entender. Por dentro, lutava contra a vontade de rasgar aquela roupa fina e possuí-la ali mesmo, no meio da pista, diante de todos. Minha mente se nublava a cada sorriso enviesado. Ela tinha um corpo que prometia tormentas — e eu estava pronto para naufragar.

O beijo... O beijo foi o início do fim. A língua dela encontrando a minha com uma fome disfarçada de timidez. Primeiro, hesitou. Depois, se entregou. E naquele instante, soube: ela podia ser minha perdição.

Ainda assim, havia nela uma resistência que aguçava ainda mais meu desejo. Era como um convite ao abismo. E eu, tolo, me jogava sem medo.

Quando recusou o celular, algo em mim se rompeu. Como se ela desafiasse não apenas minha autoridade, mas também o jogo que, claramente, jogávamos.

— Não perguntei se podia ou não — falei, a voz dura como pedra. — Vai ficar com o celular. Se alguma coisa acontecer, vai precisar dele.

Ela tentou protestar, mas cortei com o olhar.

— É isso. Fica com ele, fim de papo.

Seus olhos me atravessaram, confusos — um misto de orgulho ferido e algo que beirava o desejo. Ela se virou para subir as escadas, mas antes que pudesse escapar, fui atrás. Segurei seu braço com firmeza, fazendo-a parar.

— Está com pressa por quê? — sussurrei, a voz baixa, carregada de algo mais.

Ela engoliu em seco. Os olhos, antes firmes, vacilaram. O peito subia e descia de maneira irregular. Meu olhar passeava por seu rosto, por seus traços, até os lábios entreabertos, e então mais abaixo. Ela sentia. Eu sabia. A tensão entre nós era densa, quase palpável.

Empurrei-a suavemente contra a parede. Prendi seus cabelos com uma das mãos, meu corpo colado ao dela. Ela não disse nada. Apenas me olhava, olhos arregalados, como quem tenta decifrar se o que sente é medo ou fascínio.

— Você não faz ideia do quanto estou louco pra te ter... — murmurei, os lábios quase roçando os seus.

E a beijei. Com fúria, com desejo, com a urgência de quem já não controla mais os próprios limites. Isabella cedeu. Seus lábios responderam aos meus com o mesmo fervor, como se quisesse — ainda que não admitisse. Por alguns segundos, fomos apenas instinto. Até que ela me empurrou. Subiu as escadas com passos rápidos, quase tropeçando. A porta do quarto bateu com violência.

— Vai se arrepender, vagabunda! — gritei, a voz rasgando o silêncio da casa. Fiquei ali, ofegante, sentindo o sangue ferver, o desejo latejando.

Ela podia fingir. Podia se esconder. Mas o que estava feito, estava feito. E eu sabia: cedo ou tarde, ela voltaria. Não por submissão. Mas porque, no fundo, a chama queimava dos dois lados.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora