Isabella narrando...
BÁRBARA! — o grito escapou-me dos lábios como um rompante.
Despertei sobressaltada, o coração disparado, o corpo úmido de suor e febril como se eu tivesse atravessado uma febre dos infernos. A respiração vinha curta, descompassada, como se ainda estivesse presa ao horror que acabara de vivenciar em sonho.
Virei-me de imediato e, ao ver minha pequena Bárbara dormindo serenamente ao meu lado, a angústia que me consumia pareceu dissipar-se como fumaça ao vento. Ela estava ali. Viva. Intocada. Não caída no chão manchado de sangue, não com Rodrigo gargalhando feito um demônio ao fundo — como no pesadelo que acabara de me visitar.
Parecia tão real... Tão vívido que o pavor se enraizou em mim. Num ímpeto de desespero, abracei minha filha com força, apertando-a contra meu peito como se, só assim, pudesse protegê-la do mundo. As lágrimas vieram baixas, silenciosas — não queria acordá-la.
— Meu Deus... graças a Deus foi apenas um pesadelo, minha filha. Você não imagina o medo que mamãe sentiu de te perder... — murmurei entre soluços. — Eu juro, meu amor, vou te proteger de tudo, de todos. Ninguém nunca mais vai te machucar. — beijei-lhe a testa com ternura.
O som da maçaneta girando rompeu o silêncio.
Apressei-me a limpar as lágrimas e escondi o rosto na almofada, tentando apagar os rastros do meu desespero.
— Isa...? — chamou uma voz familiar.
As lágrimas voltaram com força total. Ela entrou e fechou a porta suavemente. Caminhou até a cama e, ao vê-la ali, sem pensar, lancei-me em seus braços. Um abraço desesperado, em busca de um abrigo, de uma âncora.
Ficamos assim por minutos. Eu, desmoronando em prantos silenciosos, e ela, acariciando meus cabelos com a paciência de quem entende a dor sem precisar de palavras.
— Isabella, para com isso, senão vou acabar chorando também — disse com suavidade. — Ouvi seus gritos e vim correndo... Foi só um pesadelo, certo?
Assenti em silêncio, a voz ainda presa no peito.
— Sonhei que ele descobria onde estávamos... raptava minha filha e... e a matava com um tiro no peito. Depois, ele ria. Ria como um psicopata... — minha voz falhava a cada palavra. — Foi tão real, Márcia. Eu me senti sufocada, apavorada. Desde que viemos pra cá é a primeira vez que sonho com ele, mas a Bárbara... ela tem dificuldade pra dormir quase todas as noites. Ela tá traumatizada. E isso... isso é minha culpa.
— Vocês duas precisam procurar um psicólogo urgente — respondeu firme. — Te trouxe pro Rio pra você recomeçar, pra apagar esse passado desgraçado. Mas pra isso, tem que deletar essas lembranças. Arrancar o mal pela raiz. — Me abraçou com força. — Amanhã mesmo vou pedir pro Safadão arrumar isso pra vocês. E nem ouse dizer que não vai aceitar — você não tem escolha.
Márcia era um tipo raro. Daquelas pessoas que a vida te dá de presente uma única vez. Irmã de sangue, sim, mas sobretudo de alma. Nos piores dias da minha vida, ela esteve ali. Presente. Constante. Forte.
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Naquela noite, Márcia fez o impossível para afugentar meus medos. Deitou-se numa ponta da cama, colocou Bárbara entre nós duas e começou a puxar conversa, como nos velhos tempos.
Conversamos sobre tudo e nada. Ela me fez rir, como sempre fazia, e permaneceu acordada comigo até que o sono finalmente me venceu.
Acordei melhor. Ainda com um peso no peito, é verdade, mas mais leve. Sua companhia me fez bem. Fui ao banheiro, fiz minha higiene, tomei um banho e me vesti com calma.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
