Isabella narrando...
— Têm a certeza de que é para aí que as senhoritas desejam ir?
Antes que eu possa questionar ou responder algo, minha amiga confirma de imediato! Algo estava estranho nela, mas eu não sabia o quê. Achei melhor não perguntar, talvez fosse o cansaço da viagem ou a pequena confusão no aeroporto.
Minutos depois de o carro entrar em uma estrada estreita e vazia, seguimos para uma rua totalmente deserta. Não havia casas, nem pessoas, e o lugar estava sujo! Havia até um sofá velho no meio do caminho, parecia mais um terreno baldio, abandonado. Observei tudo ao redor e senti um frio na espinha, arrepiando até os pelos da minha filha, que estava no meu colo.
— Márcia Teresa Góes, para onde estamos indo? — disse, séria, e a mesma me fuzilou com o olhar.
— Condenada de satanás, falei que não é pra ficar dizendo meu nome inteiro! — ela respondeu, revirei os olhos. Ela detesta quando a chamam pelo nome completo. — Imagina, tô devendo alguém aqui no Rio, nunca se sabe.
— Não respondeu à minha pergunta — insisti, mantendo meu semblante sério.
Somos interrompidas pelo motorista, que anunciou nossa chegada ao destino, mas eu não sabia onde estávamos. Rapidamente, minha amiga desceu do carro e fechou a porta. Fiz o mesmo em seguida, com minha filha adormecida no meu colo.
Olhei ao redor atentamente. O taxista havia informado que não poderia subir, pois a entrada de carros nessa zona era proibida. Meus olhos fixaram por alguns segundos um grande muro de mármore, onde estava escrito, em letras maiúsculas: "Morro do Chapadão". Senti como se a respiração me faltasse e meu coração parasse de bater. Minhas pernas ficaram moles e meus braços exaustos, devido à posição em que Bárbara estava dormindo. Tive que acordá-la e colocá-la no chão.
Quando consegui retomar a postura, senti meu coração bater de novo normalmente, e consegui falar.
— Morro do Chapadão? É isso que está escrito aqui ou eu virei cega? — perguntei, encarando Márcia, que não dizia nada. — O que viemos fazer numa favela? Moço, o senhor errou o caminho, só pode! Por favor, dá uma olhada nesse endereço de novo! — passei a mão pelo cabelo, nervosa.
— Não houve engano nenhum, senhora. O endereço é esse mesmo, mas não posso subir o morro. São proibidas as entradas de taxistas aqui, ou algo do tipo. Agora, se não for muito incômodo, gostaria de receber meu pagamento, tenho muito trabalho pela frente — disse ele educadamente, e eu revirei os olhos.
Fala sério, né? Eu aqui, quase em pânico, tentando entender o que está acontecendo, e ele, preocupado em ser pago?
Me poupe!
Para não começar a gritar, peguei minha filha e me afastei um pouco.
Na entrada do morro, vi alguns homens armados até os dentes, ambos encapuzados. Na Netflix, esses tipos de cena pareciam bem menos assustadores e mais controlados.
Não é que eu tenha preconceito com favelas. Sei que os problemas desses lugares são complexos, mas morar em um lugar assim, com armas, traficantes, drogas, trocas de tiros... definitivamente não é o tipo de "aventura" que eu queria para minha filha.
Assim que nos notaram, falaram algo em um rádio comunicador e vi dois deles avançarem em nossa direção.
***
Depois de quase uma hora observando Márcia discutir com aqueles traficantes que não queriam nos deixar passar — porque o dono do morro não estava presente e não havia anunciado nossa chegada — finalmente, ou infelizmente, um garoto alto, de cor morena, com cabelo curto e preto, pediu para liberarem a nossa passagem.
— Mamãe, tô com fome! — Bárbara cutuca minha perna.
— Espera, meu amor, você já vai comer... — respondi, tentando manter a calma.
Ainda estávamos na entrada do morro, conversando com o garoto, se não me engano seu nome era Matheus, sub-dono dali.
— Tô sabendo dessa história de prima, não dona — disse, cruzando os braços, com a postura de quem estava no comando.
— Dona é sua m... — Márcia respondeu, mas logo se controlou ao perceber Matheus retirando o revólver.
— Vamos tentar de novo, que hoje tá complicado até pra falar com bandido... — ela continuou. — Então, não somos X9 nem infiltrados. Viemos aqui porque meu primo Wesley disse que podíamos ficar na sua casa até a gente achar nosso rumo! Se não acredita em mim, liga pra ele e confirma a história.
Matheus bufou de raiva e voltou a barrar nosso caminho.
— Você deveria ter me consultado antes de trazer a mim e à minha filha para esse lugar. Depois a gente vai conversar, porque aqui não fico nem um dia! — disse, irritada.
— Mamãe, tô com vontade de fazer xixi e com fome! — Bárbara me cutuca de novo.
— A gente já vai descansar, filha. Você aproveita para comer e fazer xixi — respondi, tentando manter a calma.
Nessa hora, Matheus se aproximou novamente.
— Patrão me confirmou essa parada aí, mandou tu mais elas duas subirem até a casa grande para matar a xepa, se ligou? Mas tô de olho em vocês, se forem da gambé é sete palmos de baixo da terra — ajeitou seu boné.
De tão cansada e irritada que eu estava, preferi não responder. Vai que ele leva a mal e aponta uma arma pra mim? Deus me livre!
Subimos o morro a pé, com o calor insuportável do Rio queimando nossas costas. Peguei um chapéu rosa e branco com um desenho de panda, que estava na minha bolsa, e coloquei na cabeça de Bárbara. Ela não podia pegar muito sol, ainda estava com a cabeça sensível por causa do "acidente".
A medida que subíamos, as pessoas nos olhavam de cima a baixo, com caras de desgosto. Ouvíamos alguns cochichos pelo caminho, provavelmente por sermos novas ou por estarmos acompanhadas do sub-dono.
Chegamos a uma parte do morro bem diferente das outras. As casas eram mais chiques e grandes, comparadas às outras, e havia menos pessoas nessa área.
— O rango tá sendo preparado. Podem entrar, que depois os vapor vão trazer as malas — disse ele, dando as costas.
— Ignorante! — Márcia resmungou.
No mesmo instante, ela rolou os olhos e deu um passo à frente, tocando a campainha. Minutos depois, uma mulher alta, de cabelos castanhos e longos, aparentando uns 45 anos, apareceu com um pano de cozinha na mão. Assim que viu Márcia, abriu um enorme sorriso.
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Meu Novo Recomeçar
Ficção AdolescenteIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
