Isabella narrando...
Os olhares que se cravavam sobre mim carregavam uma mistura desconfortável de fúria, surpresa e curiosidade mal disfarçada. Eu me sentia como uma intrusa, um ser estranho recém-chegado de outro planeta, analisada com descaramento por olhos que não sabiam — ou não queriam — disfarçar.
A praça, embora com poucos presentes, parecia um palco iluminado onde eu era o espetáculo principal. Alguns sussurravam sem qualquer pudor, como se minha presença fosse um escândalo fresco a ser devorado. Cansada de ser alvo de tantas atenções indesejadas, desviei o olhar e voltei minha atenção para Juliana. Que povo sem vida!
— Como eu tava dizendo — ela continuava entre uma colherada e outra do açaí — reabriram a sala de desporto e estão precisando de alguém na recepção. Pensei logo em você, linda e pronta pra sambar na cara deles.
— Da última vez que pisei lá, deu ruim — respondi com um meio sorriso, tentando disfarçar o desconforto. — Deus me livre de passar por aquilo de novo, embora a Ester tenha sido bem gentil. Talvez eu até aceite, mas não vou me sentir à vontade no meio de tanto homem. E pelo jeito que você fala, parece até que tô indo caçar macho.
A proposta era clara: trabalhar como recepcionista em uma sala frequentada majoritariamente por homens. Homens de todo tipo — usuários, traficantes, pais de família. Apesar da necessidade urgente de um emprego, algo dentro de mim hesitava. A ideia de estar ali, sendo observada, julgada, talvez desejada... não me agradava.
— Ih, mulher, isso aí é luxo! Só bofe bonito, musculado, bunda empinada. E ainda tem uns do tráfico, né? Sem contar que tu pode espiar o vestiário na hora do banho... imagina dar de cara com um pau de vinte e cinco centímetros — disse Juliana, mordendo os lábios com gosto, como quem saboreia o próprio pensamento.
— Misericórdia. Deus me livre dessas tuas loucuras — rebati, revirando os olhos.
— Ah, não se faz de santa, não! Sei bem que tu senta gostosinho no Wesley. E olha... ele deve ser um leão na cama — completou, com um sorriso malicioso. — Me abana que só de imaginar já esquentou tudo aqui.
Sorri, sem jeito, sentindo minhas bochechas queimarem. Eu sabia que meu rosto denunciava o turbilhão por dentro. Do outro lado da praça, percebi um grupo de garotas que não disfarçavam o incômodo com nossa presença. E bastou o nome "Wesley" ser mencionado para que elas começassem a nos encarar com mais firmeza — como se de repente tudo fizesse sentido para elas.
Tá repreendido em nome de Jesus. Eu, hein.
— Ju, olha com calma pra trás. Vê ali, perto da sorveteria? Aquele bando de garotas... a de short branco não para de nos encarar — comentei, sem virar o rosto, apenas indicando com os olhos.
Por mais estranho que parecesse, eu e Wesley nos aproximamos muito nos últimos dias. Não era apenas sobre sexo. Às vezes, ele aparecia com doces pra Bárbara. Outras, deixava Ágata comigo pra ir ao trabalho. E bastou um momento — um único instante em que fomos vistos juntos, saindo do posto de saúde com a pequena — pra que os boatos começassem. Desde então, passei a receber mais sorrisos do que nunca. Convites de amizade. Palavras doces de quem antes me ignorava. Principalmente das mulheres.
Talvez porque Wesley nunca fora visto com mulher nenhuma. Sempre cercado por seus aliados, a presença constante era apenas a filha. Então, me ver ao lado dele... com outra criança... causava estranheza.
Mas a verdade é que esses dias com ele têm sido os melhores que vivi em muito tempo. Há nele um lado terno, ainda que tímido, quase invisível. Já reconheço quando ele sorri de verdade. Quando seus olhos se suavizam. Quando a brutalidade dá lugar ao cuidado. É impossível não rir ao vê-lo trocar fraldas com jeito atrapalhado ou conversar com Ágata como se ela compreendesse todas as gírias da quebrada.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
