Capítulo 26

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maratona 1/3

Wesley narrando...

Desde a infância, abandonei os sentimentos, fiz de mim uma fortaleza imbatível, onde nada no mundo parecia atingir minha alma. Sem medo, sem remorso — um reflexo de uma vida selvagem, marcada por tragédias imensuráveis. Já vi amigos caindo diante de mim, ou fui obrigado a tirar a vida de alguns, e o único sentimento que me restou foi... prazer.

Há algo inquietante, algo profundamente perturbador, quando acreditamos que estamos imunes ao mundo. Uma palavra, apenas uma palavra, e tudo o que achávamos inquebrável se desfaz.

Desde que entrei para o tráfico, já levei tiros de raspão, apanhei nas mãos da polícia quando ainda era menor, enfrentei armadilhas traçadas por homens imundos, mas, de verdade? Nada disso me tocou. Com o tempo, parecia que, após tantas humilhações e dores, o coração se fechava, e o corpo se tornava uma armadura impenetrável. Podiam até me ferir fisicamente, mas a dor já não se manifestava.

No entanto, quando soube que a única pessoa que amava, e pela qual daria minha vida para protegê-la, estava no hospital, e mais ainda, ouvi o médico falar, com frieza, que ela havia sido envenenada, algo dentro de mim se rompeu. A raiva subiu, quente, feroz, e com cada palavra dele, a fúria crescia.

Como poderia confiar nas palavras daquele homem? Ontem ela estava em meus braços, falando com aquela sua linguagem única e carinhosa, e hoje, estava à beira da morte, vítima de algo tão vil? O que ele me dizia não fazia sentido.

Meus olhos ardiam, e logo uma lágrima quente escorreu pela minha face. Limpei rapidamente, sentindo a raiva ferver dentro de mim. Fechei os punhos, e a lembrança de um garoto vulnerável, de um tempo distante, ressurgiu com toda a sua força.

— O quê você disse? — perguntei, avançando em sua direção.

— Ela... Foi enven... — começou ele, recuando, temeroso.

Minha mente estava em frangalhos, o ódio correndo em minhas veias. Olhei para o lado e vi aquela mulher desgraçada, com o rosto marcado pelas lágrimas de Juliana, segurando minha filha. Só poderia ser ela a responsável por isso.

Ninguém, ninguém teria coragem de mexer com minha filha. Todos sabem como sou. Mexeu comigo, mexeu com o diabo.

— Eu vou te matar! — gritei, avançando em sua direção, e vi o pavor nos olhos dela.

Sabia daquelas histórias sobre homens que batiam em mulheres, e que isso os tornava covardes, mas naquele momento, não me importava. Minha filha estava em perigo.

Márcia tentou intervir, mas a empurrei para o chão, sem olhar para trás. Isabella recuou até encontrar a parede, tentando escapar, mas puxei seus cabelos e, com toda a minha fúria, desferi um soco em seu rosto.

— Não te disse para ficar longe dela? — gritei, desferindo outro tapa. — VAI MORRER, VAGABUNDA! — e outro soco, fazendo sua boca sangrar.

— Não... Fui eu... — ela disse, entre lágrimas.

Isabella narrando...

É quase cruel como o passado tem esse dom silencioso de nos alcançar quando menos esperamos. Quando acreditamos ter escapado, ele sussurra nosso nome e reaparece — voraz, inevitável. No meu caso, talvez eu tenha nascido para a dor. Ou, pior, para ser moldada por ela.

O primeiro golpe de Wesley não atingiu apenas meu corpo — ele atravessou minha alma. No instante em que seu punho encontrou meu rosto, memórias antigas, enterradas a muito custo, explodiram em minha mente. Rodrigo. Os olhos frios. Os gritos abafados. O medo enraizado. Era como se os fantasmas que eu passara anos tentando enterrar, de repente, tivessem voltado para dançar ao redor de mim.

Senti a fúria de Wesley pulsando em cada músculo, transbordando de sua pele como se sua própria carne estivesse em guerra. Ele não me via mais — via uma ameaça, um alvo. E eu, presa no seu abismo de dor e raiva, me tornei o inimigo.

A única fagulha de consolo que me restou foi saber que minha filha, Bárbara, estava longe dali. Que seus olhos de menina não assistiriam àquela cena vergonhosa. Que, por ora, ela não veria sua mãe sendo esmagada como outrora, reduzida a silêncio e sangue.

Quando soube do envenenamento de Ágata, senti o mundo sair de seu eixo. Ela não é minha filha, mas é uma criança — e isso basta. Uma vida ainda em botão, tão frágil e inocente. Saber que alguém ousou tocar nela com crueldade me atravessou como uma lança.

E então, como quem vasculha uma lembrança com dedos trêmulos, recordei. Paula. Aquela tarde nebulosa em que a vi junto à mamadeira. Um líquido estranho. Esverdeado. "É só um chá", ela disse. "Ajuda nas cólicas." Sua voz era doce, quase maternal. E eu quis acreditar. Acreditei. Paula sempre fora gentil. Atenciosa. Um rosto sereno entre tantos rostos marcados.

Mas agora... agora tudo parecia impregnado de outra cor. O médico havia sido claro: uma substância tóxica. Uma mistura de fármacos e algo natural, de difícil rastreio. As peças, ainda soltas, começaram a se mover dentro de mim. Será? Estaria eu forjando conexões inexistentes? Ou a verdade estava ali o tempo todo, sorrindo em disfarce?

O terceiro golpe de Wesley me arrancou de dentro de mim. Meu nariz rompeu sob o peso do anel que ele usava. O gosto metálico do sangue me invadiu a boca. A dor já não era física — era existencial. Eu queria gritar, implorar, negar. Mas as palavras haviam fugido. Fiquei apenas eu, o silêncio, e a certeza de que meu corpo logo cederia.

Alguns seguranças assistiam à cena, mas seus olhos fugiam. Covardia ou medo? Talvez os dois. Talvez já soubessem que ninguém segura um homem no limite do desespero.

— Tu vai arder no inferno — sussurrou ele, com um ódio que queimava mais do que os próprios socos.

Naquele momento, minha mente correu para Bárbara. Só conseguia pensar nela. E foi quando ele sacou a arma. Vi o fim. Nítido. Cruel. Irremediável.

Mas então, como um rasgo de ar em meio ao sufoco, Matheus e KP entraram na sala.

— Calma, Wesley! Tu tá fora de si! — empurrou-o, tentando afastá-lo.

— Ele vai matar ela, Matheus! — gritou Márcia, sem forças, o rosto coberto de lágrimas.

— Caralho, Wesley! Tá maluco? — berrou ele, tentando contê-lo. — Ela não fez nada, porra!

— EU VOU MATAR ESSA VADIA! — rugiu ele, o olhar cravado em mim, como se eu tivesse assassinado sua alma.

— Eu juro... juro que não fui eu... — sussurrei, a voz entrecortada, afogada em dor e medo.

— Wesley, para. Olha pra mim. Tu tá cego de raiva. — disse Matheus, aproximando-se, firme, porém cuidadoso. — KP, tira a Isa daqui. Leva ela pro quarto. E chama uma enfermeira. Agora.

Enquanto Matheus cochichava algo ao ouvido de Wesley, ele me lançou um último olhar. Um olhar que não era apenas de ódio. Era de mágoa. De perda. De algo quebrado que jamais voltaria ao lugar.

E naquele instante, eu soube: mesmo que a verdade um dia viesse à tona, talvez ele nunca mais me enxergasse com os mesmos olhos.

Depois de muita gente pedir e cause me matar virtualmente decidi trazer uma pequena maratona para vocês.

Vamo e 💬 que as zamigas tão merecendo.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora