Capítulo 17

13.3K 1.3K 120
                                        

meta: 200 votos

Wesley narrando...

O sol já tinha se despedido havia muito tempo, e eu ainda estava na boca, conferindo os números, revisando as dívidas, identificando um por um os filhos da puta que ainda deviam pra mim.

O dia inteiro foi consumido nisso — papel, rádio e memória. No fim, o que restou foi uma folha com nomes, alguns sublinhados, outros riscados. Peguei o rádio e chamei Matheus. Essa missão era dele. E eu queria tudo resolvido até amanhã. Ninguém se vicia de graça na minha favela. Esses moleques acham que isso aqui é brincadeira.

Tinham duas saídas: pagavam o que deviam ou desciam pra cova.

As risadas no corredor me arrancaram dos pensamentos. A porta se abriu com estardalhaço, e logo entraram KP, Th e Yuri — gargalhando, como se a vida fosse uma piada.

Pelo sorriso cínico do Kevin, já sabia o motivo: tinha visto algum playboy se engraçando com a ex dele.

— Dez minutos de atraso, Matheus. Cê tá achando que eu não tenho mais porra nenhuma pra fazer? — perguntei, com a voz firme.

— Ih, sem neurose, Safadão... Resolvemos uns B.O no caminho — disse ele, disfarçando o atraso.

— "Safadão" é o caralho. Safadão é meu pau na cara da tua mãe.

Eles riram. Sempre riam. A gente vivia num equilíbrio frágil entre o deboche e o respeito. Mas a palhaçada logo passou dos limites.

— Eu, hein... se fosse eu, não deixava — soltou KP, entrando no clima.

— Também não admitia ver minha ex com um riquinho — provocou Yuri, cutucando Kevin. O troco veio na hora: um soco seco no meio da cara.

— ACABOU A PALHAÇADA AQUI DENTRO! — gritei, puxando a arma da cintura e apontando pro chão, só pra lembrar quem comandava. — Não quero mais ouvir essa porra de separação de vocês dois! Minha paciência tem limite, e vocês sabem bem disso.

Yuri engoliu em seco.

— Foi mal, WL... só tava brincando.

— É, foi mal — repetiu KP, mais contido.

— Matheus e Yuri, vocês vão atrás dos devedores. Quem não tiver a grana, elimina. Sem prazo, sem explicação. Os mauricinhos? Pode matar e queimar. Não quero rastro. Quero a folha limpa na minha mesa até amanhã de manhã. Kevin, cê tá dispensado da boca hoje.

Eles assentiram em silêncio e saíram.

Pode parecer loucura, mas esses caras são meus irmãos. Cada um, à sua maneira, significa algo pra mim. Mas aqui, no campo de guerra que a gente chama de morro, se não impõe respeito, viram piada. E piada aqui não dura muito tempo.

Cheguei em casa já passava das três da madrugada. Tudo em silêncio, as luzes apagadas. Era sinal de que a casa dormia em paz. Antes de voltar, parei no bar do Zeca, perto da boca, tomei umas, comi uma mulher — precisava aliviar o peso do dia.

Passei direto pela sala e fui pra cozinha. A fome batia com força. Preparei meu prato: arroz, feijão, carré e purê. Esquentei no micro-ondas, sentei, comi devagar. Depois deixei o prato na pia e subi.

No segundo andar, escutei o choro da minha filha vindo do quarto. Fui até lá. O berro ecoava e, sinceramente, não sei como ainda não tinha acordado a casa inteira.

Entrei. Àgata estava encolhida no berço, o rosto molhado de lágrimas, o pijama sujo de vômito. Fui até ela.

— Ô, ô, ô... acabou o choro, papai tá aqui — falei, pegando-a no colo com cuidado. — Tava com saudade do papai, era?

Beijei sua testa.

Coloquei ela na mesinha de trocar fralda que Dona Paula arrumou. Tirei a roupinha com certo esforço — a menina não parava quieta. Tirei a fralda também, o cheiro era de matar.

Engraçado... como algo tão pequeno pode feder tanto?

Limpei, passei pomada, coloquei a fralda nova do jeito que vi a Paula fazer. Na hora de vestir a roupa, ela começou a resmungar. Dei a chupeta. Funcionou. Por alguns segundos. Logo largou. Fome.

Terminei de vestir com dificuldade e desci pra preparar a mamadeira. Esquentei, como me ensinaram, e subi com ela.

Sentei na cama, botei a menina no colo. Assim que sentiu o bico da mamadeira, agarrou com vontade.

Cheia de fome... igual ao pai.

Pode parecer papo de moleque frouxo, mas toda vez que olho pra essa pequena nos meus braços, tão indefesa, tão minha, eu só penso numa coisa: ninguém vai machucar ela. Nunca mais.

Ela já sofreu demais. E eu juro por Deus que vou fazer o que for preciso pra que nada de ruim volte a acontecer.

Quando crescer, vai pra colégio de freira, daqueles que não deixam nem o diabo entrar. Não quero que façam com ela o que eu fiz com tantas outras.

Pode parecer hipocrisia — e talvez seja —, mas se algum filho da puta encostar um dedo nela, vai conhecer meu fuzil antes mesmo de conseguir se explicar.

Despertei com algo quente encostando nos meus lábios. Por um segundo achei que tava sonhando. Até sentir o tapa.

Abri os olhos devagar. Ágata estava em cima de mim, mordendo meu rádio — completamente coberto de vômito.

— Pô, Ágata, precisava vomitar na boca do papai? — falei, rindo de nojo.

Ela fez careta.

— Isso só pode fazer com o tio Kaique, tá?

Levantei da cama, deixei ela cercada de almofadas pra não cair. Tomei um banho rápido, me vesti e fui até o quarto dela pra trocar sua roupa e a fralda de novo.

Escolhi o vestido novo que comprei e descemos juntos pra cozinha.

Bárbara passou correndo, aos pulos:

— Eu vou pra escola... Eu vou "estular"... Eu vou pra escola!

Atrás dela, a mãe gritava seu nome.

Mal sabe a menina que daqui uns doze anos vai acordar querendo matar aula todo dia.

Não me matem piranhas kkkk
Desculpem a demora pra postar meninas .

A nova meta para TODOS O CAPÍTULOS agora é de 200 votos e muitos comentários porque reparei que têm monte de fantasmas aqui no livro 😩. É difícil passar horas e horas tentando encontrar idéias para os capítulos e no final muita gente lê mas só a metade vota e comenta.

Só voltamos a postar quando a meter ser atingida.

Bom carnaval para todas vocês, muita sentada 😏 e não se esqueçam de usar camisinha para não se ferrar depois kkkk.

Bjs 😘

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora