Capítulo 20

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Isabella narrando...

Doida. Fora de mim.

Essas eram as únicas palavras que consegui encontrar para me descrever naquele instante.

Já havia perdido completamente a noção do tempo — talvez fossem duas da madrugada, ou três, ou quem sabe o dia já estivesse para nascer — e, no meu sangue, circulava o equivalente a cinco copos daquela maldita vodka preta e mais umas dez caipirinhas. Meu corpo reagia de forma desastrosa àquela avalanche alcoólica.

A cabeça latejava em um ritmo quase insuportável, o chão parecia girar debaixo dos meus pés, e as palavras que saíam da minha boca vinham desconexas, desalinhadas, como se não me pertencessem. Arrependimento. Era o que me rondava agora. Um arrependimento que veio logo após o primeiro gole — tarde demais para voltar atrás.

Mas havia algo viciante naquele líquido ardente. Algo quente, intenso e libertador. Eu me perguntava por que, em vinte anos de vida, jamais havia deixado sequer uma gota de álcool tocar meus lábios. A resposta vinha rápida e amarga: minha mãe.
Minha mãe era alcoólatra, e por isso, desde criança, a bebida tinha gosto de trauma. Cresci com nojo só de sentir o cheiro. Por muito tempo, temi me transformar nela. E, por isso, me mantive longe, segura, limpa. Mas naquela noite, toda essa contenção evaporou.

Lembrei das noites da minha adolescência em que saía de casa às escondidas, madrugada adentro, para buscar minha melhor amiga caída na calçada de alguma balada. Por anos, observei os efeitos devastadores do álcool. E mesmo assim... ali estava eu. Embriagada, desinibida, entregue.

Quando me dei conta, já estava no meio da pista, me movimentando como todas as outras mulheres ao som do funk proibidão, aquele ritmo lascivo, quase tribal, que fazia o chão tremer. Cada verso era um palavrão, uma afronta, uma provocação ao bom senso. E, curiosamente, ninguém parecia se importar. Pelo contrário — parecia excitar a maioria. Havia dois jovens encostados na parede próxima ao banheiro, transando como se o mundo ao redor tivesse deixado de existir.

No início, até me senti desconfortável com meu vestido vermelho e curto demais, mas logo percebi que, ali, eu era quase recatada. Vi mulheres com shorts minúsculos e tops que mal cobriam os seios. Até Matheus me lançou um olhar julgador, balançando a cabeça, enquanto Wesley — desde o momento em que saímos de casa — não tirava os olhos de mim. Seu olhar era pesado, silencioso, como se quisesse me dizer alguma coisa. Talvez ele achasse que eu era uma vadia. Talvez eu também achasse isso de mim mesma.

Mas, depois de tantas horas vendo Juliana rebolar como se o mundo fosse acabar amanhã, finalmente decidi copiar seus movimentos. Sem pudor. Sem culpa.
Comecei devagar, jogando os cabelos para o lado. Quando a batida acelerou, desci até o chão, tremendo o quadril com uma liberdade que jamais imaginei possuir. Ouvi os gritos abafados de Márcia e Juliana me incentivando:

— Pra uma freira, tu tá se saindo muito bem! — brincou Márcia.
— Puta que me pariu! Fui eu que ensinei! Mundo, podem me contratar como professora! — gritou Juliana, arrancando risos ao redor.

Gargalhei alto. Solta. Leve. Uma hiena desgovernada em meio à selva do asfalto.

Dei um perdido nas meninas e fui até o bar atrás de mais vodka preta. Assim que o barman me viu, abriu um sorriso de canto e, sem eu pedir, me entregou um copo com uma bebida de cor estranhamente diferente.

— Pra tu, princesa — disse, piscando.

Sorri de volta, confiante como nunca estive, e virei o copo de uma vez. O líquido desceu queimando, mas logo uma leveza estranha tomou conta de mim. Meu corpo se soltava ainda mais. Meus pés mal conseguiam sustentar meu peso, e ainda assim, eu dançava. Sem rumo, sem freio.

Foi então que senti um olhar me atravessar — pesado, quente, presente.
Virei o rosto. E lá estava ele. Wesley.

Encostado em uma barreira de ferro, postura indiferente, uma das mãos no bolso da calça, a outra segurando um cigarro aceso — o cheiro denunciava que era um baseado.
Os olhos dele me encaravam com aquela seriedade perturbadora, quase animal. E eu, tomada por um impulso que não reconhecia, mordi os lábios e pisquei para ele. Uma provocação que jamais teria coragem de fazer em plena sobriedade.

Demônio, devolva meu corpo.

— Gente... tô passando mal. Vou ali fora tomar um ar — anunciei, sentindo minhas pernas vacilarem de repente.

— Tua perereca deve estar é morrendo de saudade de um bom pau! — disparou Márcia, rindo de seu próprio veneno.

Revirei os olhos e fui abrindo caminho por entre a multidão. Em menos de um minuto, estava do lado de fora da quadra, tentando recompor meu corpo e minha mente.

Foi quando um garoto, magrelo, com não mais que doze anos, se aproximou de mim.

— Meu chefe mandou chamar. Ele tá te esperando no beco de trás.

Meu coração pulou no peito, mas o medo se dissipou assim que ele completou:

— É o Wesley. WL.

Cambaleando, mas determinada, caminhei em direção ao beco. Por dentro, eu tremia. Por fora, fingia coragem.

— É... Wesley? — chamei hesitante, tentando enxergar algo na escuridão.

Nada. Nenhuma resposta. Por um segundo, pensei que o menino tivesse me pregado uma peça. Dei meia-volta para sair dali, mas fui impedida.

Duas mãos grandes, frias, surgiram da escuridão e agarraram minha cintura com firmeza, me empurrando contra a parede úmida.

— Quero ver tu provocar agora — disse ele, puxando meu cabelo para trás.

Antes que eu pudesse protestar ou compreender a situação, Wesley colou seu corpo no meu, me encarou com seus olhos azuis — brilhantes como o céu antes da tempestade — e, sem aviso, selou nossos lábios num beijo bruto, inesperado, intenso.

Eu deveria ter me afastado. Eu deveria ter gritado. Mas, ao invés disso, retribuí.

No dia seguinte, acordei na minha cama, ao lado da minha filha.
O sol mal havia nascido, e eu já estava ajoelhada no banheiro, vomitando o pouco que restava da noite anterior. A cabeça doía como se mil sinos tocassem ao mesmo tempo. O estômago revirado, a alma pesada.

Mas nada se comparava à vergonha que sentia por não conseguir encarar Wesley. O beijo não partiu de mim, mas eu não o recusei. E agora... agora eu fazia de tudo para não cruzar com ele nos corredores da casa.

Para evitar escândalos, guardei o episódio como um segredo amargo — trancado dentro de mim.
Não queria, de forma alguma, que Márcia pensasse que eu estava me engraçando para cima do primo dela.
Porque, no fundo, eu sabia que aquela noite não passaria ilesa.

E o que ela deixaria em mim... ainda estava por vir.

Boa noite

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