Capítulo 27

11.8K 1.1K 56
                                        

maratona 2/3

Wesley narrando...

Sangue. Era a única coisa que dominava meus pensamentos, o único cenário que desejava ver se desenrolando com aquela mulher. Um preço justo, eu acreditava. Ela precisava pagar com a vida por ter ousado tocar na minha filha.

Não era por falta de aviso. Fui claro, exposto diante de todos: mexer com a minha filha teria uma resposta inevitável. Sem discussão. Sem piedade. E agora, ali estava eu, tremendo de ódio, focado e armado.

Aquela mulher e sua filha chegaram de repente, como fantasmas fugindo de um passado sombrio, carregando consigo um enredo de mentiras e sombras. Encontraram abrigo em minha casa, se alimentaram do que eu oferecia, beberam da minha água, receberam minha proteção. E agora, queriam desafiar minha autoridade? Que se lasquem.

Com a arma em punho, a mão firme e a mira certeira, o que eu sentia não era raiva cega, mas uma determinação fria, quase calculada. A sala estava cheia, mas eu pouco me importava. O mundo podia ruir ao meu redor, porque naquele momento, havia apenas ela e eu.

Entretanto, como se o próprio destino quisesse me desviar do meu caminho, Matheus e KP romperam o silêncio, trazendo consigo a tensão de quem sabia para onde aquilo estava indo.

— Calma, Wesley. Sua cabeça está fervendo... — Matheus falou em tom baixo, como se tentasse me devolver à razão. — Resolve isso depois.

— Vai se foder, Matheus! — cuspi as palavras, dentes cerrados. — Ela mexeu com minha filha. Mexeu com algo que eu não posso deixar de lado!

— Pensa na tua cria, que está lá dentro... — Matheus insistiu, tentando me puxar de volta à realidade. — Pensa também na filha dela.

Foi como se suas palavras me atravessassem, como uma lâmina afiada. Minha filha. Ágata. Inconsciente. Entubada. Frágil.

A imagem dela na UTI tomou conta de mim como um pesadelo do qual não conseguia escapar. O corpo pequeno demais, enredado em fios, conectado a máquinas que apitavam com a precisão de um relógio que contava o tempo que ainda nos restava.

Entrei no quarto gelado, com a sensação de estar adentrando um espaço sagrado. Fui até o berço. Vi aquele corpo frágil, imerso na dor, quase imperceptível sob o peso de tudo aquilo. Toquei sua mão. Ainda quente. Viva. Aquilo me deu um alívio indescritível. Fiquei ali, por um tempo indeterminado, acariciando seu rosto, observando o pequeno movimento de seu peito, subindo e descendo lentamente, como a última resistência de sua fragilidade.

Foi a batida na porta que me retirou daquele transe.

Abri. E me deparei com Márcia. Seu rosto inchado, olhos vermelhos e braços cruzados, como se já soubesse que não vinha em busca de consolo.

— Eu preciso falar com você. E acho que você sabe muito bem sobre o que é. — A voz de Márcia estava tensa, engasgada, carregada de um peso que ela não conseguia esconder.

— Se veio aqui para falar daquela vadia, pode ir embora. Não estou com paciência para sermão, não. — Disparei, a frieza na minha resposta quase palpável.

Ela ficou em silêncio por um momento, respirando fundo, como quem tenta se recompor antes de continuar. Mas então, a raiva se fez presente em cada palavra.

— Em primeiro lugar, sinto muito pela Ágata. Do fundo do meu coração, espero que ela melhore logo... Mas o que você fez com a Isabella foi covarde. Desumano. — Ela tentou manter o controle, mas a voz vacilou. — Você espancou minha melhor amiga na frente de todo mundo, achando que ela teve algo a ver com o que aconteceu. Mas escuta bem: não foi ela. E se não fosse por ela, tua filha talvez nem estivesse viva.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora