Isabella narrando...
Enquanto espalhava o protetor solar no rostinho inquieto da Ágata, meus olhos se perderam na imagem dos dois na água — Wesley e Bárbara, rindo juntos, despreocupados, como se o mundo tivesse parado ao redor deles. Ela gargalhava alto, ele não tirava o sorriso do rosto. Havia algo de leve e puro naquele instante, algo que me desarmou. Não sei bem por que, mas ver os dois assim aliviou meu coração. Como se, pela primeira vez em muito tempo, tudo estivesse exatamente onde deveria estar.
— Espere eu colocar o chapéu primeiro, meu amor — murmurei para Ágata, que fez um biquinho impaciente. — Pronto, já está. Está uma gracinha, viu? — Ela sorriu, satisfeita. — Venha, vamos brincar com o papai e com a Bárbara!
Tínhamos acabado de sair do Chapadão. O plano era seguir para o meu apartamento, mas Wesley teve a ideia de terminar a tarde na praia. E eu, vencida pelo calor e pela vontade de viver algo bom, cedi. Comprei um biquíni simples, dois trajes de banho na barraca em frente, e deixei o restante da tarde nos conduzir.
Fazia tempo que eu não me permitia algo tão banal — o calor do sol na pele, o sabor doce e fresco da água de coco, o som das ondas quebrando na areia. A água salgada limpava mais do que o corpo... lavava a alma.
É estranho assumir em voz alta, até para mim mesma, mas nós nos tornamos uma família. Estou grávida do Wesley, a Ágata me aceitou como mãe — e eu tive a honra de aceitar esse papel. E Bárbara... Bárbara começou a chamá-lo de pai. Existe algo mais bonito do que isso? Eu, que vivi tanta dor, me vejo agora envolta em algo novo e imenso.
Sim, eu já sofri demais por causa do Wesley. Chorei, fui machucada, humilhada. Ainda carrego as marcas invisíveis de tudo que vivi ao lado dele. E não, eu não esqueci. Nunca vou esquecer. Mas escolhi perdoar.
Perdoei porque guardar mágoa é como engolir veneno todos os dias e esperar que o outro morra. O rancor corrói, destrói por dentro. E eu já me perdi o suficiente nesse labirinto de dor. Não quero mais isso para mim, nem para a minha filha.
Eu deveria odiá-lo por quase ter tirado minha vida, por ter me acusado injustamente, por ter virado as costas quando eu mais precisei. Mas, depois disso, descobri um outro Wesley. Um que ri alto, que brinca com as filhas, que me provoca com um sorriso leve. Um Wesley que também existe. E foi por esse que me apaixonei novamente.
Mas uma coisa é certa: amor nenhum justifica violência. Nunca mais permitirei que um homem me levante a mão. A Isabella de antes, a que aceitava calada, morreu. A que vivia com medo, cega por um sentimento doentio, também. A mulher que está aqui agora entendeu que a violência doméstica não é destino, não é condenação silenciosa. É prisão. E eu escolhi a liberdade.
A minha felicidade é também a da minha filha. Eu aprendi isso. Passei anos apanhando do Rodrigo, calada. Não era amor. Era medo. Falta de opção. Uma prisão invisível que me roubava a cada dia. E eu sobrevivi. Eu estou aqui.
— Não bata no papai, estou com dor nas costas — ouvi Wesley brincar, chutando a água na direção de Bárbara.
— Você está velho, papai — ela respondeu, mostrando a língua e correndo, atrevida.
— Me respeite, menina. Está maluca? — Wesley ralhou, e eu revirei os olhos com um meio sorriso.
— Está aprendendo perfeitamente com você — comentei, sarcástica. — Vou entrar na água com a Ágata, depois nós iremos embora.
— Vou começar a arrumar as coisas no carro e trocar a Bárbara — disse ele, me dando um selinho antes de sair.
Peguei Ágata no colo e fui caminhando devagar até o mar. A água estava morna, exatamente como eu gosto. Segurei minha pequena pelos bracinhos e mergulhei seus pezinhos na água. Ela gritou, surpresa com a sensação nova, e agarrou meu biquíni com força.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
