Thayane narrando...
Nesses últimos meses, muita coisa mudou. A vida me virou do avesso, e eu deixei de ser aquela Thayane baladeira, que gostava de se exibir, ostentar, chamar atenção. Quebrar a cara mil vezes me forçou a crescer. A maturidade não chegou com flores nem aviso — chegou na marra, na dor, na frieza que fui obrigada a cultivar.
Ainda me lembro como se fosse ontem. A forma como fui humilhada, exposta, tratada como nada... como uma vadia, uma cachorra — palavras que ecoam até hoje. Tudo isso vindo de um homem que eu amei com cada parte do meu corpo. Deixei tudo por ele, fui para o nada, só pra estar ao lado dele.
Kevin não teve piedade. Me espancou com gosto, raspou meu cabelo como quem apaga uma identidade, me chutou o rosto, a barriga. Gritou horrores, me chamou de tudo que existe de pior. Me pegou pelo pescoço, e por alguns segundos, eu achei que ia morrer. Mas não. Ele me largou e me arrastou porta afora, nua, sem sequer me deixar vestir uma peça de roupa.
Quando os moradores viram meu estado — o sangue escorrendo pelo meu corpo, o rosto inchado, os olhos praticamente fechados de tanto hematoma — a reação não foi socorro. Foi filmagem. Celulares em punho. Enquanto Kevin cuspia ódio, me xingava na frente de todos, me rebaixava como se eu não fosse nada, eles filmavam. Como se eu fosse um espetáculo de tragédia.
Depois que ele terminou o show, me jogou morro abaixo, meio desacordada. Foi Adriano quem me tirou de lá. Quem me carregou.
Superar aquilo foi um dos processos mais violentos que já vivi. Não foi só o trauma físico. Foi arrancar, um a um, os laços do amor cego que me mantinha presa a Kevin. Sete anos dividindo cama, sonhos, dores. E no final, tudo o que ele fez foi destruir o que restava de mim.
Talvez eu não devesse ter correspondido ao beijo do Adriano. Nem ter me entregado a ele enquanto ainda tentava resolver minha história com Kevin. Mas, sinceramente, depois de todas as vezes que ele me traiu, me bateu por causa de piranha, me fez sentir lixo... eu nunca fiz nada. Nunca desejei mal. Nunca retribuí na mesma moeda.
Nos primeiros dias, eu só queria desaparecer. Sumir desse mundo. Virei sombra de mim mesma. Entrei numa pré-depressão daquelas que ninguém vê por fora. Só eu sabia o que se passava dentro da minha cabeça. Mas, aos poucos, fui me reerguendo. Me limpando da presença dele, me afastando da imagem dele. E aí veio o baque: a descoberta da gravidez.
Mais um problema pra encarar.
Adriano ficou feliz. Disse que cuidaria de mim e do bebê. Que não deixaria ninguém me machucar. Eu queria acreditar. Eu realmente sentia algo por ele. Talvez fosse carinho, talvez fosse só uma carência coberta de desejo.
Mas no fundo... no fundo, eu sabia.
O pai dessa criança não é Adriano. É Kevin.
Grávida de quatro meses. O único homem com quem transei sem camisinha, sem anticoncepcional, foi ele. Kevin. E saber disso me dilacera. Pensei em abortar. Pensei mesmo. Mas não tive coragem de fazer um inocente pagar pelos pecados do pai.
Se depender de mim, ele nunca vai saber da existência desse filho. Nunca. Quero distância. Sinto nojo dele. Me arrependo profundamente de um dia ter amado alguém tão cruel, tão podre por dentro.
Adriano entrou no quarto suado, com o corpo coberto de poeira, provavelmente vindo de uma partida de futebol na quadra.
— E aí, morena — disse, inclinando-se para me beijar.
Virei o rosto.
— Adriano, você está suado, exalando um cheiro forte. Acha mesmo que vou te beijar assim?
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
