Capítulo 36

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Thayane narrando...

Meus últimos dias têm sido um desdobramento exaustivo entre obrigações e sacrifícios. Trabalho e mais trabalho, como se a vida não me concedesse sequer uma fresta de descanso. Dona Filomena, aflita com a doença repentina de sua garçonete, pediu minha ajuda no bar. Aceitei, é claro. Não por caridade, mas por necessidade.

Além disso, passei a semana inteira enfrentando o martírio da ladeira que leva à casa do Wesley. Subo e desço aquele inferno de morro sob o sol impiedoso do Rio, para cuidar da pequena Ágata. E ele? Nem a decência de perguntar:

— Thay, precisa que algum vapor vá até sua casa te buscar e levar?

Nada. A criatura sequer suporta o calor, mas acha justo que eu, sob quarenta graus, suba quinze minutos morro acima todos os santos dias. Acredito, com certa ironia amarga, que devo ter perdido uns vinte quilos nesse ritmo.

E o pior, ainda nem contei...

Fui obrigada a abandonar tudo que me dava gosto: meus bailes, minhas bebidas, os encontros clandestinos, as conversas ao pé do ouvido, os toques escondidos no meio da madrugada. Abandonei os meus homens, meus pequenos pecados. E isso sim, me pesa.

Não tenho emprego fixo. Faço uns bicos aqui e ali, resolvo o que precisa ser feito no morro. E, às quartas-feiras, dou aula de dança para as crianças. É quando respiro.

Hoje, por graça divina, Wesley não me pediu para cuidar da menina. E mesmo que tivesse pedido, eu recusaria. Tinha um compromisso sagrado marcado para as nove da noite com Adriano — o rapaz da balada, aquele que me tirou o fôlego no banheiro estreito de um clube qualquer, semanas atrás.

Foi ali, entre azulejos manchados e respiração ofegante, que tudo começou. Depois daquilo, ele me passou o número de telefone. Mandei mensagem só para ter certeza de que não era falso — sou dessas. Começamos a conversar com frequência. E então, ele fez o convite: um encontro em um hotel discreto, perto de um bairro nobre. Recusar? Jamais.

Me contaram que ele é figura importante em um morro rival ao Chapadão. Não me importei. A vida é minha. Meu corpo, minha escolha. Não deixaria a política das vielas decidir quem eu posso desejar.

Quando o relógio marcou dez horas da noite, comecei a me arrumar. Ele me convidou para um baile em sua comunidade. E como não queria cruzar com velhos fantasmas no baile daqui, aceitei.

— Você vem me buscar? — perguntei, mandando a mensagem sem rodeios.

— Pode pá. Assim que terminar com essas rebocadas na cara, te ligo que vou te buscar. — respondeu ele, debochado como sempre.

— Nem precisa se preocupar com a calcinha. Vai acabar sem de qualquer jeito. — completou, audaz.

— Tô à procura da inocência... Por acaso a viu por aí? — rebati, com um sorriso no canto dos lábios.

Deixei o celular sobre a cama e fui direto ao armário buscar uma toalha. Corri para o banho. Lavei o cabelo, depilei as pernas, cuidei de cada detalhe como se estivesse prestes a encontrar um rei. Porque, de certo modo, era isso que Adriano se tornava quando me tocava — um rei selvagem, voraz.

Saí minutos depois, a toalha presa ao corpo, o vapor ainda dançando em volta de mim. Escolhi uma calcinha vermelha de renda que havia comprado no dia anterior. Dispensei o sutiã — o vestido que eu escolhera era decotado na frente e ainda mais ousado nas costas. Se não for para causar, nem saio de casa.

Passei hidratante nas pernas, perfume discreto nos pulsos, e finalizei com um toque íntimo entre as coxas. Arrumei o cabelo, fiz a maquiagem com esmero. Quando o relógio se aproximou das onze, já estava pronta. Impecável. Perigosa.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora