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Wesley narrando...
Desde o instante em que cruzei os portões daquela mansão, algo me soou errado. Havia um desequilíbrio no ar, uma dissonância entre o brilho artificial dos lustres e a tensão invisível que se acumulava nos cantos. O luxo me parecia forçado, exibido como armadura, não como conforto. E a reunião... uma piada mal encenada. Duas facções historicamente rivais, lado a lado, apertando mãos e trocando cumprimentos de plástico. Era como acender um fósforo num quarto encharcado de gasolina e esperar que nada explodisse.
O peso do erro me acompanhava como uma sombra. Desde a madrugada em que caímos naquela emboscada, a corda estava no meu pescoço. Fui acusado de tudo: de ter forjado o roubo da carga, de ter entregado o esquema pros policiais. Me apontaram como traidor. E o chefão, mesmo de trás das grades, mandou o recado com clareza — quando ele sair, vamos resolver isso entre nós. Até lá, estou na mira de todos.
A verdade? Não sei de nada. Fui jogado no meio de um jogo sujo, onde a regra principal é sobreviver. Aquela carga nunca chegou onde deveria. Roubaram tudo. O caminhão que interceptamos naquela noite vinha carregado de móveis baratos — a carga real foi desviada antes mesmo de encostar no ponto. E agora, além da desconfiança, tenho que me virar pra pagar por um produto que sequer encostei.
Insisti pra deixar Isabella em casa. Era o certo. Mas ela não cedeu. Discutimos, trocamos palavras duras, mas no fim, como sempre, ela venceu. Mulher difícil, cabeça quente. Mas leal. Uma rocha no meio do caos. Ela não desiste. Se mantém ao meu lado mesmo quando tudo desmorona. E foi isso que me prendeu. Não sei quando aconteceu, mas me amarrei naquele jeito feroz dela. Forte, brava, sem medo de me encarar mesmo quando o mundo inteiro recua.
É isso que me mata de medo: que levem ela. Que usem a Isabella, ou a Ágata, pra me atingir. Só de imaginar essa possibilidade, algo dentro de mim quebra.
— Tenho algo pra você — disse, tirando do bolso um colar simples, com um pingente em forma de folha de maconha. — Não é caro, mas tem valor.
— Tenho cara de maconheira agora, Wesley? — ela debochou, rindo com aquela ousadia leve que só ela sabe usar.
Sem dizer mais nada, ela prendeu o cabelo com as duas mãos, expondo a curva do pescoço. Aproximei-me em silêncio e coloquei o colar com cuidado. Quando se virou novamente, nossos olhares se encontraram — e por um segundo, tudo ao redor silenciou.
— Não tire isso. Por nada. — falei, a voz firme, quase uma ordem. Ela franziu a testa, confusa, mas logo assentiu com um sorriso leve.
Bárbara e Ágata também tinham os seus. Um colar. Uma pulseira. Sinais discretos, mas significativos. Um código invisível, só nosso. Uma forma de saber onde estão. Uma forma de proteger quem eu amo.
Não demorou para que os soldados começassem a circular, reunindo os homens no salão principal. A reunião estava prestes a começar. Troquei algumas últimas palavras com Isa, inspirei fundo e caminhei em direção à grande porta de madeira, ao lado de KP, Yuri e Kaique. O jogo havia começado — e tudo em mim gritava que não sairíamos ilesos.
Aquele era o tipo de reunião em que duas facções rivais se encontravam sob a falsa paz de uma trégua forçada. Um terreno neutro, sagrado por conveniência, onde as armas se mantinham no coldre e a rivalidade era suspensa, ainda que por poucas horas. Qualquer deslize, qualquer ato de traição ali dentro era punido com a morte — e todos sabiam disso.
Na sala abafada, onde o clima pesava mais do que o ar, o irmão do chefe — agora atrás das grades — tomou a palavra. Denunciou o roubo da carga e os espancamentos violentos promovidos pela polícia. E sem titubear, lançou meu nome ao centro da roda como responsável. Alguns concordaram, outros se insurgiram. Eu apenas escutei, impassível, calado. Não desperdiço saliva com o que não merece minha voz.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
