Capítulo 73

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Yuri narrando...

Não sei o que aconteceu comigo hoje, mas acordei com uma sensação estranha, como se os fantasmas do passado estivessem martelando minha mente. Lembranças insistem em invadir meus pensamentos, e não consigo afastá-las, não importa o quanto eu tente.

Acordei em um estado de irritação, após um pesadelo com ela. A imagem daquela mulher ainda está presa na minha mente, e é como uma sombra que não se dissipa. A raiva e o desprezo por ela consomem tudo, uma sensação de traição que jamais consegui superar.

Não posso sequer mencionar a saudade sem me sentir revoltado, porque daquelas lembranças que me torturam, a mais dolorosa é a perda da minha filha. Não consigo tirá-la do meu peito, do meu pensamento. Seu nome está gravado em minhas costas, seu rosto permanece marcado em minha pele, de forma que ela seja sempre uma parte de mim.

Lembro-me claramente do som do seu riso, do brilho em seus olhos ao me ver. A perda dela foi a maior derrota que já enfrentei. Sei que o tempo acabará por amenizar a dor, mas algumas saudades são impossíveis de controlar.

Senti então mãos quentes e suaves repousando sobre minhas costas, seguidas dos lábios de minha mulher tocando meu pescoço.

— O que você está fazendo aí, sentado? — perguntou, sua voz suave e curiosa.

— Estava pensando em algumas coisas — respondi, virando-me para encará-la.

Aproximei meu rosto do dela, e dei um leve beijo em seus lábios antes de atraí-la para o meu colo.

— E que coisas são essas? Está pensando em terminar comigo? Porque se for esse o caso, eu te mato — ela disse, rindo de forma leve.

— Não, não é isso, minha querida. Estava apenas refletindo sobre o quanto você significa para mim, sobre como você preencheu o vazio que eu carregava — respondi, acariciando suavemente sua bochecha. — Apesar de seu orgulho, suas implicâncias, e seu ciúmes, eu te amo. Você é a mulher da minha vida — disse, observando o sorriso tímido que surgiu em seu rosto.

— Eu também te amo, apesar de tudo, e sou grata por você me mostrar o verdadeiro significado do amor... Só de pensar que tudo começou depois daquela noite que ficamos juntos — ela comentou, com um sorriso cheio de carinho.

— A minha fama é algo inquestionável — brinquei, piscando para ela.

Ela riu e deu um soco leve no meu peito. Tentou se levantar, mas eu a puxei pela cintura, trazendo-a de volta para o meu colo.

— Olha as coisas que você fala, seu bobo — ela disse, ainda rindo.

— Não, você sabe que só brinco com você. A verdade é que a minha vida só tem sentido quando você está ao meu lado — disse, apertando suavemente sua cintura.

Sentei-me sobre a pedra ao lado dos rapazes. Wesley inalou profundamente o cigarro entre os dedos antes de passá-lo a mim. Repeti o gesto e, em seguida, entreguei o cigarro a Kaique.

Conversamos sobre tudo o que estava acontecendo. Os preparativos para a festa de Bárbara consumiam toda a atenção da comunidade — ninguém mais tinha sossego, muito menos Wesley, que agora se encontrava submisso às vontades de sua companheira, a verdadeira senhora daquele território. Ela mandava e ele obedecia, sem hesitar.

— Onde está minha prima? — perguntou ele, olhando em volta.

— Está com Isabella e Juliana, cuidando dos detalhes da festa — respondi.

— Eu devia ter apostado mais alto, senhores. Todos de coleira, rendidos. É curioso lembrar daquele dia em que apostamos duzentos mil... Nenhum de nós deveria se apaixonar, se entregar de verdade a uma mulher — disse Kaique, rindo com sarcasmo. — A essa altura, acho que quatrocentos mil a menos na conta do patrão não farão diferença.

— Enfia essa aposta no rabo da sua avó, Kaique. Acha mesmo que eu tenho dinheiro pra jogar fora? E desde quando você decidiu que eu estou apaixonado? — respondeu Wesley, visivelmente irritado.

— Vamos, confirma aí — disse Kaique, agora se dirigindo a mim. — Você lembra daquele dia no bar. Ele disse, com todas as letras, que mulher nenhuma o faria se render, que o dia em que se apaixonasse era sinal de que tinha enlouquecido.

— Confirmo, e ainda gravei, caso resolvesse negar no futuro. Estou aguardando meus duzentos mil, de preferência em dinheiro vivo — acrescentei com um sorriso.

Wesley respondeu com um gesto obsceno e xingamentos, mas não havia como negar. Cada um de nós, à sua maneira, havia sido tocado por algum sentimento inesperado. E, na verdade, aquilo nos tornava felizes — ver o outro bem, sorrindo, buscando mudar para viver algo verdadeiro. Era como se, no meio de tanta dureza, o afeto tivesse encontrado espaço.

Nem tudo, porém, era leve ou esperado. Matheus, por exemplo, surpreendeu a todos ao perder o controle por causa de uma mulher — justo ele, que sempre desprezou os romances de Wesley, acabou rendido por Isabella. E houve também a tragédia de Th, morto por traição. Rompeu com os códigos de lealdade da favela, com a irmandade que mantínhamos. Sua morte me feriu, mas no fundo, senti que foi merecida. A traição tem seu preço.

A conversa evoluiu para temas mais delicados. Wesley revelou estar enfrentando problemas com o Comando Vermelho. A questão de uma carga desaparecida ainda não havia sido resolvida, e as consequências se aproximavam.

— Estou tranquilo, já disse a verdade a quem devia ouvir. Ele afirmou que ainda vai pensar no caso, mas quer minha presença na reunião. Não ir seria suicídio.

— Esse homem é das antigas, te conhece, sabe que você não é desleal — afirmei.

— Só tem bajulador ao redor dele. Mas minha consciência está limpa. Se algo tiver que acontecer, acontecerá. Só pedi que deixasse minha família fora disso — disse ele, acendendo outro cigarro.

— E já falou com Isabella? — perguntou Kaique. Houve um momento de silêncio antes que Wesley balançasse a cabeça, negando.

— Está cometendo um erro, irmão. Ela vai ficar furiosa — comentei.

— Dizer o quê? Que em dois dias posso estar morto, preso ou cuidando dela e da criança? Escutem bem, Isabella é impulsiva, vai querer interferir. E isso eu não vou permitir — respondeu, a voz carregada de raiva. — Essa é mais uma lição que a vida me deu: você pode chamar alguém de irmão, de amigo, confiar de olhos fechados... mas, no fim, quem se ferra é você. — Passou as mãos pelos cabelos. — Fim do assunto. Não quero mais falar sobre isso.

O silêncio que se instalou após sua fala dizia muito. Ele permaneceu ali, pensativo, talvez tentando antecipar os rumos da reunião que o aguardava.

À noite, voltei para casa. Ela já estava lá, me esperando com um jantar preparado com carinho. Percebeu em meus olhos que algo não estava bem, mas escolhi não dizer nada. Sabia que, se falasse, em pouco tempo sua amiga também saberia.

Deixei os problemas de lado, desliguei minha mente. Concentrei-me apenas no calor do corpo dela sobre o meu, nos movimentos ritmados e suaves que me faziam esquecer a dureza da realidade.

Não me canso de afirmar: Márcia foi a melhor mulher que poderia ter surgido em minha vida. Um pouco desvairada, talvez, mas sempre presente. Nós nos suportamos, nos amamos, e mesmo que pudesse mudar o rumo da nossa história, não o faria. O amor, com toda a sua loucura, vale cada segundo vivido.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora