Yuri narrando...
Assim que cheguei no morro, uma onda de vozes e olhares agitados tomou conta do ambiente. As pessoas se entreolhavam, desesperadas, comentando uma tragédia diante da escola. Uma criança havia sido atropelada por um carro blindado. O impacto foi tão violento que o corpo foi lançado como se a vida tivesse sido arrancada ali, no asfalto. E todos, com uma certeza dolorosa na voz, diziam que ela não sobreviveria.
Parei por um instante, tentando processar o que acabara de ouvir. Tirei o rádio da prega da bermuda, pronto para chamar Wesley, mas antes que o fizesse, o celular vibrou no bolso. Era Márcia. Mais de vinte chamadas perdidas e mensagens carregadas de desespero.
— Yuri, você pode vir aqui no posto? Tava precisando daquele teu abraço de urso. — Márcia 1
Aquelas palavras me atingiram em cheio. Havia algo errado, muito errado. Liguei de volta, sem pensar duas vezes. Mal consegui entender o que ela dizia, mas bastou uma frase pra me gelar o sangue: Bárbara, a criança atropelada em frente à escola, era ela. O povo falava da filha dela.
Com o coração disparado, subi na garupa de um menor que acelerou sem hesitar em direção ao posto de saúde.
— Valeu, aí, mermão. — agradeci, tentando manter alguma dignidade em meio à tensão. Ele só assentiu com a cabeça, em silêncio.
Ao chegar, o ar dentro do posto era denso, quase irrespirável. Passei pela recepção, acenei com pouca energia para a atendente, e segui pelo corredor em direção à sala de espera.
Lá dentro, encontrei Isabella curvada sobre o colo de Matheus. Ele passava os dedos nos cabelos dela, num gesto automático. O rosto de Isa estava inchado, afundado no choro. Murmurava algo baixo, como uma prece, ou talvez tentando agarrar algum consolo impossível.
Márcia estava próxima, a cabeça baixa, os olhos sem foco. Seus soluços preenchiam o silêncio do lugar. A dor era palpável.
— Salve aí, — murmurei, tentando me fazer presente, mas a voz saiu fraca, embargada.
Isabella abriu os olhos lentamente. Tentou sorrir, mas era só um gesto fantasma. Matheus me cumprimentou com um leve aceno. Já Márcia, ao ouvir minha voz, levantou o olhar e correu até mim, me abraçando com tudo que ainda restava dentro dela.
— Desculpa não ter atendido. Tava nos meus rolês, nem vi as mensagens. — tentei me justificar. Ela não respondeu. Apenas apertou mais o abraço, como se precisasse se fundir em algo que ainda lhe fosse seguro.
Ficamos ali, em silêncio, até que ela se afastou devagar e sentamos juntos no sofá. Márcia encostou a cabeça no meu ombro e fechou os olhos. Não precisava dizer nada. Ela não estava pronta. Eu também não.
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Horas se arrastaram sem qualquer notícia. Nenhum médico apareceu. A espera era cruel. O nó na garganta não passava. A menina que dias atrás corria por aí agora lutava pela vida. E Isabella... Ela parecia ter depositado tudo que era em Bárbara.
Logo ela se levantou e começou a andar em círculos pelo corredor. Os olhos perdidos, os dedos roendo as unhas. Conheço esse tipo de dor. Já estive ali.
Lembrei da minha Clara. Ana Maria Clara. Minha filha. Tinha um ano e cinco meses quando se foi, há dois anos. E tudo por causa de um ciúmes doentio, uma obsessão cega da minha ex, Maísa.
Me acusaram, tentaram me fazer acreditar que a culpa era minha. Nunca foi. Maísa acreditava em qualquer boato. Me perseguiu, me sufocou. Mesmo assim, fiquei. Até o dia em que ela me tirou o que eu mais amava.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
