Capítulo 65

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Kevin Pedro narrando...

3 meses depois...

A vida tem suas maneiras cruéis de nos despedaçar. É devastador quando tudo muda repentinamente — um dia você tem tudo, no outro, não resta nada. Você era alguém, e então, torna-se ninguém.

A existência parece justa apenas com aqueles que a veneram, que vivem segundo as regras, que se mantêm puros. Mas para nós, que crescemos no crime, entre assaltos e mortes, a vida raramente oferece alternativas. Sempre soube que meu fim seria trágico: imaginava-me morto em um confronto ou apodrecendo na prisão. Jamais cogitei tornar-me inválido, um homem solitário e esquecido.

Tive poder, respeito, mulheres aos meus pés. E tive uma mulher — aquela que me amava, que nunca deixou de estar ao meu lado. E hoje? O que me resta?

Nada. Preferia mil vezes ter morrido com os tiros do que enfrentar a humilhação de percorrer as ruas da favela em uma cadeira de rodas, dependente dos outros, incapaz de causar o mesmo temor que um dia impus.

No início, não acreditei no diagnóstico do médico. Pensei que fosse um engano, ou mesmo uma provocação. A realidade me golpeou quando tentei me levantar para ir ao banheiro e caí. Minhas pernas não respondiam. Não havia mais controle, não havia mais vida ali.

Meu ofício era a rua, a quadra, as invasões. Desde garoto fui treinado para isso. Saber que jamais voltarei a essa rotina me consome por dentro. Cada pensamento me despedaça, e por mais que eu tentasse conter as lágrimas, era inútil. Havia uma criança em mim, implorando por colo, por alívio. Quis morrer muitas vezes, apenas para extinguir essa dor silenciosa.

Não sou um monstro, embora tenha cometido erros. Tenho sentimentos, por mais que o mundo se recuse a acreditar. Saber que fui traído por um parceiro, que destruiu minha vida, apenas confirma o que Wesley sempre dizia: no crime, não se confia em ninguém.

Houve duas batidas suaves na porta. Antes de autorizar a entrada, sequei as lágrimas e virei-me de costas. Quando a porta se abriu, ouvi a voz familiar.

— E aí, irmão, tudo bem? — disse Wesley ao entrar.

— Oi, titio! — disse Bárbara, com alegria na voz.

Ouvir a risada de Ágata trouxe-me um alento. Girei a cadeira e esbocei um sorriso. Bárbara correu até mim com os braços abertos, e logo Wesley colocou Ágata em meu colo. Ao invés de um beijo, ela mordeu minha bochecha com carinho.

— Vieram fazer o quê? — perguntei com a voz embargada.

— Fugimos da mãe delas. Confesso: ela está insuportável com os hormônios da gravidez. Mas as meninas queriam te ver, então viemos — disse ele, sentando-se no sofá.

— Estou feliz por você. Tem duas filhas, um filho a caminho, e uma mulher ao seu lado. Nunca imaginei vê-lo assim, entregue ao amor. Você merece essa felicidade, irmão.

— Nem eu esperava por isso. Mas estou aprendendo a viver essa nova fase...

— Tio, posso brincar no quintal? — perguntou Bárbara.

— Claro, minha flor. E você, Ágata? — Ela assentiu com entusiasmo.

Destravei minha cadeira, fui até a cozinha e voltei com duas latas de cerveja. Entreguei uma a Wesley.

— Está fazendo falta no movimento — confessou. — Já te falei e repito: seu lugar na boca está garantido, com ou sem cadeira. Você ainda é o melhor no que faz.

— Agradeço, de verdade. Mas não posso mais, Wesley. Minha vida deu uma reviravolta completa. Perdi a mulher que amo, ela está esperando um filho de outro. Estou preso a esta cadeira para sempre. Não há mais combates, nem adrenalina. Voltar seria pior.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora