Isabella narrando...
Olhei para o pote de sorvete e só então percebi: estava vazio. Eu havia devorado o segundo — sem culpa, sem pensar. Não satisfeita, levantei-me em direção à geladeira. Por ora, Matheus ainda não havia chegado.
Sou o tipo de mulher que come não apenas por fome, mas por consolo. Como quem busca, na doçura gelada, um alívio para os pensamentos inquietos. Esqueceu? Pois é, é assim que eu funciono. Antes isso do que devorar as próprias unhas até sangrar, como vejo tantas por aí.
De olhos fechados, saboreava o terceiro pote com um prazer melancólico, e como num sussurro de lembrança, a cena da noite passada entre mim e Wesley se insinuou na minha mente. Aquele homem... é, Wesley é feito de pedra e fogo. Frio como a ponta de uma navalha e, por vezes, caloroso como brasa viva. Nunca sei onde piso com ele. Ora me trata com indiferença cortante, ora se transforma em alguém quase humano. E esse jogo, esse domínio que exerce sobre todos — inclusive sobre mim — me enoja.
Beijou-me pela segunda vez. E mais uma vez, falhei. Não soube me esquivar. Retribui, sem compreender por quê. Talvez porque, por dentro, algo ainda precise de afeto. Mas não vim até aqui por prazer. Vim em busca de paz — e Wesley não tem nada a ver com isso.
— Mamãe! — gritou Bárbara, correndo em minha direção com duas pelúcias nas mãos. — Olha só o que o titio Theus me deu! Essa é minha, e essa é da bebê — disse, apontando para Ágata.
Franzi a testa e me voltei para a porta. Matheus estava lá, encostado no batente com os braços cruzados e um sorriso preguiçoso nos lábios.
— São lindas, meu amor — disse, beijando sua bochecha com ternura. — Já agradeceu ao titio Theus?
— Agradeceu sim, né princesa? — Matheus respondeu, piscando para ela. Bárbara assentiu, os olhos brilhando.
Ele se aproximou e cumprimentou-me com dois beijos no rosto, como de costume. Finalizei o sorvete e, celular novo em mãos — aquele que Wesley havia insistido em me dar na noite anterior —, saímos em direção ao carro estacionado em frente à casa.
Hoje seria o nosso primeiro encontro com a psicóloga. Eu e minha filha. E o nervosismo me corroía por dentro só de imaginar dividir, com uma estranha, tudo aquilo que durante anos mantive trancado na garganta. Apenas Márcia sabia. Só ela havia escutado meus gritos silenciosos, presenciado os dias em que roguei a Deus para me tirar a vida. Foi ela quem viu o peso que carreguei tentando, a todo custo, voltar a viver.
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Para minha sorte — ou alívio —, era uma mulher. Um psicólogo, homem, seria demais para mim. Ainda não consigo encarar olhos masculinos quando preciso contar sobre abusos, sobre violência, sobre o que fizeram comigo. A vergonha ainda é um muro alto. E o medo do julgamento... ah, esse não me larga.
Será que pensariam que fui uma tola? Uma menina burra que se apaixonou cedo demais e acabou mãe aos dezesseis? Sim, eu era uma criança criando outra criança. Mas isso não me define. Não pode me definir.
Doer, doeu. Falar foi como reviver tudo. Mas nada me atingiu tanto quanto ouvir minha filha dizer que tem medo de dormir porque o "bicho-papão" vive no armário, e se ela fechar os olhos, ele nos machuca. A psicóloga foi clara: será difícil. Mas também disse que existe saída, que o trauma pode ser tratado, que há luz. Só a ideia de esquecer já foi um alento.
Matheus quis entrar na consulta, mas fui firme: não permiti. Apesar de sua gentileza, ainda não confio nele o suficiente para abrir minhas feridas.
Após a sessão, ele insistiu em nos levar a uma sorveteria ali perto. Não aceitei nada — o enjoo dos três potes ainda me rondava —, limitei-me a observar a rua, perdida em pensamentos. Depois, ele nos deixou em casa.
— Se cuidem, tá? Queria ficar mais, mas tenho uns corres aí pra resolver — disse, ajeitando o boné.
— Não se preocupe, Matheus. Estamos bem. E obrigada por tudo — respondi com um sorriso sincero.
— Que isso, Isa... tô aqui pra o que você precisar. Fé aí — disse, piscando antes de arrancar com o carro.
Fechei o portão e entrei. Suspirei fundo. O dia tinha sido pesado.
Entre cuidar da Bárbara, ajudar dona Paula com o jantar e correr atrás das roupas na laje, a tarde escapou sem que eu percebesse. Desde que Márcia voltou à faculdade, meus dias se tornaram um pouco mais silenciosos. Gosto da babá, mas certas conversas não são pra qualquer um.
Na hora do jantar, Bárbara recusou a comida. Alegou estar enjoada. Insisti um pouco, mas logo percebi que algo estava errado — febre e coriza surgiram do nada. Dei-lhe um remédio e, depois de um banho morno, ela adormeceu.
Desci para a cozinha, sedenta por um copo d'água. O calor ainda era intenso, mesmo com o sol já ausente.
— O que você está dando pra ela? — perguntei, surpresa.
Dona Paula sobressaltou-se, quase deixando a bebê cair. Sobre a mesa, uma mamadeira com algo esverdeado e uma caixa de medicamentos aberta.
— Que susto, menina... — disse, visivelmente nervosa. — É... um remédio. O médico passou pra ela semana passada.
— Ah... se você diz — murmurei, pegando meu copo.
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Na manhã seguinte, após deixar Bárbara na escola, decidi caminhar pelo morro e entregar alguns currículos. Lojas, academias... qualquer lugar que pudesse me dar uma chance. Sei que não é muito, mas é um começo. Pequenos passos para, quem sabe, recomeçar de verdade.
No caminho de volta, passei por um dos pontos de venda — a famosa boca. O ar era denso, carregado de fumaça e algo mais. Homens armados até os dentes, como se a guerra estivesse sempre à espreita. E entre eles, algumas mulheres seminuas, sentadas no colo dos que pareciam ser seus donos.
Foi então que vi.
Wesley.
Sentado numa daquelas cadeiras plásticas baratas, com o tronco relaxado como quem comanda um império invisível, Wesley tragava um baseado com a lentidão de quem saboreia o mundo — ou o que resta dele. Os olhos semicerrados, a cabeça levemente inclinada para trás, como se cada baforada fosse um afago nos nervos, um prêmio por tudo que ele acredita controlar. Ao seu redor, o caos: homens armados circulando como sombras pesadas, o cheiro denso de maconha e pólvora misturado ao suor do asfalto quente, e aquele vai-e-vem de vozes baixas e sussurros sujos que faziam o ar vibrar em tensão.
À sua frente, uma mulher — morena de pele clara, cabelos alisados grudando na testa suada — ajoelhada, como uma súdita devota diante do seu deus profano. Os joelhos marcavam o chão de concreto, e a cabeça dela se movia num ritmo que feria qualquer pudor, num balé grotesco que, de tão explícito, parecia querer ser visto. E era. Ninguém ali desviava o olhar — não por espanto, mas por costume. Era assim. Era o normal daquele mundo invertido.
Wesley, indiferente, permanecia imóvel. Tão impassível quanto um rei entediado
Senti o estômago virar. A náusea me atingiu em cheio.
Senti o estômago embrulhar, uma ânsia quase violenta subindo pela garganta. Virei o rosto e acelerei o passo, tentando apagar a imagem que insistia em se fixar na minha mente como uma marca a ferro quente. Wesley, tão senhor de si, tão ausente de qualquer humanidade... Era isso que ele era, afinal? Um corpo bonito com uma alma apodrecida por dentro?
Segui morro acima, o coração em disparada. O nojo misturava-se a um medo silencioso — não por ele em si, mas pelo que ele simbolizava. Um homem que achava que podia tudo. Inclusive, a mim.
Vamo ⭐ e 💬 que aqui nada é de graça não 😂❤
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Meu Novo Recomeçar
Ficção AdolescenteIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
