Isabella narrando...
Estava sentada na cadeira da recepção, o peso da espera me esmagando, os ombros curvados sob o fardo invisível do medo. A cabeça baixa, permitindo que as lágrimas rolassem sem controle, em uma corrente incessante, como se o desespero fosse um rio impiedoso, levando tudo o que eu tinha. Cada lágrima que escorria era um suspiro abafado, uma oração silenciosa que eu me forçava a fazer, sem saber a quem, ou ao quê, eu pedia ajuda.
Os minutos, ou seriam horas? — não importava mais — se arrastavam com uma lentidão cruel. O hospital, com suas paredes frias e cheias de promessas não cumpridas, parecia um lugar fora do tempo. O pânico tomava conta do meu corpo, meu coração acelerado, pulsando no peito como um tambor incessante, e os pensamentos que surgiam eram como flechas disparadas ao vento, sem direção, sem razão.
Eu me lembrei de um passado recente, um pesadelo que parecia ter se repetido de forma distorcida. Há alguns meses, em São Paulo, eu estava em um hospital diferente, com Bárbara em meus braços, o desespero me atravessando como uma lâmina afiada. O pânico que agora me consumia era o mesmo, uma repetição amarga de algo que eu tentava esquecer. Mas o tempo, como sempre, era um mestre cruel, e me lembrei do quanto a vida nos obriga a reviver nossas maiores dores, mesmo quando não pedimos por isso.
Desta vez, no entanto, o medo não era só meu. Ele se espalhava pelo ambiente, como uma névoa pesada que cobria tudo. Ao meu lado, Wesley estava imóvel, o capô de seu casaco baixado sobre a cabeça, como se isso pudesse protegê-lo do sofrimento que, por mais que tentasse ocultar, transbordava de seu corpo em forma de respiração acelerada e passos nervosos. Ele não dizia uma palavra. Eu podia perceber a tensão em seus músculos, o esforço sobre-humano para manter o controle. Sabia que, por trás daquela fachada de indiferença, havia um homem desesperado, à beira do colapso, um pai que temia pela vida de sua filha.
Márcia, por sua vez, estava ao meu lado, tentando, com palavras que mais soavam como tentativas de conforto, aliviar um pouco da dor que nos consumia. Ela se afastou por um momento para buscar algo para comer, mas eu, como se tivesse sido envolvida por uma força invisível, não conseguia dar um único passo em direção à comida. Não havia apetite, não havia desejo algum além de ouvir notícias sobre Ágata.
E então, ele entrou. Um médico jovem, com uma aura de autoridade que contrastava com a suavidade do seu semblante. Seus olhos azuis, quase translúcidos, eram como faróis, iluminando a escuridão daquele momento. O cabelo loiro, tão claro quanto uma aurora, parecia brilhar mesmo sob as luzes artificiais do hospital. Mas foi sua expressão que, de imediato, me paralisou. Havia algo nela que revelava mais do que um simples profissional. Algo que sugeria que ele havia visto o sofrimento de perto, que entendia a fragilidade humana. Ele parou na porta e, ao nos olhar, sua voz soou firme, mas gentil.
— Parentes da pequena Ágata Morais? — perguntou, seu tom de voz suave, mas com um peso inexplicável.
Wesley foi o primeiro a se levantar, seus olhos se fixando no médico com uma urgência palpável. Eu o segui, incapaz de deixar de me mover, mesmo sabendo que qualquer resposta poderia ser devastadora.
— Quero saber onde minha filha está! — A voz de Wesley saiu rouca, baixa, como um trovão prestes a estourar. Sua mão tremia ligeiramente enquanto ele se aproximava.
O médico, com um olhar grave, parecia medir cada palavra antes de falar. Ele respirou fundo, e o tempo pareceu se estender em volta de nós.
— Bom... Como posso deduzir, o senhor não prefere rodeios — começou o médico, sua voz carregada de um toque de cautela. — A pequena está estável, mas não posso afirmar que o estado dela não seja grave. Ao dar entrada, ela sofreu uma convulsão. Felizmente, com a ajuda de medicamentos, conseguimos controlar a situação.
Um suspiro profundo, quase um alívio, escapou de mim, e pela primeira vez em horas, senti um pouco de ar nos meus pulmões. Mas a palavra "grave" ainda pairava no ar, e meu medo não se dissipava por completo.
Wesley, no entanto, não parecia disposto a aceitar essa explicação superficial. Seu olhar estava fixo no médico, e sua voz, embora tremenda de raiva, transparecia uma desesperada necessidade de saber mais.
— O que aconteceu com minha filha? — gritou, sua voz carregada de um desespero quase insuportável.
O médico fez uma pausa, e, ao olhar para nós, vi que ele estava hesitando. Algo em seu semblante mudou, e a tensão no ar se intensificou. Ele finalmente falou, sua voz quase um sussurro:
— Tivemos que induzi-la ao coma, para que o cérebro dela possa descansar e se recuperar. Isso é necessário para evitar danos maiores. Estamos fazendo tudo o que é possível para que, quando ela acordar, tenha o mínimo de sequelas.
Aquelas palavras caíram sobre nós como um peso insuportável. Com cada sílaba, o mundo parecia desmoronar ao meu redor. Eu já havia visto o sofrimento em muitas formas, mas ver uma criança, uma bebê tão pequena, sendo forçada a passar por isso, era algo que eu jamais imaginaria. As lágrimas que haviam se acumulado nos meus olhos desceram sem cessar.
— O que isso significa, doutor? — minha voz falhou, mal conseguindo sair em meio ao choro.
O médico, com a expressão sombria, continuou, seu olhar se alternando entre Wesley e eu.
— Sua filha foi envenenada. Uma combinação de medicamentos e ervas inadequadas para bebês, algo que, devido à imaturidade do sistema digestivo dela, causou danos. Ela foi envenenada.
Aquelas palavras cortaram como uma faca, o choque me deixando paralisada. Eu não conseguia entender como algo tão cruel poderia ter acontecido. Como alguém poderia fazer isso a uma criança tão indefesa?
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
