Capítulo 24

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Isabella narrando...

Havíamos acabado de regressar da sessão com a psicóloga — minha filha e eu. Duas vezes por semana, passávamos horas mergulhadas no silêncio espesso da sala, revisitando fantasmas do passado e costurando as feridas com palavras cautelosas. Era uma tentativa de superação sem lágrimas, como se o ato de chorar fosse, por si só, um recuo. Mesmo que eu não fosse capaz de transpor meus próprios abismos, desejava, do fundo da alma, que minha filha pudesse, ao menos, esquecer — apagar da memória o peso que uma infância não deveria carregar.

Matheus, solícito como sempre, nos deixou na porta de casa após a sessão. Almoçamos sem pressa, e, em meio ao tédio abafado de um dia de calor sufocante, Márcia sugeriu que chamássemos Juliana para ir até a praça tomar um açaí com as crianças. Concordei. O ar estagnado da casa parecia nos apertar o peito.

Descemos o morro em passos leves. Márcia ria enquanto tentava acalmar Ágata, que resmungava no colo. Eu ouvia minha filha com atenção — ela falava da escola, com aquele entusiasmo típico de quem ainda enxerga o mundo com encantamento. Juliana, por sua vez, falava ao telefone. O curioso era que, pela primeira vez, não ouvi um só palavrão sair de sua boca. A conversa parecia, no mínimo, intrigante.

— Adivinhem quem é a deusa que conseguiu um emprego em plena crise! — anunciou, quase gritando, pulando de alegria. — Finalmente terei o prazer de ligar para a dona e o senhor Ferraz pra dizer que a inútil aqui não se prostituiu, como eles esperavam! — ria alto, até que precisei lhe dar dois tapas no braço, mais para conter sua empolgação do que por qualquer outra coisa.

Já me bastava Márcia, com seu hábito de xingar o ex-namorado pelo viva-voz mesmo diante da minha filha — e, em outras ocasiões, soltar palavras mais quentes com uma naturalidade de fazer ruborizar. Agora Juliana parecia vir com a língua afiada vezes dez.

— Pode xingar, mas longe da minha filha — pedi, e ela apenas fez careta, em sinal de concordância.

— Hoje ela é inocente, Isa. Mas espera só crescer e conhecer os moleques de hoje. Vai inventar palavrão com todas as letras do alfabeto! — disse Juliana, e não pude conter uma risada diante da comparação exagerada.

— Apesar de tudo, fico genuinamente feliz por vocês — confessei, num suspiro carregado de admiração e cansaço. — Márcia voltou à faculdade, você conseguiu esse emprego... E vai provar àqueles dois que é muito mais forte do que eles imaginavam. Que Deus seja justo comigo também. Preciso de forças.

— Vai conseguir, miga! — disse Márcia, confiante, enquanto ajeitava Ágata no colo. — Vai encontrar seu caminho e ser feliz, como prometemos ainda em São Paulo.

— Por que vocês saíram de lá, mesmo? — perguntou Juliana, com uma sinceridade despretensiosa.

— Por causa do meu ex. Um homem doente... perigoso. — murmurei, quase sussurrando, para que Bárbara não ouvisse. — Ainda não consigo falar sobre isso... Mas um dia eu conto.

— Quando esse dia chegar, estarei aqui, de ouvidos e braços abertos. E com a faca na mão, se precisar matar alguém — brincou Juliana, e eu apenas neguei com a cabeça, sorrindo.

Ao chegarmos à praça, fui tomada por espanto: estava lotada. Famílias se espalhavam entre bancos e sombras tímidas, enquanto crianças corriam e gritavam ao redor dos brinquedos. Era feriado, o calor beirava o insuportável, e todos pareciam ter escolhido aquele canto de liberdade como refúgio.

Mal pisou no chão, Bárbara correu até o balanço — uma de suas grandes paixões desde sempre: parques e praias. Márcia, com um beijo na testa de Ágata, entregou-me a pequena e foi com Juliana buscar nossos açaís.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora