Capítulo 9

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Isabella narrando...

Sinto os primeiros raios de sol atravessarem a janela e tocarem meu rosto. Viro de lado, puxo o cobertor por sobre a cabeça — só quero dormir mais um pouco.

Na noite passada, não fechei os olhos por um segundo sequer. Bárbara teve pesadelos, perdeu o sono, e eu me ocupei dela a noite inteira. Contei histórias, cantei canções baixinho, até que o cansaço venceu o medo e ela adormeceu em meus braços.

É raro que ela tenha noites agitadas como a de ontem, mas já faz alguns dias que algo nela parece diferente. Talvez seja hora de procurar um psicólogo, aqui no morro ou fora, para que ela possa fazer terapia. Não quero vê-la crescer com medo, traumatizada, sem conseguir dormir por causa do passado. Preciso mostrar a ela que tudo isso acabou. A dor foi passageira. E que, se Deus quiser, a felicidade agora caminha ao nosso lado.

Como se não bastasse, quando meu sono finalmente chegou, foi a vez da pequena Ágata começar a chorar. O quarto dela fica bem em frente ao meu e ao de Bárbara, então dá pra ouvir tudo. O de Wesley fica no fim do corredor — e sei disso porque Paula me contou que é proibido entrar lá. Ninguém nunca teve coragem, nem mesmo ela.

O choro me incomodava. Não suporto ouvir criança chorando — parte meu coração. E, claro, choro de bebê desperta a vizinhança inteira. Mas não havia nada que eu pudesse fazer. O próprio pai proibiu qualquer aproximação que não fosse da babá. Wesley não parece muito experiente como pai, mas não o julgo. Quando Bárbara nasceu, eu também não sabia nem como amamentá-la.

Ele não sabe preparar os mamadeirinhas, mas já entendeu que precisa aquecer o leite. Troca a fralda da menina do avesso, veste as roupas da forma errada... E detesta ouvir os conselhos da Paula.

Sou obrigada a conter o riso. Acho que ele não simpatiza muito comigo — nem com minha filha. Mesmo assim, é engraçado vê-lo se atrapalhando tanto.

Hoje faz duas semanas que saí de São Paulo e, quase sem querer, vim parar aqui no Morro do Chapadão. No começo, tive receio. Medo do que poderia acontecer. Mas, com o passar dos dias, percebi que aqui não é tão ruim quanto parece. Há tiros em noites de baile — confesso que quase tive um infarto na primeira vez que ouvi —, mas Bárbara achou engraçado. Como nos filmes, ela disse.

Para não correr o risco de ser encontrada pelo meu ex, precisei quebrar o chip e jogar o celular fora. Convenci Márcia a desativar as redes sociais por um tempo. Rodrigo é doente. Capaz de qualquer loucura. Pode muito bem rastrear um WhatsApp ou Facebook e descobrir onde estou. Por enquanto, vou viver como nas décadas passadas — tudo por cartas!

— Mamãe! Mamãe! Acorda! — ouço a voz de Bárbara me chamando, seus dedinhos batendo no meu rosto. — Minha baliga tá falando comigo.

Suspiro fundo e tiro o cobertor da cabeça. Encaro seu rostinho sapeca me observando com olhos curiosos.

— Bom dia, minha fedida — digo, beijando sua bochecha. — Vai descendo pra sala, a mamãe já vai.

Ela sai correndo do quarto.

— Não corre, filha! — tento alertar, mas já era tarde. Ela já estava na escada.

Desço as escadas soltando o cabelo. Gosto de vê-lo assim, solto, com volume e os cachos leves nas pontas. Nunca alisei — eles me definem. Mas, sim, dão trabalho... hidratar é uma saga.

Na sala, não encontro Bárbara. Imagino que esteja na cozinha com Paula ou Márcia. Fominha do jeito que é, com certeza não esperou a mãe para comer. Ouço vozes masculinas e a gargalhada contagiante da minha filha. Ao entrar na cozinha, dou de cara com Wesley segurando sua filha no colo. Márcia comendo ao lado de uma garota que eu nunca tinha visto. Dois homens armados conversam ao fundo. E, para minha surpresa, minha filha está sentada no colo daquele rapaz da barreira — Matheus, se não me engano.

— É... bom dia — digo, sentindo os olhos de todos sobre mim. Todos, menos Wesley.

— Pensei que tu tinha morrido, miga — diz Márcia, mordendo um pedaço de pão. — Essa aqui é minha amiga Juliana.

Olho para a menina e dou um sorriso contido.

— Oi — responde ela, devolvendo o sorriso.

Antes que eu pudesse responder, Bárbara salta do colo de Matheus e corre até mim.

— Mamãe! Titio fez cócegas em mim! — diz, rindo.

Olho para Matheus, me permito cumprimentá-lo. Ele responde com um aceno simpático. Também cumprimento os outros dois homens — KP e Kaique — que conversavam com Wesley.

Após o café da manhã, os rapazes saem, levando Ágata com eles para ficar com Paula — que, naquele dia, não poderia vir até aqui. Juliana até tentou convencer Wesley a deixá-la cuidar da menina ou mesmo Márcia, mas ele recusou.

Enquanto Bárbara brincava com alguns brinquedos sobre o tapete, eu, Márcia e Juliana conversávamos no sofá. Juliana era tagarela e desinibida — desde o café não parava de falar. Nos alertava com quem deveríamos andar, com quem devíamos tomar cuidado ali no morro. Explicou que muitas mulheres dali eram amantes de bandidos. Outras, prostitutas buscando dinheiro e ostentação.

— Tem que abrir o olho, fia — disse ela, séria. — Tu não pode baixar a guarda pra essas piranhas, tá ligada? Tu passa na rua com qualquer moleque e já vem uma: Tá fazendo o quê com meu homem? — e imita a voz, debochada. — Mermão, eu vou pra cima...

— Bate aqui, que tu é das minhas — diz Márcia, fazendo um toque com ela.

Não me incomodava com esse tipo de coisa. Não conhecia nenhuma mulher ali. E, pra ser sincera, nem vim pra fazer amizades baratas. Não tenho namorado, não sou de dar em cima de ninguém. Não vejo por que teria problemas.

Aliás, acho uma estupidez duas mulheres brigarem por homem.

Depois do que passei com Rodrigo, acho que vou ficar solteira pra sempre. Não quero reviver nada daquilo. Este é o meu recomeço — meu e da minha filha. Saí de São Paulo pra reconstruir minha vida. Pra encontrar paz. E ser feliz. Não preciso, e nunca precisei, de homem nenhum pra sobreviver. E não vai ser agora que isso vai mudar.

Boa noite 😍

E essa meta será que bate...

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora