Capítulo 53

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Matheus narrando...

— Não fode com a minha cabeça, porra — soltei, já sem paciência. — Tu realmente acredita que é assim, num estalar de dedos, que eu descubro o paradeiro dessa carga? Wesley tá em guerra comigo, no meu encalço dia e noite. Não dá. Não agora.

Rael se ajeitou na cadeira com um ar de desdém elegante. Passou os dedos pelos cabelos, um gesto mecânico que mal disfarçava a impaciência evidente. Seus olhos me fitaram por um segundo longo antes de despejar o que estava preso na garganta.

— Matheus, presta atenção, moleque... — disse ela com uma calma que era puro veneno. — Tô me lixando pra essa merda toda. Dá teus pulos, se vira, que eu não quero saber de justificativa nenhuma. Tu é sub-dono, cacete. Tinha obrigação de estar por dentro desses movimentos. Tá me fazendo de idiota?

A raiva subiu, mas segurei. Respirei fundo, mesmo que cada palavra dela me atravessasse.

— Tu não tá entendendo a fita, Rael. Desde que eu quebrei a cara do Wesley, ele mal me dirige a palavra. E não esquece que eu fiquei fora da boca por tua culpa. Meses sumido, queimando filme, por tua causa.

Ela riu com escárnio. Um som curto, seco.

— Minha culpa é a tua prima de quatro, porra. Já falei: te vira. Resolve tua merda.

Engoli a grosseria, mas não recuei.

— Tá, e depois? Como a gente vai ficar? Isso precisa acabar. Aquele desgraçado tem que sair do meu morro. Sempre foi meu. E vai voltar a ser.

Rael apoiou os cotovelos nas coxas, uniu as mãos e me olhou com seriedade.

— Um passo de cada vez. Se avançar sem pensar, estraga tudo. Não podemos — e não vamos — atacá-lo diretamente. Seria perda de tempo. Wesley é um covarde, sim, mas não é burro. — Fez uma breve pausa, pensativa, e em seguida arrematou com frieza — O que precisamos é encontrar o ponto fraco dele. A filha, talvez. Ou aquela vadia preta que ele anda comendo. Mexer com uma delas e ele desmorona.

A voz de Rodrigo cortou o silêncio como um estilete.

— Ainda não entendi onde eu entro nessa porra toda. Eu quero aquela criança e a mãe mortas. E esse filho da puta também. — Sua voz saía embebida em ódio, amarga. — Quero ser eu a meter a bala.

As palavras dele me acertaram como um soco. Quando ele falou da Isa e da filha, senti o sangue ferver. Franzi a testa, meu olhar afiado como uma lâmina. O combinado era claro: Isa e a filha estavam fora disso. Porque no final, quando ela enxergasse quem Wesley realmente era — o covarde que sempre foi —, ela viria pra mim. Sempre foi essa a ideia. Sempre foi ela.

— Tu é doente, cara. Como consegue falar de matar tua própria filha como se fosse qualquer merda?

Rodrigo me lançou um olhar vazio, quase satisfeito.

— Quem disse que aquela peste é minha filha? Nunca foi. E a Isabella e eu? Nunca tivemos porra nenhuma. Graças a Deus.

Rael franziu a testa, incomodada.

— Que papo estranho é esse?

— Minha vida não é da conta de vocês. Só quero ver aquele desgraçado morto. É só isso que me importa.

— Não se faz de importante, não — rebati, com nojo. — Se não fosse por mim, tu já estaria no inferno pagando pelos teus pecados. Mas fica tranquilo... tu vai ser um dos primeiros a encostar nesse filho da puta. Vai ter tua parte no sofrimento dele.

Horas se passaram entre ameaças veladas e planos escorrendo como veneno. Quando senti que era hora, levantei. Eu precisava sair dali antes que a sorte me abandonasse de vez. Estava correndo risco demais indo até aquele morro quase todo dia — mas a verdade é que não me importava. Havia uma causa. E ela justificava tudo.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora