Capítulo 28

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maratona 3/3

Paula narrando...

1 semana depois...

Os dias passaram como um borrão, uma sucessão de momentos fugidios, e já se havia passado uma semana desde que deixei o Chapadão atrás de mim, fugindo para não ser mais uma vítima. Trancada na minha pequena casa no interior do Rio, uma fortaleza de solidão, eu me escondia, mas o pressentimento, pesado e insuportável, se aninhava em meu peito. A cada novo amanhecer, sentia que algo de terrível estava prestes a acontecer.

Em meus 45 anos de vida, nunca me envolvi com o submundo do crime, nunca me entreguei àqueles que vendem suas almas por poder ou dinheiro. O abandono do meu ex-marido, ainda jovem, grávida de gêmeos, foi uma ferida que nunca sarou. Ele partiu com a amante, deixando-me desprovida de tudo. Mas, ao contrário do que muitos imaginavam, nunca caí na tentação de vender meu corpo para sobreviver, nem para me ostentar.

Minha mãe sempre foi minha grande referência. Desde pequena, ela me mostrou o caminho da dignidade, lutando sozinha para cuidar de mim e dos meus seis irmãos após a morte de meu pai, vítima de um assalto. Com ela, aprendi a importância de ser honesta, de batalhar por uma vida melhor — uma vida simples, sem luxos, mas com a consciência tranquila. Se você tem onde dormir, o que comer e beber, deve ser grato.

Aos 17 anos, comecei a trabalhar na casa de madames. Naquela época, a educação não era privilégio de todos, e era comum ver jovens trabalhando em vez de estudarem. Eu estava grávida, e precisava juntar dinheiro para garantir um futuro melhor para meus filhos, Victor e Leila. Enfrentei humilhação, desprezo e preconceito por ser uma "favelada", como costumavam dizer, mas continuei firme, não me deixando abalar.

Após o nascimento deles, mesmo com o pouco que eu tinha, a vida nunca foi fácil. Contas a pagar, estudos, comida, roupas... O dinheiro era sempre escasso, e meu salário mal dava para cobrir as despesas da casa. Comecei a vender quentinhas, salgadinhos, a tomar conta de crianças — nada grande, mas suficiente para garantir um pouco de alívio.

Hoje, meus filhos estão grandes, e seguiram caminhos distintos. Victor, sério e determinado, batalhou por dois anos para conseguir o dinheiro e entrar na faculdade em Londres. Já Leila... Leila sumiu há meses. Não atende mais minhas ligações, não dá notícias. E como uma mãe pode sobreviver a essa angústia? O que me restou foi a saudade, a preocupação constante. Leila, envolvida com drogas e crimes desde cedo, abandonou a escola e, em busca de um futuro de luxo, se entregou aos bandidos. Engravidou e até hoje não sei o que aconteceu com a criança. Às vezes me consolo, imaginando que ela tenha ido embora com o pai da criança, mas meu coração sabe que a realidade é bem mais sombria.

Sinto-me culpada, talvez. Por não ter estado presente o suficiente, por não ter feito mais. Minha função de mãe falhou em muitos aspectos, mas sempre dei a ela amor e carinho, mesmo com a ausência causada pelo trabalho incessante. Talvez eu tenha errado, mas as dúvidas são os fantasmas que me assombram noite e dia.

E então, o arrependimento me devora. Muitos devem me odiar por ter causado o sofrimento de Ágata. Ela, uma inocente, um anjo, não merecia aquilo. E, embora talvez não pareça, me arrependo profundamente. Nos últimos dias, minhas orações têm sido para que ela esteja viva, para que os comprimidos que dei a ela não tenham feito tanto mal.

Meu próprio irmão me forçou a cometer aquele crime hediondo, ameaçando minha vida e a de meus filhos. No início, relutei. Não tinha coragem. Preferia morrer a seguir adiante com aquilo. Mas quando ele envolveu meu filho na ameaça, fiquei sem escolha.

Wesley, embora rude, frio e distante, demonstrava um amor imenso pela filha, algo que eu só podia perceber nos momentos mais difíceis.

Naquela noite, eu estava na cozinha, preparando o jantar, quando a batida na porta me fez gelar o sangue. O coração acelerou, e meu corpo tremeu, como se pressentisse o fim iminente. Quem seria a essa hora?

Apaguei as luzes da cozinha, fazendo o mínimo de barulho possível. O pressentimento que eu sentia se intensificou. Algo estava para acontecer, e eu sabia que não era boa coisa.

Por um momento, as vozes dos meus filhos invadiram minha mente, e me vi lembrando do dia em que, sozinha em uma maca de hospital, chorava enquanto sentia os golpes que atingiam minha barriga.

Olhei pela janela, mas a noite estava silenciosa, sem qualquer sinal de movimento. Até que ouvi o estrondo da porta sendo derrubada. As vozes que vieram da sala eram familiares, e o terror tomou conta de mim. Eu sabia que meu fim estava perto. Mexer com a família de criminosos não tem perdão.

De tanto fugir, de tanto me esconder, o destino parecia ter me alcançado.

A dor era insuportável. Ardia em cada parte do meu corpo, como se as feridas fossem um reflexo da culpa que corria em minhas veias. Cada golpe que me atingia era acompanhado de um grito, mas no lugar onde estava, ninguém ouviria. Aonde eu estava, não havia salvação.

O ódio no olhar dele era algo palpável, e quando confessei, a violência em suas palavras era ainda mais cruel. Ele me mandou cortar a cabeça e enviá-la a meu irmão. A palavra "destruição" tomava forma em cada movimento que ele fazia.

Minha carne sangrava, o cabelo queimava, e meu corpo estava marcado por hematomas e cortes. A dor do álcool sendo derramado em minha pele fez meu corpo contorcer, mas era um sofrimento que eu sabia que merecia. Merecia e muito mais. Não me arrependia de tudo, mas sabia que era tarde demais para voltar atrás.

Wesley, com sua frieza, ordenava sem hesitar. "KP, corta a cabeça dela e manda para Rael. Depois, queima tudo sem deixar vestígios."

KP se aproximou com a faca na mão. Eu sabia que era o fim. E, naquele momento, não me arrependi de mais nada, exceto de não ter tido coragem de me despedir dos meus filhos.

Não pude lhes dizer o que mais queria ouvir deles: "Eu te amo".

Eles jamais saberiam que, de longe, eu sempre os protegeria, mesmo em meus últimos momentos.

Fim da nossa pequena maratona

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