Isabella narrando...
Deve ser tarde demais para pronunciar essas palavras, mas confesso, cansei. Cansei de vagar pelas mesmas aflições, de cometer os mesmos erros, de sofrer pelas mesmas causas, por aqueles que ainda me assombram. Como se o mundo, que gira implacável, não tivesse forças para me libertar das amarras de um passado que, teimosamente, me perssegue. Como se a vida não fosse capaz de me conduzir à frente, de me dar o alento de um novo começo.
Lembro-me do que Márcia costumava dizer, com sua sabedoria rude: "Quem vive do passado é museu, e quem tenta voltar a um passado que deu errado é um idiota." Talvez eu esteja sendo dramática, talvez até mesmo exagerando, mas não posso deixar de reconhecer que é difícil esquecer o sofrimento, principalmente quando ele se imprime na minha pele, quando as cicatrizes do passado se tornam marcas visíveis que me acompanham, eternas.
Por mais que eu tente apagar da memória tudo o que vivi, por mais que eu queira esquecer o Rodrigo, suas traições, suas agressões, sua indiferença, sei que é impossível. Bastaria um simples olhar no espelho, e toda a dor voltaria como uma onda avassaladora, pronta para me engolir. Mas, dessa vez, estou disposta a agir de outra maneira. Não por mim apenas, mas por minha filha, por ela e por tudo o que posso ainda ser.
Sinto que algo em mim se transformou desde aquele dia. O dia em que quase sucumbi nas mãos de Wesley, quando acordei no dia seguinte com o corpo marcado, os hematomas a pintarem minha pele como lembranças de um passado recente e sangrento. Algo mudou, e talvez tenha sido esse o momento em que meus olhos se abriram. Como uma janela se abrindo para a luz, talvez essa dor tenha sido o que eu precisava para enxergar de verdade. A vida pode nos derrubar, mas somos nós que escolhemos o momento de nos levantar.
É difícil admitir, mas ao longo de toda minha vida, eu neguei a mim mesma a coragem de viver de maneira plena. A coragem! Era essa a palavra que faltava, e por mais que eu tentasse, nunca soube o que é verdadeiramente ter coragem para fazer e sentir certas coisas.
Nunca tive coragem de denunciar os maus-tratos de meus pais. Nunca tive coragem de enfrentar Rodrigo nas nossas brigas, de mostrar a ele que nenhum homem tem o direito de tratar uma mulher como lixo. E por mais que eu tenha me calado, também nunca tive coragem de mostrar ao mundo os meus sonhos, as minhas aspirações, e até mesmo os meus erros. Eu, que engravidei cedo, sempre fui vista como irresponsável, como uma mulher desvairada que só queria viver às custas de um homem rico, como se ser mãe fosse um peso e não uma benção.
Cheguei à conclusão de que sempre amei os outros antes de me amar. Fui fria, distante e muitas vezes ignorante. Mas quem pode sorrir quando, no fundo, a única coisa que você deseja é desistir da vida? Quem pode manter-se de pé quando tudo ao seu redor pede para que você se renda à tristeza e ao abandono?
Mas não posso me permitir mais esse luxo. Não posso mais olhar para trás, pois sei que perderia tempo demais. Preciso avançar, preciso dar a volta por cima, e a única coisa que me impede de afundar é minha filha. O seu sorriso, a sua pureza, são a força que me impulsiona a continuar. Ela é minha motivação, minha razão para acreditar que ainda há algo de bom que posso fazer neste mundo.
⸻
— Mamãe, depois quero tomar sorvete! — Bárbara grita, com um sorriso radiante, enquanto se despede de mim à porta da escola.
— Quando você sair da escola, mamãe vai te levar na praça para tomar um sorvete. Mas só se você se comportar bem, combinado? — respondo, tocando sua cabeça com carinho, sentindo-me levada por aquele momento de doçura que ela me proporciona.
Ela assente com um sorriso largo, entrando na escola com sua energia de criança. Eu a acompanho com o olhar até desaparecer entre os outros alunos e, depois, sigo meu caminho de volta para casa, subindo a colina.
Chego em casa e me dirijo diretamente ao sofá. O computador aguarda minhas mãos, e minha mente, agora mais focada, se volta para a busca por um novo emprego. Já não me importa o que aconteça. Vou trabalhar onde for preciso, até mesmo em lanchonetes, se for necessário. O importante é não ficar parada, esperando que a vida me dê algo de graça.
Passo horas navegando pelos anúncios, ligando para empresas, algumas me dando respostas positivas, outras negativas, mas minha determinação é maior que qualquer obstáculo. Ninguém pode me parar agora.
Então, no silêncio da casa, ouço um barulho nas escadas. Fico alerta, mas logo percebo que Wesley, como sempre, já saiu para o trabalho com a filha.
— Não sabia que você estava em casa — digo, quando o vejo sentado na varanda, de onde a piscina é visível. Seu olhar é indiferente, e a grosseria da sua resposta não me surpreende mais.
— Você não tem que saber nada da minha vida — ele responde com um tom ríspido, e eu, sem me alterar, replico:
— Educação mandou lembranças.
— Vai se foder, mandou lembranças também — ele replica, com um sorriso escarninho.
Eu o ignoro. O que ele diz não importa mais. Depois de tudo o que aconteceu, ainda tenho coragem de enfrentar essa pessoa? Alguns podem me chamar de idiota, outros dirão que sou fraca, mas não guardo rancor. A culpada sou eu. Eu devia ter ficado longe de Ágata, desde o começo.
Quase quatro meses vivendo sob o mesmo teto me ensinaram que a ignorância de Wesley e a sua grosseria são partes de quem ele é, que nada disso mudaria. E, no fim, isso não me importa.
— Ainda não me disse o que aconteceu com o teu "bagulho" de ontem à noite — diz ele, quebrando o silêncio com uma nova provocação.
— Você não tem que saber nada da minha vida — respondo, sem querer alimentar sua arrogância. Ele me lança um olhar furioso, mas não me intimido.
Antes que ele continue, meu celular toca, quebrando o silêncio tenso da conversa. Olho a tela: número desconhecido.
— Alô? — atendo, curiosa, sem saber o que esperar.
— Boa tarde, gostaria de falar com a senhorita Isabella Ticyane de Almeida. — A voz feminina do outro lado é clara, educada, mas desconhecida.
— Sou eu. Quem está falando? — pergunto, um tanto estranhando aquele número.
— Ah, desculpe-me por não me apresentar antes. Meu nome é Ester Patricia Albuquerque. Eu sou advogada e recentemente abri um escritório de advocacia. Estou precisando de uma secretária. Minha amiga Juliana me falou sobre você e disse que está procurando emprego. Gostaria de saber se tem interesse na vaga — a voz de Ester transmite calma e profissionalismo.
Meu coração acelera. Finalmente, uma oportunidade.
— Claro que estou interessada! — respondo, a animação tomando conta de mim.
— Perfeito! Podemos nos encontrar hoje à tarde, se for conveniente, para conversar mais sobre a vaga e fazer alguns testes? — ela pergunta, com a suavidade de quem transmite uma boa notícia.
— Claro, pode me enviar o endereço que estarei aí em breve — respondo, ansiosa, minha esperança renovada.
Ela me passa os detalhes e a ligação termina. Sinto-me mais leve, como se uma nuvem pesada tivesse se dissipado. Então, olho para Wesley e, com um sorriso quase imperceptível, digo:
— Me leva até lá? Não conheço bem o caminho.
Ele me olha com desdém, como sempre, mas, para minha surpresa, para o carro ao meu lado e diz:
— Sobe logo.
Penso em recusar, mas a pressa em chegar ao meu destino é maior. Subo, e a jornada para meu novo começo, finalmente, começa.
E essa mudança da Isa heim?
Eu sei que é chato e fico sempre repetindo mas meus queridos leitores fantasmas vamos votar e comentar porque fica chato ficar metendo metas toda hora.
Deixei claro no início da história que o livro avança a medida dos votos e dos comentários...
Votem e comentem
VOCÊ ESTÁ LENDO
Meu Novo Recomeçar
Ficção AdolescenteIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
