Kaique narrando...
Encostado na parede úmida de um beco estreito ao lado da boca, senti o silêncio denso da tarde ser rasgado pelos estampidos secos dos foguetes no céu. Uma nuvem vermelha se espalhou pelo ar, tingindo o território com o prenúncio da guerra. Em segundos, o caos se instaurou — nem houve tempo para alertar os demais. O tiroteio começou sem cerimônia, como se já estivesse ensaiado.
Por sorte, todo o arsenal — fuzis, granadas, munições — estava nos fundos da boca, e não no depósito. Corri para dentro. Vesti o colete à prova de balas, pendurei três AK205 no ombro, distribuí granadas nos bolsos e enfiei um saco de munições sob o braço. Antes de sair, beijei meu amuleto de cruz e pedi proteção à minha mãe. Sabia o que me esperava lá fora.
— Vai pilotar, Yuri? — perguntei.
— Tu sabe que minha mira é uma desgraça. Sobe aí que eu levo. — respondeu ele, firme.
Subi na garupa, ajeitei as armas e deixei o radinho ligado. A voz de Wesley rasgava o canal, ordenando fogo sem piedade. Dessa vez ele não estava só passando visão do alto. Estava no campo, pronto pra sujar as mãos.
A moto voava entre vielas e becos, mas os invasores já haviam se espalhado pelas entradas norte e sul. Sabíamos que não era operação da polícia — era acerto de contas, retaliação pura. O mês ainda nem tinha virado, e as dívidas com os vermes estavam quitadas. Era pessoal.
A cada curva, mais corpos. Gente caída, sangue na calçada. Os invasores atiravam em tudo: casas, lojas, barracos. As meninas que dançavam funk fugiram aos gritos. Os moleques largaram a bola no meio da rua. Os ambulantes sumiram, abandonando suas bancas como se a vida tivesse mais pressa que o lucro.
O bairro virou trincheira. A cada disparo, um pedaço da paz se despedia.
De repente, senti o assobio agudo de um disparo passar rente ao meu rosto e explodir na parede ao lado. Cacos de concreto voaram. Enxerguei o desgraçado que puxara o gatilho e, num só movimento, ergui o fuzil e disparei até vê-lo cair.
— Qualquer problema, tu atira. Tô de costas — avisei a Yuri.
Seguimos. Até que, num descuido, meus olhos cruzaram com os de Real. Ele surgiu detrás de dois contentores de lixo, apontou e atirou. Três vezes. Subiu correndo logo depois.
Os tiros passaram por mim. Intacto. Não posso dizer o mesmo de Yuri. Senti seu corpo vacilar atrás de mim, a moto perdeu o equilíbrio e, num piscar de olhos, tudo saiu do controle. A gravidade fez o restante do trabalho sujo.
⸻
Minutos depois, os disparos cessaram. Os inimigos recuaram repentinamente, obedecendo a uma ordem direta de seu chefe. Saí do beco onde estávamos escondidos e pedi uma moto a um dos garotos que permanecia parado à frente.
Yuri havia sido atingido apenas de raspão no abdômen, mas o ferimento sangrava como se exigisse atenção urgente. Ele havia perdido muito sangue. Levei-o até o posto de saúde da comunidade e parti em seguida — permanecer ali não era uma opção.
Sempre após uma invasão, todos os vapores se reúnem na boca para fazer o balanço da tragédia: quem caiu, quem sobreviveu... as mesmas perguntas de sempre, com respostas cada vez mais previsíveis.
Ao estacionar a moto em frente à boca, ouvi três tiros vindo da parte interna, seguidos pelos gritos de Wesley, vociferando palavrões e ameaças. Ele estava completamente fora de si, espalhando terror como um furacão desgovernado.
Entrei com cautela para entender o que estava acontecendo. A maioria dos soldados estava reunida na sala. Wesley falava alto, sem pausas, mas suas palavras pareciam desconexas, quase incompreensíveis. Ao fundo, notei KP — cabeça baixa, punhos cerrados, como se a raiva estivesse se acumulando nas veias. Me aproximei.
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Meu Novo Recomeçar
Teen FictionIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
