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Márcia narrando...
Eu estava em ruínas. Por dentro, despedaçada; por fora, apenas o reflexo de alguém que não se reconhecia mais.
Sentia-me desumana, uma impostora no próprio corpo, afogada em culpa e arrependimento. Era uma idiota — essa era a única definição possível para alguém que destruiu com as próprias mãos o único homem que verdadeiramente a amou, valorizou e acolheu.
Perdi Yuri por uma estupidez, medo, por uma reação irrefletida, e agora me restava a dor lancinante da ausência e do remorso.
Não deveria ter pronunciado aquelas palavras, tampouco tomado aquela atitude precipitada. O olhar decepcionado que ele me lançou ficou gravado em mim como uma cicatriz aberta. Pela primeira vez, vi Yuri tomado por uma fúria silenciosa, misturada à dor de quem se sentia traído em sua essência.
Já não era o mesmo homem que me conquistou com delicadeza, aquele que suavizou a dureza do meu coração. Era outro — alguém ferido, alguém a quem eu destruí sem perceber.
Desde que me pediu em namoro, Yuri jamais me deu motivo para desconfianças. Nunca houve em seus gestos qualquer sombra de traição. Seu comportamento sempre foi honesto, íntegro.
Fui eu quem sucumbiu aos fantasmas do passado, à insegurança que me assombra desde a adolescência.
Bastou ver aquela fotografia com a dedicatória ao verso para que todas as minhas feridas se abrissem de uma vez: senti-me usada, enganada, traída. Um turbilhão de memórias dolorosas me invadiu.
Fui enganada tantas vezes... Acreditei em promessas que terminaram em mentiras.
Homens que infelizmente marcaram minha juventude com abusos, que destruíram minha reputação e me deixaram carregando o peso de uma história que eu nunca escolhi. Quando se sofre tanto, é difícil acreditar no amor. É quase impossível não reagir com desconfiança diante do inesperado.
As palavras de Yuri ecoavam na minha mente com uma força dilacerante.
Ouvi-lo dizer que sua filha estava morta, que havia sido vítima da crueldade da própria mãe, me esmagou por dentro. Ela foi queimada viva. Assassinada com uma frieza que só o ódio pode justificar. Uma parte de Yuri morreu com Ana Clara, e a outra seguiu, aos tropeços, tentando sobreviver. E eu, estúpida, tive a audácia de duvidar de alguém que carrega no peito uma dor tão profunda.
Quem vê Yuri jamais imagina o peso que ele carrega. Ele sempre foi leve: sorridente, brincalhão, generoso. Seu jeito amoroso escondia os escombros de uma vida marcada por tragédias. E mesmo assim, ele escolheu me amar. Me acolheu com todas as minhas feridas. E eu... Eu o feri da pior forma possível.
Liguei mais de sete vezes para seu celular. No início, chamava. Depois, caiu direto na caixa postal. O medo me corroía: onde ele estava? Com quem? O que estaria fazendo? Passei horas sob o chuveiro, deixando a água escorrer como se pudesse lavar o desespero. Chorei até não restar mais forças. Não tenho vergonha de dizer: sim, eu chorei por um homem. Por aquele homem.
Saí do banho enrolada numa toalha, vesti uma cueca dele e uma de suas camisetas — queria sentir seu cheiro, sua presença. Deitei na cama e afundei o rosto na almofada. Fechei os olhos, mas o sono veio apenas com as últimas lágrimas descendo silenciosas pelo rosto.
Minutos depois — ou talvez horas — despertei ao som da água do chuveiro. Abri os olhos com dificuldade e olhei ao lado: sua parte da cama permanecia intocada. Ele não dormira em casa. Sentei-me lentamente, tomada por pensamentos. Queria pedir perdão, implorar uma chance de recomeçar, mas temia sua reação.
Fiquei ali, inerte, até ouvir a porta do banheiro se abrir. E então ele surgiu. Nos encaramos. Havia um abismo entre nós. Seu rosto abatido, os olhos sem brilho, as olheiras profundas — e o braço enfaixado, consequência da minha insanidade. Ele não disse nada. Apenas desviou o olhar e foi até o armário, onde se vestiu com a mesma serenidade com que me ignorava. Eu queria falar. Mas minha voz se calava diante da culpa.
Quando o vi prestes a sair do quarto, criei coragem.
— Yuri... Podemos conversar?
Ele virou-se. Seu olhar pousou sobre mim por alguns segundos antes de negar com a cabeça.
— Ontem eu tentei conversar contigo. Você me escutou? Deu espaço para eu explicar alguma coisa?
— Eu sei que nenhuma justificativa apaga o que fiz. Eu não quis te machucar, nunca quis destruir o que temos. Agi por impulso, por medo, e me arrependo amargamente.
Ele suspirou, desviando o olhar.
— Estou indo trabalhar. Quando eu voltar, a gente conversa.
E saiu.
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Tentei ocupar a mente durante o dia. Visitei Juliana, depois seguimos para a casa de Isabella. As crianças estavam radiantes. Dois pequenos que já ocupavam um espaço imenso em meu coração. Combinamos os detalhes da festa de cinco anos da Bárbara. Isabella estava empolgada — finalmente conseguiria dar à filha uma comemoração digna, longe da influência de um pai que, felizmente, não fazia mais parte deste mundo. Um homem que lentamente destruía tudo ao redor e só parou quando a própria vida lhe foi tirada.
— Márcia — disse Isabella, séria —, Yuri sempre foi íntegro contigo. Ele nunca escondeu o que sente. Se ele tivesse filhos, você acha mesmo que já não teria ouvido isso da boca dos outros? Pensa antes de agir, amiga. Ele sempre te respeitou. Sempre te amou.
— Eu sei, Isabella. Não precisa jogar isso na minha cara... Eu não pensei. Só vi aquela foto e surtei. Você sabe como eu sou.
— Isso não justifica nada — respondeu Juliana. — Um homem como ele... Se você não der valor, vai ter mulher por aí que vai. E ele merece.
— Concordo — completou Isabella. — Vai atrás dele, fala o que sente. Se perder esse homem, vai se arrepender profundamente.
— Eu vou tentar. Queria que ele soubesse o quanto eu o amo...
Queria sair correndo dali e voltar para casa, abraçá-lo, pedir perdão. Mas permaneci, ouvindo Isabella desabafar sobre as mudanças de comportamento de Wesley, que parecia mais paranoico a cada dia. O amor, às vezes, vem acompanhado de tormentas difíceis de compreender.
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Quando finalmente conseguimos conversar, Yuri não poupou palavras. Não havia consolo, tampouco alívio para a culpa que ainda me devorava por dentro.
— Então me diz, Márcia... Você acha razoável me agredir por ciúmes? Só imagina se fosse o contrário — disse ele, com aquela calma que só os realmente feridos conseguem ostentar.
Engoli em seco.
— Eu sei que errei. Não tento justificar. Me arrependo com cada parte do que sou. Mas você nunca me falou sobre o passado. Quando vi aquela foto, achei que estava sendo feita de tola. E, convenhamos, a humilhação tem um gosto ácido.
Ele me olhou como se procurasse algo nos meus olhos — talvez a mulher por quem um dia se apaixonou, ou apenas um resquício de lucidez.
— Quando te pedi pra ser minha mulher, não foi por carência nem conveniência. Foi porque eu queria caminhar contigo de verdade. Achei que tinha deixado claro que não sou desses que somem depois da cama desfeita.
— E você deixou. Você foi, de longe, o melhor homem que passou pela minha vida. Com você eu consegui enfrentar meus fantasmas — mesmo aqueles que eu escondia de mim mesma. Eu te amo, Yuri. E o que fiz... não tem desculpa, só arrependimento. Um que me pesa todo dia. Eu juro que nunca mais vou me permitir errar assim.
As lágrimas me embaçavam a visão, tornando sua expressão um borrão dolorido. Mas o sentimento, esse era nítido: eu não queria perdê-lo. Estava disposta a lutar. A provar que, por trás da minha loucura desastrada, havia um amor feroz, real — e mais verdadeiro do que qualquer desculpa que eu pudesse inventar.
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Meu Novo Recomeçar
Ficção AdolescenteIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
