Capítulo 63

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Márcia narrando...

Acordei ao som do choro de Ágata vindo do andar superior. Estava largada no sofá, os olhos pesados, mas o sono me escapava havia dias — repousar tornou-se um privilégio inalcançável.

Levantei com esforço, prendi os cabelos num coque apertado e subi lentamente as escadas, ainda envolta por um torpor sonolento. Abri a porta do quarto e a encontrei tentando escalar as grades do berço. Assim que me viu, estendeu os braços na minha direção.

— Ágata, você tomou alguma poção de energia, menina? Onde foi parar o seu sono? — perguntei com um sorriso cansado.

— Mama... papa — balbuciou, e soltei um suspiro longo, tentando reunir paciência.

A peguei no colo, sentindo seu corpinho quente e inquieto junto ao meu. Levei-a até a cozinha e a acomodei na cadeirinha enquanto preparava sua mamadeira. Ela me observava em silêncio, os olhos atentos, como se esperasse mais do que leite — talvez um pouco da paz que há tanto nos falta.

Cuidar de Ágata e Bárbara tem sido um desafio imenso. Nunca estive tão tempo sozinha sob a responsabilidade de duas crianças. Falta-me tempo, sobra-me cansaço — e ainda assim, sigo.

Pela manhã, deixo-as na casa de Juliana antes de ir para a faculdade. À tarde, Yuri as busca e as traz de volta, e então tudo recai sobre mim novamente. Wesley anda envolvido demais com os conflitos do morro para dar conta de tudo.

A cada dia que passa, meu coração parece pesar mais. Sinto a ausência de Isabella como uma sombra constante — não apenas minha, mas delas também. Bárbara chama pela mãe durante a noite, assombrada por pesadelos. E o mais surpreendente é Ágata, que, mesmo sem laços de sangue, desenvolveu um amor profundo por Isabella. Viu nela a mãe que nunca teve.

Saber que Isabella está internada na UTI me parte em pedaços. Faz dois dias desde que Wesley conseguiu trazê-la de volta, desidratada, ferida, exausta. Ela mal conseguia se manter de pé e desmaiou logo em seguida. Wesley a levou ao posto, e desde então, estamos à espera.

Ela mudou. Tornou-se mais forte, mais consciente de si — mas não sei por quanto tempo conseguirá sustentar tanto peso. Rezo para que não desista.

— Titia, olha o que o tio Kaique me deu! — gritou Bárbara, surgindo na cozinha com sacos de doces nas mãos.

— Você não pode comer tudo isso, mocinha. Me dá, vou guardar a metade — respondi, pegando os doces com um sorriso.

— Mentira! Você diz que vai guardar, mas come tudo à noite! — protestou, cruzando os braços com indignação teatral.

Kaique entrou na cozinha logo em seguida, seguido por Yuri.

— Márcia, você já passou da idade pra roubar doce de criança — comentou Kaique, divertido.

Em resposta, levantei discretamente o dedo do meio, fazendo Yuri rir. Entreguei a mamadeira a Ágata e fui até meu companheiro, oferecendo-lhe um selinho rápido.

Seu semblante, no entanto, estava sombrio. Algo não ia bem.

— Bárbara, que tal ir assistir àquele filme da Barbie com a Ágata na sala? — sugeri. Ela assentiu com um sorriso e me ajudou a retirar Ágata da cadeirinha. Em instantes, as duas desapareceram no corredor.

Sentei-me ao lado dos homens, tensa.

— O que aconteceu? Por que essas caras?

Yuri suspirou, os olhos baixos.

— Acabei de voltar do posto — disse Kaique, a voz arrastada, pesada como chumbo. — Fui ver o Kevin... e confesso que fiquei mal. Ele tá destruído. Não fala com ninguém, só fica ali, olhando pro nada. Parece uma sombra do que já foi.
Fez uma pausa curta, como se as palavras seguintes lhe queimassem a garganta.
— A bala atingiu a coluna. Os médicos disseram que... que ele não vai voltar a andar.

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora