Márcia narrando...
Eu já não me lembrava da dificuldade de acordar cedo para arrumar a casa. Quando morava em São Paulo, minha mãe ou Isabella se encarregavam de tudo. Naquela época, sequer sabia como passar um pano no chão.
Mas desde que vim morar com Yuri, a minha rotina se transformou. Tive que deixar de lado a preguiça e assumir a responsabilidade de cuidar da casa. Isabella não pode mais me ajudar, pois mora distante, e Juliana vive imersa em seu sono. Yuri, por sua vez, é outro preguiçoso; nem a toalha ele consegue colocar no lugar certo.
Os meses que se passaram trouxeram mudanças significativas. Meu relacionamento com Yuri se fortaleceu, embora, de vez em quando, a arrogância e o orgulho nos levassem a discussões intensas, e ficássemos sem nos falar por dias. Mas as brigas nunca perduravam. Na faculdade, as coisas iam maravilhosamente bem. Em breve, me formarei e, finalmente, poderei dizer adeus à escola. A partir de então, o mundo do trabalho me aguarda.
Yuri, porém, não gosta da ideia de eu trabalhar. Ele deseja me sustentar. Mas nunca permitirei isso. A ideia de ser sustentada por alguém, quando se tem idade e capacidade para correr atrás, é uma humilhação. Compreendo quem não tem outra escolha, quem se vê sem opções. Mas gostar de depender dos outros, de viver à custa do dinheiro alheio... isso, para mim, é algo impensável.
Não me arrependo nem por um segundo de ter voltado a estudar. Antes, eu não me interessava pelos estudos. Minha mãe me desmotivava constantemente, humilhava-me e me fazia acreditar que eu era incapaz de ser alguém na vida.
Parece que, na minha família, é uma tradição os pais falharem.
Não sinto falta de minha mãe. Não me preocupo com ela, nem me sinto culpada por não querer mais saber dela. Talvez isso seja considerado pecado — afinal, mãe é mãe — mas é impossível cultivar afeto por alguém que nunca me deu apoio, que me deixou sozinha diante de tantos problemas, quando eu ainda era uma adolescente.
Quando percebi que estava sendo tomada por pensamentos negativos sobre o passado, sacudi a cabeça, aumentei o volume da música, prendi o cabelo e voltei ao trabalho.
— E o meu retrato eu guardei no celular... Eu vou embora, mas saiba que vou voltar. Agora não estou preparado para amar, 23 anos na flor do esperma para usar! — cantarolei ao ritmo da canção, tentando afastar os pensamentos ruins.
Comecei a organizar o armário de Yuri. A única coisa que ele mantinha em ordem eram suas roupas e sua coleção de armas. Fiquei aliviada por não precisar passar o dia inteiro organizando aquele armário, pois, sinceramente, não seria capaz de suportar.
Arrumei tudo meticulosamente, as bermudas em um canto, as blusas em outro, e até os bonés na parte superior do móvel. Estava quase terminando, quando algo chamou minha atenção: uma caixa preta e simples, sem muitos detalhes. Peguei-a nas mãos e sentei na cama. Minha curiosidade falou mais alto.
Abri a caixa e, para minha surpresa, encontrei uma coleção de fotos antigas, de um tempo em que Yuri ainda era criança, banguela, com laços de sapato amarrados nas calças para substituírem os cintos. Era como se estivesse olhando para um outro Yuri, um passado distante que eu pouco conhecia.
Sorri ao ver algumas das imagens, especialmente uma em que ele estava com a barba pintada de amarelo — uma visão um tanto cômica. Porém, conforme examinava as fotos, algo me chamou a atenção de maneira mais profunda: uma foto de Yuri segurando uma bebê nos braços. Ele olhava para ela com uma intensidade que nunca havia visto antes, como se estivesse possuído por um amor profundo e inexplicável. As fotos com a bebê se repetiam, mas, quanto mais eu as olhava, mais via as semelhanças de Yuri no rosto da criança. Ele parecia amá-la de uma forma quase religiosa, e ela, por sua vez, não se afastava do sorriso ao lado dele.
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Meu Novo Recomeçar
Ficțiune adolescențiIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
