Capítulo 29

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Márcia narrando...

Hoje é sexta-feira, o dia mais sagrado da semana, o único que, com sua essência rara e única, nos acolhe com reverência, oferecendo-nos a chance de repousar o espírito, de saborear a liberdade que ele promete. É o momento de dançar com o vento, de ceder aos prazeres fugazes da vida, de perder-se em instantes efêmeros de alegria e liberdade. E, como poderia deixar de mencionar? É o dia de nos rebelarmos, de samba e riso na face das adversidades, celebrando nossa existência em meio ao caos.

Se não fosse pela falta de vergonha que carrego comigo e pela tentação irresistível de me perder em prazeres temporários, talvez preferisse, em segredo, uma noite tranquila: uma pizza aconchegada nas sombras de um quarto, um bom filme na tela da Netflix, e o doce silêncio que acompanha a solidão. Mas, ao que parece, o impulso de viver de forma intensamente carnal predomina, e essa escolha mais serena fica para outra ocasião.

Após um dia consumido pelos estudos, tentando recuperar as muitas horas perdidas entre aulas e livros que eu deixei para trás, cheguei ao Chapadão, exausta e faminta. A rotina exaustiva de atravessar a cidade apinhada e, ainda por cima, subir o morro a pé, me arrasta todos os dias para um limite que, por vezes, me parece insuportável. E, em alguns momentos, não posso deixar de questionar por que não pensam em instalar esteiras rolantes por aqui, ao menos para economizarmos as forças que nos são tiradas.

Ao abrir a porta de casa, aquela pequena peste que tanto amo correu ao meu encontro, abraçando-me as pernas com aquele afeto disfarçado de travessura. Quando Bárbara faz isso, já sei que algo está prestes a acontecer: ou mexeu em algo que não deveria, ou está prestes a pedir algo impossível.

— O que você quer, Bárbara? — Perguntei, com uma indiferença calculada, já bem familiarizada com as artimanhas da pequena.

— Quelo nada, titia. Tô sendo calinhosa! — Respondeu, balbuciando as palavras, como se tentasse conquistar minha atenção com sua doçura.

Fiquei desconcertada. Ontem, eu era a "titia má", a que toma os doces e as guloseimas, enquanto Juliana era a "titia boa", aquela que a mimava com tudo o que desejava. E agora, ela se fazia de carinhosa comigo, como se nada tivesse acontecido? Essa menina é, sem dúvida, um enigma.

Bárbara me soltou assim que dei-lhe uma bolsa cheia de doces, mas não sem antes adverti-la: se ela ousasse contar a Isabella, eu cortaria os cabelos da sua boneca Barbie. Isabella, afinal, não permite que a pequena coma doces nesse horário, pois, à noite, parece ser impossível de controlar sua energia, como se estivesse ligada à uma fonte inesgotável de eletricidade.

Deixei-a ali, entretida com seus rabiscos no tapete da sala, e fui até Isabella.

Já se passara uma semana desde aquele fatídico incidente em que o meu primo quase a matou. Os hematomas, embora demorados para cicatrizar, estavam se curando, graças aos remédios que a enfermeira local lhe proporcionou. No entanto, eu sentia que algo em Isabella havia mudado. Não fisicamente, mas havia algo em sua alma que parecia ter se apagado. Não era visível, mas era palpável.

Ela estava mais distante, mais fria. Seus olhos, antes vivos e penetrantes, agora pareciam perdidos, vazios. A comunicação entre nós havia se tornado mais difícil, e suas palavras, quando saíam, vinham carregadas de um pesar silencioso. Não era mais a mesma.

Mas eu a compreendia. Não a julgava, jamais. Conhecia a história de sua dor, das humilhações e das surras que enfrentou desde os tempos de escola. Sempre admirei sua força, sua maturidade e a responsabilidade com que carregava o peso do mundo sobre os ombros. Para mim, Isabella era um exemplo de mulher, alguém que, neste mundo repleto de injustiças, merecia ser feliz.

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