Isabella narrando...
1 mês depois...
O suor descia em gotas preguiçosas pelo meu rosto, escorrendo pelas têmporas até o queixo. Quando senti a pele começar a arder sob o sol impiedoso, parei de subir o morro, larguei as sacolas no chão e, com um gesto automático, prendi os cabelos num coque desajeitado.
— Que calor dos infernos é esse, hein, Pai do céu? — murmurei, mais para mim do que para os outros.
— Ah, não vem reclamar agora! — rebateu Márcia, se abanando com a mão, numa tentativa inútil de afastar o calor. — Foi tu que cismou de sair nesse sol de meio-dia só pra comprar fruta!
Bárbara, a pequena imitadora, começou a se abanar também, com a mesma indignação encenada da tia.
— Márcia, me poupa! Tu veio porque quis, minha flor. Agora colabora aqui com as sacolas, que eu não sou de ferro, não — revidei, arqueando a sobrancelha.
Ela me mostrou a língua, numa provocação infantil que fez Bárbara cair na risada.
Eram pouco mais de onze e meia da manhã. O sábado queimava o morro sem piedade — não havia brisa, não havia sombra, só o sol e o pó da ladeira. Havíamos acabado de comprar frutas e legumes na feira e voltávamos para casa, suadas e famintas.
O morro, como de costume, estava vivo. Crianças corriam morro acima com pipas nas mãos, suas vozes agudas rasgando o ar quente. Em frente aos bares, os traficantes se misturavam à mulherada, bebendo e fumando, e algumas garotas dançavam funk descalças na praça. Por um lado, aquilo tudo formava uma imagem quase bonita, quase poética.
O morro, apesar de suas feridas e da pobreza que nos morde pelos calcanhares, tem um jeito curioso de fazer a gente se apegar. Aqui, mesmo sem muito, nunca falta um sorriso — e isso, confesso, é uma riqueza que o asfalto não conhece.
Seguíamos subindo, com sacolas nas mãos e conversas no ar. Bárbara cumprimentava cada pessoa que cruzava nosso caminho, sorrindo como se todos fossem velhos amigos. De vez em quando, reclamava do calor, da fome ou dos dois ao mesmo tempo.
Fazia algumas semanas que ela tinha saído do hospital, e posso dizer sem medo: foram os melhores dias da minha vida. Desde então, não desgrudo dela por nada. Vigio, cuido, protejo. Tenho medo de que o mundo a toque outra vez. Medo de que aquele traste volte a tentar alguma coisa, que ouse sequer sonhar em nos separar.
Troquei de número três vezes em um mês, e mesmo assim ele ainda encontra maneiras de me ameaçar. Não sei como consegue. Não sei como continua. Só sei que o pavor não me larga.
O caminho até em casa era curto, mas inevitavelmente passava pela boca — e, naquele dia, tudo que eu menos queria era cruzar com alguém de lá.
Fazia um mês que Matheus havia decidido me ignorar. Tentei pedir desculpas, admito. Talvez eu tenha sido ríspida, talvez não tenha sido clara, mas ele preferiu o silêncio. Agiu como criança birrenta. E, sinceramente, nunca aceitei que brincassem com meus sentimentos. Não se diz "eu te amo" sem intenção. Não se planta amor onde só há vaidade.
Wesley, por outro lado, eu o vi duas vezes nesse intervalo. Sempre acompanhado da mesma morena do hospital. Em ambas, senti um ciúme bobo e absolutamente inútil.
Seria ela sua namorada?
Meus pensamentos foram interrompidos pela voz animada de Bárbara.
— Mamãe! Mamãe! Olha o titio ali! — puxou meu short, apontando com o dedinho na direção da boca.
Olhei por instinto. Lá estava ele. Wesley caminhava na nossa direção, o boné cobrindo metade do rosto, sem camisa, exibindo aquelas tatuagens que pareciam contar histórias inteiras.
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Meu Novo Recomeçar
Ficção AdolescenteIsabella foi criada em um ambiente de violência e desprezo, onde o amor parecia ser uma ilusão distante. Desde pequena, foi vítima de abusos cruéis, e as cicatrizes que carrega, tanto na alma quanto no corpo, são testemunhos silenciosos de sua dor...
