Capítulo 34

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Wesley narrando...

Não podia ser real. Uma afronta tão absurda que beirava o delírio: um homem qualquer invade minha quebrada, atropela uma criança inocente, troca tiros comigo e foge sem deixar rastro. Ninguém viu. Ninguém soube. Como se o próprio demônio tivesse cruzado nossas vielas e evaporado no vento.

O ódio me fervia no sangue. Ordenei de imediato: cerco fechado. Nenhuma alma entrava ou saía. Aquilo não era uma favela, era um campo de caça. E eu era o caçador à espreita do covarde.

A tropa foi espalhada por todos os cantos do morro. Vasculharam cada viela, cada beco do Chapadão. Nada. O homem sumira como sombra em noite sem lua. Revirei as imagens das câmeras de segurança, as entradas, as saídas — tudo em vão. Nem o vulto dele. Nem seu cheiro. Nenhuma pista.

Restava a possibilidade do matagal — aquele que leva à rodovia do Chapadão Sul —, mas passar por ali sem o conhecimento dos meus soldados seria suicídio. Alguém o ajudou. Alguém o escondeu. E isso, eu jurei, não ficaria impune.

A lembrança do acidente ainda me assombra. Foi tudo tão rápido, tão brutal. A menina, voando pelo ar, seu pequeno corpo silenciado contra o asfalto. Por um momento, temi o pior. Quis mandar alguém levá-la ao posto, pagar o prejuízo, dar conta da situação. Mas não. Eu mesmo a ergui do chão. Eu mesmo a levei no meu carro. Quis mostrar presença. Quis demonstrar que, mesmo no ódio, reconheço quem, um dia, estendeu a mão por mim.

Não me arrependia da surra que dei na Isabella, por causa do envenenamento da minha filha. Mas sabia — sempre soube — que ela não fazia parte daquilo. Era inocente. Só tentou ajudar. Por isso, fiz por ela o que um dia ninguém faria por mim.

O mais estranho foi a distração dela diante daquele homem. O mesmo que atropelou a criança. Isabella nem notou Bárbara correndo. O ambiente ficou pesado, como se o tempo parasse. A menina paralisou ao ver o homem. Havia um ódio no olhar dela, uma fúria contida, uma urgência de vingança que me arrepiou. E ele... ele sorria. Um sorriso cínico, mas por trás dele, uma raiva contida.

Naquela hora, recebi o chamado de Matheus pelo rádio, perguntando se Isabella estava comigo. Ele já sabia do ocorrido e correu até o posto, como um louco. Abraçou a garota com um desespero de quem já havia perdido tudo uma vez. Como não havia mais o que fazer, deixei minha filha com a Thayane — de confiança — e fui cuidar da minha vida.

Duas semanas passaram como se fossem dois dias. Decidi me afastar da boca, da favela, dos negócios. Queria tempo com minha pequena. Sol no rosto, filme na TV. Mesmo que ela ainda não entendesse nada, era meu tempo com ela. Ágata crescia diante dos meus olhos, e eu sentia que deixava momentos passarem como areia entre os dedos.

Mas a realidade da quebrada não espera. Não podia deixar tudo nas mãos de dois malucos — Matheus e Yuri. Resolvi voltar. Eu era o dono do Chapadão, afinal. Tinha que estar presente.

Nunca fui à escola. Aprendi a contar na rua, vendendo droga, multiplicando sem papel, sem lápis, só com a mente afiada e o instinto de sobrevivência. Entendo de matemática mais que muito mauricinho engravatado. Matheus não curtia essa parte. Sobrou pra mim.

Passei na boca esperando um cenário de guerra, mas encontrei apenas a frieza do trabalho bem feito: mais de cento e cinquenta "camisinhas sujas" — armas prontas para o disparo — e uma pilha de contas riscadas com cifras a fechar.

Nesse instante, o celular vibrou no bolso e trouxe à tona um nome que eu achava ter enterrado no passado: Gustavo Henrique.

Um velho amigo, agora casado e pai de gêmeos, convidava-me para o aniversário dos meninos — uma rara oportunidade de reviver antigas resenhas, num ambiente longe do "corre".

Meu Novo RecomeçarHistórias para pegar e não largar. Descubra agora