Capítulo 51

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Wesley narrando...

Assim que retornei à minha comunidade, não me dei ao trabalho de subir para casa. Ajustei o capuz escuro até a altura dos lábios e segui calado, desviando dos olhares, das perguntas silenciosas, dos cumprimentos que não me interessavam. Não havia espaço para distrações. O dia já começara pesado, e cada passo que eu dava parecia carregar o peso de mil.

A tensão dos últimos dias tinha se acumulado no meu corpo como ferrugem em metal antigo. Desde o desentendimento com Matheus, ele simplesmente abandonou suas funções. Tudo recaía sobre mim — decisões, cobranças, consequências. Wesley havia se tornado o nome que ecoava de cima a baixo nas vielas, como se eu fosse o único capaz de manter aquela engrenagem funcionando à força de vontade e raiva contida.

Fazia pouco mais de duas semanas que eu estava afastado, cuidando de questões delicadas em outros morros. Assuntos urgentes, perigosos, inevitáveis. E ainda assim, entre emboscadas e acertos, a única coisa que não conseguia afastar da minha cabeça era o rosto dela.

A loira maldita.

Quinze dias sem sua voz carregada de sarcasmo, sem os olhos que me desarmavam mesmo quando me desafiavam. Por sorte, Ágata estava sob os cuidados de Isabella e Márcia, o que me permitia não me desesperar — ao menos não no sentido prático.

Sentei-me na cadeira da sala e, num gesto automático, retirei um cigarro enrolado do bolso. Precisava de silêncio e fumaça, do alívio artificial que só a brasa e a ilusão oferecem.

O celular vibrou.

Era Stephanie.

— Quero você aqui às 16h.

— Estarei lá, meu amor.

Ignorei o apelido. Já conhecia o jogo: carência maquiada de interesse. Tudo o que queria agora era distância. Desativei a tela e deixei o aparelho de lado. No fundo, minha mente já vagava por outro caminho, aquele em que Isabella surgia com sua aura inquietante, como uma tempestade prestes a romper o céu.

Ainda lembrava do dia em que a vi no restaurante da Gilda. Eu passava com Stephanie na garupa quando ela apareceu — sentada, serena, ao lado da filha e daquele maldito médico. A raiva veio como um golpe seco no estômago. Senti vontade de descer da moto, partir pra cima dos dois e mostrar que comigo não se brinca.

Não importava o que eu tinha dito a ela. Que "não tínhamos nada". Que "cada um segue sua vida". Palavras jogadas da boca pra fora pra fingir que eu controlava aquilo. Mas eu não controlava. E se havia algo que me tirava do eixo era a ideia de vê-la em outros braços.

A porta se abriu sem aviso prévio. Era Matheus.

— Preciso falar contigo.

— Nunca ouviu falar em bater antes de entrar? — retruquei, sem esconder o desagrado.

Ele não respondeu. Apenas caminhou até a poltrona à minha frente e sentou-se. O rosto era o mesmo — familiar até o âmago — mas o vínculo entre nós, esse já se desfizera em silêncios e distâncias.

Matheus fora mais que um amigo. Irmão, talvez. Alguém que conhecia cada dobra da minha escuridão. Mas ultimamente, nossas estradas, antes paralelas, haviam começado a divergir, e o que era confiança agora se resumia a ruído.

— Já soube? — perguntou, indo direto ao ponto.

— Por acaso pareço vidente?

Ele soltou um suspiro lento, encostando-se com o peso de quem carrega verdades amargas.

— Isabella está grávida.

A frase cortou o ar como uma lâmina fina e precisa.

— Como é?

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