Capítulo 48

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Wesley narrando...

Nos últimos dias, fui apenas ruína — um amontoado de erros, um reflexo distorcido do que um dia tentei ser. Me afoguei sem pudor na cocaína, fiz da maconha um abrigo e da vodca minha confidente silenciosa. Bati novamente na Isabella. Estraçalhei a cara do meu melhor amigo. Yuri ficou dias internado e, mesmo assim, eu segui como se nada tivesse acontecido. Arrastei minha filha pra longe, me isolei, me anulei.

Desde a última invasão, quando aquele desgraçado escapou da minha favela como um rato, o ódio virou uma coisa viva em mim — algo que cresce e sussurra, que arde nos ossos. Se Rael ajudou ele a fugir, vai morrer junto. Já mandei o X9 rastrear esse maldito por todos os morros rivais. Rodrigo vai morrer. Falta pouco.

Dizem que ele não me fez nada. Mentira. Fez. Fez cada ferida que a Isabella carrega no corpo. Em cada abuso. No acidente da Bárbara. E no fundo... talvez, só talvez, o que ele me tirou não possa mais ser devolvido.

Isabella levou a Ágata embora — e fez certo. Eu estava fora de mim, virado, cego, perigoso. A qualquer momento, poderia ferir quem não merecia. Aquele dia... só o cheiro dela no quarto já me levou de volta pro instante em que ela me acertou uma joelhada no meio das pernas. Se eu estivesse sóbrio naquele dia, teria matado ela. E é isso que mais me assusta.

Mas a raiva que me corroía começou a desmanchar quando a vi ali, na minha frente, impassível, com os olhos queimando de coragem.

— Bate. Bate de novo, Wesley. Mostra que é covarde, que é o dono do mundo, que resolve tudo no murro. Bate pra me provar que é homem. Porque da última vez foi um "chupe", mas hoje eu arranco fora a porra inteira.

As palavras dela ecoaram como facadas. Eu avancei, puxei seu cabelo com força, a cabeça dela inclinou, o pescoço tenso.

— Acha mesmo que isso vai me machucar? — disse Isabella, a voz firme, mas embargada por algo mais fundo. — Que um puxão de cabelo vai me fazer sentir dor ou derramar lágrimas? Já passei por coisas muito piores do que isso, Wesley. Já disse e repito: eu apanhei demais nessa vida miserável até o dia em que tive coragem de dizer basta. Não sou saco de pancada. Eu tenho sentimentos, está me ouvindo? — completou, afastando com decisão minhas mãos de seus cabelos. — Você acha que é fácil ficar correndo atrás de você o tempo todo? Tentar conversar, criar qualquer laço ou simplesmente simpatizar? Me explica, Wesley: por que você é assim? Frio, seco, cruel até. Por que sente prazer em humilhar as pessoas? Por que não permite que ninguém se aproxime de você, nem da sua filha?

— Se é pra grozear no meu ouvido, mete o pé dessa porra e traz logo minha filha — respondi, sem sequer olhar em sua direção, ignorando tudo que acabara de ser dito.

— Está vendo? — ela rebateu, os olhos marejando, mas ainda reluzentes de indignação. — É disso que estou falando! Você foge, sempre. Não responde, muda de assunto, se esconde em silêncio como se as palavras dos outros não tivessem peso algum. — Passou a mão pelos cabelos, tentando conter o turbilhão. — Um dia, você é carinhoso comigo, com a Bárbara, quase me faz acreditar que existe algo de verdadeiro em você... mas no outro, se transforma completamente. E eu fico aqui, me perguntando: será que, pra você, eu só sirvo como um objeto? Porque quando se trata de sexo, você vem com suas palavras doces e suas promessas vazias. Mas depois que mata seu desejo... quem é a Isabella pra você?

Levantei o rosto. Vi os olhos castanhos dela prestes a desabar, mas firmes. Tão fortes.

— Você tem razão.

— No quê? Que você é um canalha?

— Você é só um objeto sexual pra mim... aliás, nem isso. Eu nunca quis nada com você. Se iludiu sozinha. Acabou. Acabou essa brincadeira. Não sou homem pra você, nem vou ser.

Eu disse. Cuspi as palavras com o veneno da negação. Porque, no fundo, cada letra era mentira. Mas talvez fosse necessário mentir pra libertá-la de mim.

Ela me olhou uma última vez. Não disse nada. Apenas virou as costas e saiu.

E foi só quando a porta fechou, que entendi o tamanho da burrada que eu tinha feito.

Os dias foram se passando e eu voltei pro movimento. A cabeça focada na boca, no corre, na guerra. Matheus andava sumido, o que facilitava as coisas. Graças ao Kaique e ao KP, tudo ainda se mantinha de pé.

Ágata continuava sob os cuidados da Isabella — e ainda bem. Era melhor assim. Eu não tinha estrutura pra ser pai. A gente fez um acordo: de manhã, mandava um vapor levar a pequena, à noite buscava. Isabella deixou claro os limites. Não deixou mais a Bárbara vir pra minha casa, nem uma visita. Só deixou uma vez. A mulher guardou mágoa. E com razão mas eu não me importava.

Passei na casa do Yuri, conferi se ele tava inteiro. Vai voltar pro trampo amanhã. Depois de um mês de repouso por causa da cirurgia, é o mínimo. E nego ainda diz que não sou bom patrão. Vai tomar no cu.

— Quero esse arrombado aqui, vivo ou morto. Na minha quebrada. Tô pagando, então se vira. Nome, escola, emprego... tudo. Quero até o tipo sanguíneo, porra.

— Pode deixar, patrão. — disse o vapor, saindo rápido.

Kaique e KP me encararam com aquele jeito de quem tá vendo um maluco em ação.

— Tu tá doente, irmão. Vai matar geral por causa de um pau no cu? — Kaique riu.

— Ex da Isabella, a mina que ele tá de quatro mas não admite. — completou KP, rindo mais ainda.

— Otário é tu, que eu como tua mãe todo dia. Eu não fico de quatro pra mulher nenhuma. Dou o psi e sigo. Uma só nunca me segurou.

KP ergue as mãos, rindo.

— Relaxa, veado. Tava de tiração. Até porque, a nega agora tá saindo com o doutorzinho do posto. Vi ela dias atras toda produzida entrando no carro dele. Se deu bem, hein.

— Bom pra ela. — comentei, fingindo desinteresse, como se cada palavra dita não estivesse corroendo por dentro.

A verdade é que a raiva já percorria minhas veias como um veneno quente, lento, implacável. Minha mente, uma máquina desgovernada, criava cenários — mil e uma formas de acabar com os dois, friamente, sem remorso.

Acendi o baseado com a calma de quem está prestes a explodir.

Traguei fundo, deixando a fumaça preencher o peito como se pudesse afogar o ódio. Aos poucos, o corpo cedeu, amolecendo sob o efeito, mas por dentro... eu continuava em brasa.

— Vai subir sozinha, Márcia?

— Claro. Por quê? Vai me escoltar agora, Safadão?

— Sou teu sangue e dono dessa porra. Tenho que saber. Sobe, vou te dar carona até tua casa.

— Precisa não, Wesley. Não gosto de incomodar. E tua cara não me engana, tá com corre pendente.

— Sobe antes que eu te arraste.

Ela subiu. Em menos de dez minutos, eu já estava em frente à casa da Isabella. Quando Márcia desceu da moto, fui direto pra porta. Toquei a campainha várias vezes, coração martelando no peito.

Escutei Márcia falando alguma coisa atrás de mim, mas já não compreendia. Só ouvia o sangue batendo forte no ouvido.

A porta se abriu.

E lá estava ele.

O maldito.

Com a minha filha nos braços.

Boa noite 🔥

Que capítulo foi esse???

Vamo ⭐ e 💬 bastante pra amiga postar.

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